Domingo, 5 de Abril de 2009

Adivinhe quem vem jantar?


Luísa

 

Estamos sem palavras. A Porta do Vento acaba de ser notificada de que, tendo cometido a infracção de não respeitar hierarquias, foi condenada a receber para jantar, hoje mesmo, um certo auto-convidado. A nossa consternação é imensa, agravada pela dupla dificuldade com que nos confrontamos. A primeira é saber quem é, realmente, este «penetra». Temos indicação do nome, é certo, e do costureiro, o Ermenegildo. Mas tudo o resto são interrogações. Não sabemos se é ou não é engenheiro. Não sabemos se tem ou não tem experiência efectiva na área do projecto imobiliário de gama muito baixa. Não sabemos se fala ou não fala mais do que um Português elementar, nem se domina ou não domina a língua de Shakespeare na sua versão técnica. Não sabemos se fuma ou não fuma. Não sabemos se é ou não é um desportista, nem se pratica ou não pratica «jogging» com regularidade superior à das suas deslocações oficiais ao estrangeiro. Não sabemos se é ou não é honesto, nem se é ou não é um homem de família, embora pareça – mas talvez não… – capaz de vender o tio, o primo e a própria mãe. Não sabemos se perfilha ou não perfilha o espírito do «Robim dos Bosques» – mesmo não duvidando de que perfilha o do «Chico esperto». Não sabemos se fez ou não fez mil e uma reformas; se cumpriu ou não cumpriu mil e uma promessas; se governa, se não governa, ou se simplesmente desgoverna… Não sabemos, em suma, nada de nada! Para sermos francas, não sabemos sequer se é uma pessoa de corpo e alma, ou se apenas a personagem de uma ficção de marketing político, promovida por umas forças indefiníveis – evitemos os estafados adjectivos de «negras» e «ocultas» – ao serviço de interesses inomináveis. Tantas incertezas matam-nos, naturalmente, porque ninguém, no seu perfeito juízo, mete em sua casa quem não conhece. E depois, como vamos escolher um menu adequado e uma roda de convivas que não se deixe tolher pelo receio de abordar temas inconvenientes ou melindrosos? A animação deste jantar vai ser uma dor de cabeça. Se não aparecer ninguém, a nossa anfitriã já disse que lhe dá música, a excelente «Ópera do Malandro»…

 

A segunda dificuldade é a falta de tempo para grandes rasgos de criatividade culinária. Mas porque a lata do auto-convite pede um jantar com lata, pensamos explorar alguma da que temos em despensa e abreviar trabalho. Assim, para a entrada, atacamos umas latinhas de cogumelos, que gratinamos com queijo sobre lasca de presunto de «Chávez». Para o prato principal, investimos numas latas de atum, e confeccionamo-lo em «quiche», com o frugal acompanhamento de um tachinho de nabos confitados. E para sobremesa, avançam as sempre providenciais latas de «melocotones», o debate sendo se os perfumamos com uns polvilhos de arsénico, se os guarnecemos com umas hastes de cicuta. O vinho – lembrando a crise… – servimo-lo a copo, aproveitando o apaladado Casal da Eira, colheita especial Tetra Pak, que nos sobra dos assados. E depois do café – e, concedemos, de um «Português Suave» saboreado atrás da cortina – ala que se faz tarde!

 

Claro que não deixaremos de avisar que o jantar começa rigorosamente às nove e que os atrasos, nesta Porta, se assinalam com vaias monumentais.

 

publicado por Ana Vidal às 09:30
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36 comentários:
De JuliaML a 5 de Abril de 2009 às 10:23



cicuta, cicuta, Luisa, que é mais doloroso do que o arsénico!

o máximo, este jantar!


De Luísa a 5 de Abril de 2009 às 18:01
Querida Júlia, com tão entusiástica recomendação, cicuta será!!! E, já agora, insinuam-se também umas folhitas no tachinho dos nabos. Um dos nossos motos é «despachar vários coelhos de uma cajadada.» ;-D

De fugidia a 5 de Abril de 2009 às 10:48
:-) :-) :-)

Eu vou a este, definitivamente, querida Luísa!
MAS SEM a ópera do malandro, que é demasiado boa (e eu adoro, aliás) para este conviva, ora!

Para este penetra armado em PM sugiro o Pump It (dos Black Eyes Peas), que me (nos) dará o ritmo com que poderei(emos) abordar certos temas...
:-) :-) :-)
De Luísa a 5 de Abril de 2009 às 18:16
A ideia, Fugi, era insinuar-lhe alguns «paralelos»... Mas é possível que se delicie com a obra e não os atinja. Quanto aos «Peas», não conheço, mas o nome parece-me muito sugestivo. A ideia dos «Black Eyes», então, agrada-me imenso. Pelo sim, pelo não, bato os ovos da «quiche» à mão, a ver se ganho os necessários bíceps. ;-D

De Pedro Barbosa Pinto a 5 de Abril de 2009 às 11:49
Atendendo ao convidado, aconselho atenção na escolha da baixela, Luísa.
A Vista Alegre tem um serviço branco, com pequenos defeitos que mal se notam e que vende muito barato em qualquer supermercado. Vai muito bem com umas travessas em forma de alfaces, Bordalo Pinheiro, que também por lá andam em saldos. Para o vinho é de evitar as canecas Zé-povinho a fazer o manguito, não vá o convidado achar que se trata de algum remoque. Consta que ele não tem muito bom feitio...
E claro que nem seria preciso lembra-la de esconder o talher de prata. Por causa dos sinais exteriores de riqueza, bem entendido!
De Luísa a 5 de Abril de 2009 às 18:47
É indecente, Pedro, que nos dê tão boas ideias e depois nos avise contra elas. Assim, de repente, já só me apetecia usar loiça das Caldas. Mas tem razão, o auto-convidado era capaz de não apreciar alguma… e outra, apreciar demais, sei lá... Quanto ao talher de prata – e aos anéis e aos trancelins – já está tudo debaixo do parqué. Esta terá de ser, desafortunadamente, a noite do pechisbeque. :-S
De Ana Vidal a 5 de Abril de 2009 às 14:32
Luísa, estou na dúvida com a mesa: não sei se hei-de pôr o guardanapo do lado direito, à inglesa, já que o nosso convidado (apesar do macarrónico inglês técnico) tem tantos contactos em Inglaterra. Acha que seria um gesto de cortesia... ou de provocação?? ;-)
De Ana Vidal a 5 de Abril de 2009 às 14:54
Esqueci-me de acrescentar que espero que o Português Suave seja saboreado atrás da cortina, com toda a discrição e longe da vista das anfitriãs... e espero também que não lhe caia mal, a seguir ao jantar. ;-)
De Luísa a 5 de Abril de 2009 às 18:49
Já viu, Ana, são problemas atrás de problemas. Mas por que não dobrar o guardanapo em jeito de borboleta e espetá-lo no copo? A mesa ficava vistosa, disfarçava a simplicidade da loiça e do talher… e a borboleta é, palpita-me, um bicho das simpatias do nosso «Premier»… ou, por outras palavras, um bicho simpático. :-)
De Luísa a 5 de Abril de 2009 às 18:52
Esse detalhe pós-prandial preocupa-me, Ana. Temos que deixar claro que só poderá saborear um. É que «Portugueses Suaves» há muitos, como os «chapéus». ;-D
De Ana Vidal a 5 de Abril de 2009 às 20:29
Na verdade o guardanapo é de papel, Luísa. Podemos fazer com ele uma borboleta ou um papagaio e espetá-lo no copo... acho boa ideia!
De Grande Jóia a 5 de Abril de 2009 às 15:35
Ai Luísa que este jantar vai-nos causar indesgestão. Só sabemos que o convidado é do signo de virgem e que gente próxima dele não sabe o que é pressão.
A ementa parece-me demasiada. Para quem é, basta uma saladinha com molho vinagrette, uma água del cano e umas pevides que nos sobrarem do verão passado.
De Luísa a 5 de Abril de 2009 às 19:01
Essa do signo da Virgem não sabíamos, Grande Jóia. É um dado a acrescentar ao nome e ao costureiro Ermenegildo. E já começamos a saber muita coisa! :-D
A ementa é generosíssima para um «penetra», também o reconhecemos, mas sempre temos o nosso brio.
De Grande Jóia a 5 de Abril de 2009 às 19:42
Veja como estou a ficar nervosa. Perante a perspectiva de indigestão até me saiu a palavra "indesgestão" que significa qualquer coisa que ninguém sabe...
De Grande Jóia a 5 de Abril de 2009 às 15:41
Também me esqueci dum assunto de extrema importância. Quem é que se vai sentar à direita e à esquerda? E as cadeiras chegam ou será melhor levar umas do campismo?
De Ana Vidal a 5 de Abril de 2009 às 15:50
Quanto a isso já está resolvido, GJ: o nosso convidado vai ter um tabuleiro sobre os joelhos, enquanto vê as notícias da TVI... :-)
De Luísa a 5 de Abril de 2009 às 19:07
E enquanto nós vamos vendo – com renovado interesse - os vídeos da campanha da Cicciolina em defesa da monogamia. ;-D
De Ana Vidal a 5 de Abril de 2009 às 20:32
LOL
De Grande Jóia a 5 de Abril de 2009 às 19:50
Parece-me bem. O tabuleiro é de plástico, claro!
E já agora alguém pode apagar um dos comentários repetidos? É que assim ficamos mesmo doentes :)
De Si a 5 de Abril de 2009 às 17:04
Peço imensa desculpa, mas a este jantar não faltaria, ainda que a anfitriã, nestes tempos de recessão, nada mais tivesse para servir, do que nabos crus, por descascar, por lavar e comidos à dentada!
É que sinto que, ao fim destas últimas semanas, como conviva, tenho o dever de ajudar as anfitriãs nesta dura empreitada.
Daí que sugira uma ementa mesmo à medida do 1,80m de penetra, e que ele próprio se torne refeição, já que os 8 kilos que engordou nos últimos tempos, poderão servir para alimentar muitas bocas esfaimadas pela crise, desde que, tal como aos cabritos pascais, se marine as carnes em excesso numa água bem perfumada com limão e ervas, retirando qualquer sabor a ranço político.
Também para a preparação devida das carnes se considerará a forma da matança, bastando para isso, que se junte uma parca pitada de estricnina ao seu copo de 'Casal da Eira' : quanto menor a quantidade, maior a eficácia, apresentando ainda a vantagem de, pelo seu amaríssimo sabor e antes do tal de aspirante a filósofo 'bater a caçoleta' lhe ser retirado o sorriso 'pepsodent' que ostenta, dando-lhe, finalmente, o devido descanso àquela musculatura facial tão tensa, e que, de outro modo se tornaria impossível de cozinhar.
Depois, é mesmo só preparar a gosto, não esquecendo que a mioleira deve ser desaproveitada pelo perigo de contágio de BSE, os bofes inutilizados, pelo negrume de portugueses suaves, e o bucho, apesar de tão dilatado e farto, deverá ser cuidadosamente desinfectado com anti-ácidos freeportianos, à venda em qualquer farmácia.
Luísa e Ana, espero que me perdoem esta minha ousadia e interferência no jantar deste domingo, talvez levada pelo entusiasmo de ter reunido a família em torno de um suculento 'Rancho à Portuguesa', feito à boa maneira tradicional e à margem das normas europeias, utilizando colher de pau e tudo!!!!
De Luísa a 5 de Abril de 2009 às 19:27
Questão prévia, Si: o Casal da Eira em invólucro Tetra Pak precisa de estricnina para esse efeito de que fala? ;-D
O seu comentário, Si, lembrou-me um filme de que gostei imenso, «Fried Green Tomatoes», com a Kathy Bates e a Jessica Tandy. Viu? A ementa, que simbolicamente propõe, parece-me ligeiramente inviável. É que tudo indica que a matéria-prima já está demasiado «faisandée» para merecer outro destino que não seja o lixo. ;-D
De Si a 5 de Abril de 2009 às 20:15
Casal da Eira poderá ser ou não suficiente, Luísa, pelo que, nunca fiando, nunca fiando!!
E depois, como descontrair a musculatura facial???
Confesso: fico mesmo com pena que não siga a minha sugestão....é que o lixo, minha cara amiga, agora é reciclável!!!!
De Luísa a 6 de Abril de 2009 às 00:13
Permito-me suspirar, Si, por que não o reciclem todo! ;-)
De mike a 5 de Abril de 2009 às 19:51
Tenho uma proposta para este jantar. E deve ser o pior que podemos fazer ao convidado. Pior até que cicuta, pedras da calçada ou assobiadelas. Vamos todos jantar a outro lado e deixamos o convidado a jantar (e a falar) sozinho. Vamos a um italiano, que acha, Luísa? Até porque, aqui que ninguém nos ouve, já houve ementas melhores... (risos)
De Rita Ferro a 5 de Abril de 2009 às 20:22
Eu alinho e arrasto a Luísa, juro! LOL
De Ana Vidal a 5 de Abril de 2009 às 20:34
Isso parece-me perigoso, Mike... se o deixamos sozinho, é muito provável que nos leve a mobília, ou mesmo a casa...
De Grande Jóia a 5 de Abril de 2009 às 23:56
Não há perigo, Ana, ele não ia rasgar o fatinho com a mobília. Nos dias seguintes é que é melhor ter cuidado com alguma taxa de utilização do espaço ou quem sabe um pagamento especial por conta.
De Ana Vidal a 6 de Abril de 2009 às 00:30
Pelo sim pelo não, o melhor é acertarmos com a dose de estricnina logo à primeira... ou ele manda-nos a ASAE amanhã!
De Luísa a 6 de Abril de 2009 às 00:19
Essa também era solução interessante, Mike. Mas, como sabe, sem licença da nossa anfitriã, não abandono o meu posto! Nem com o aliciante do restaurante italiano… ;-D



De Ana Vidal a 6 de Abril de 2009 às 00:35
Acho que já podemos ir agora, Luísa... Inês é morta! :-)
De Luísa a 6 de Abril de 2009 às 00:39
Mas claro que se a Rita, a Grande Jóia, a Si, a Fugi, a Júlia, o Pedro e o Mike optarem pelo italiano, Ana, não vamos nós ficar sozinhas com a avantesma, nem mesmo ao magnífico som da Ópera do Malandro! Deixamo-lo com os «melocotones», a cicuta e a TVI (mas sem o «Português Suave»!!!) e pomo-nos a milhas. Que acha? ;-D
De Ana Vidal a 6 de Abril de 2009 às 00:46
É para já! Já estou a vestir o casaco... :-)
De mike a 6 de Abril de 2009 às 19:01
Deixa lá o casaco, traz os ombros à mostra... (risos)
De JuliaML a 6 de Abril de 2009 às 00:42

acho que tenho uma solução - sirva-se o jantar numa "mesa pé de galo" , depressa ele irá pelos ares e vamos todos ao Restuarante italiano.

De Luísa a 6 de Abril de 2009 às 12:40
Júlia, mas que truque é esse da «mesa pé de galo»? Já ouvi dizer que essas mesas levitam e que fazem aparecer as almas do outro mundo, mas não sabia que também faziam desaparecer as almas deste. Muito úteis!
P.S.: Consta que a primeira reunião de trabalho entre o PR e o PM foi a uma mesa pé de galo. Porque será então que ainda cá estão os dois tão rijos e sãos que nem uns pêros? :-D
De mike a 6 de Abril de 2009 às 14:36
Fazemos melhor: Ana fecha a Porta do Vento para o convidado dar com o nariz na porta e, quem sabe, ser levado pelo vento, e vamos para o italiano. E concordo com a Rita. Arrastamos a Luísa. (risos)

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