Segunda-feira, 30 de Março de 2009

Fénix

 

No dia em que tudo ruiu, fez-se à estrada. Não olhou para trás. Não procurou entre as cinzas, soterrados nos escombros de uma vida, sonhos desfeitos que ainda pudessem respirar. Não socorreu memórias sobreviventes, deixou-as asfixiar no fumo que sobrou da grande fogueira que tinham ateado, ainda inconscientes da catástrofe que se avizinhava. Passou por cima de gestos e de palavras, pisou sorrisos agonizantes com os pés nus, já calçados para a viagem. Escorraçou todas as lembranças que teimavam em agarrar-se-lhe à pele e afugentou fantasmas, velhos conhecidos, a quererem passar para lá da porta de entrada. Ou de saída. Só de saída, nesse dia. Lavou das narinas os cheiros familiares, expulsou dos olhos as imagens coloridas de arcos-íris passados, sacudiu das mãos o velho ímpeto de arrumar uma vez mais o caos, de repor a ordem, como sempre fizera. Não aplacou os demónios que bailavam por todo o lado, enfim vitoriosos, seguros do seu poder. Por uma vez, deu-lhes tudo o que exigiam. Fechou a porta atrás de si e atirou a chave para longe. Lá dentro, por detrás da madeira triste, uma vida acorrentada. Não levou nada, não queria nada. De seu, só uma indómita e urgente vontade de partir. Tudo o resto ficou para trás, e nunca mais lhe fez falta.

 

 

(Imagem: René Magritte)

 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 10:30
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15 comentários:
De CNS a 30 de Março de 2009 às 10:50
O cerrar de uma portada de nós.
Belíssimo texto Ana!

um beijo
De Ana Vidal a 30 de Março de 2009 às 17:51
E o abrir de uma outra porta, muito mais larga, por onde não se passa sem fechar algumas atrás de nós...
Obrigada, Cristina.
Um beijo
De Si a 30 de Março de 2009 às 13:15
Há decisões na vida que só dão resultado se forem tomadas assim. Fechando o ciclo, deixando as pontas soltas tal e qual como estão, não importando se, no fim, ficaram rematadas ou não. Simplesmente, corta-se o fio, arruma-se e esquece-se o lugar onde deixámos as malhas, onde nunca voltaremos para as desmanchar.
De Ana Vidal a 30 de Março de 2009 às 17:54
É isso mesmo, Si. A tentação de consertar tudo pode transformar-se numa armadilha e numa verdadeira prisão. Não se pode passar uma vida inteira a remendar o que já se sabe que vai romper-se outra vez...
De Luísa a 30 de Março de 2009 às 14:49
Começar de novo não é, pelos vistos, apenas uma tentação. Pode também ser uma salvação. Gostei muito de a ler, Ana. Este é o espírito poético que eu compreendo… e o talento que invejo. :-)
De Ana Vidal a 30 de Março de 2009 às 18:20
Pode ser até uma questão de mera sobrevivência, Luísa. Mas acho que raramente é uma tentação, porque o desconhecido assusta sempre. Deixar tudo como está (só mais uma tentativa, só mais uma vez...) é mais fácil. Talvez mais doloroso, mas mais fácil.
De Pedro Barbosa Pinto a 30 de Março de 2009 às 15:11
“No dia em que tudo ruiu, fez-se à estrada… Tudo o resto ficou para trás, e nunca mais lhe fez falta.”

Encontro na ligação destas duas frases a enorme vantagem que os “irracionais” têm sobre os “racionais”, Ana. Não precisam de crise de nenhuma espécie para serem verdadeiramente livres e se fazerem à estrada sempre que lhes apetece. E se, como eles, partem sem levar nada, o que deixam é a doçura da saudade em vez do amargo do ressentimento.

Beijinho
De Ana Vidal a 30 de Março de 2009 às 18:30
No dia em que descobrimos essa liberdade, Pedro, aprendemos a lição mais importante de uma vida inteira. Não para nos fazermos à estrada sempre que nos apetece, mas para não ficarmos presos por coisas menores, que não têm nada que ver com a vontade. :-)

beijinho
De fugidia a 30 de Março de 2009 às 16:29
Adoro estes posts, Ana
Gosto de te ler.
Beijo :-)
De Ana Vidal a 30 de Março de 2009 às 18:31
Obrigada, Fugi. E eu gosto de ter-te por cá. :-)
Beijos
De JuliaML a 30 de Março de 2009 às 22:24

quase nem lia o texto, com tanto video seguido, Ana, apetece-me bater-te, descobri-o por milagre.

olha, estou a chorar com o texto.

um beijo por ele

De Ana Vidal a 30 de Março de 2009 às 23:15
Sorry, pela poluição de videos e pelo efeito que o texto te provocou...

Um beijinho
De mike a 31 de Março de 2009 às 01:40
Ena, Ana... grande post! :)
Mas "fazer-se à estrada" pode ser viciante, sem que seja preciso tudo ruir. "Fazer-se à estrada" é mais aliciante que quedar-se num porto com amarras. Hum... isso não é assunto para comentário e sim para post. ;)
De Ana Vidal a 31 de Março de 2009 às 01:50
Para alguns, sim, mas não para todos. O porto (mesmo com amarras) dá sempre uma ilusão de segurança, embora muitas vezes ela seja falsa.

Fico à espera do post...
De stella Tavares a 1 de Abril de 2009 às 20:10
Ficou para trás e nunca mais lhe fez falta. Libertadora frase, cheia de imagens de perspectivas aumentadas. Preenche e ilumina o coração de quem lê.
www.manualdoinseguro.blogspot.com

http://recantodasletras.uol.com.br/autores/stellatavares

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