Terça-feira, 17 de Março de 2009

Pocket Classic (Em busca do tempo perdido)

 Marie Tourvel

 

Cuidado, bilionário. Se você se interessar tanto por esta obra de Marcel Proust e resolver comprar todos os volumes para enfeitar sua estante corre o risco de encontrar em alguma livraria de sua cidade na seção “auto-ajuda”. Não é, tá? Proust ficou um tanto doidão escrevendo este romance que é um verdadeiro tratado sobre... ah, tantas coisas, tantas emoções, tantas crueldades. Ele descorre sobre música, arte, homossexualismo. Dá pra fazer um apanhadinho de tudo e falar com propriedade nonsense de cada assunto. Proust era meio esquisitão, sim. Morreu doente, o coitadinho, antes de sua obra completa ser publicada. Resumo do resumo do resumo do resumo... enfim, resumão:

Um cara – escritor, tem asma e tem crises da doença quando a mamãe, a namorada (o) e o escambau a quatro o rejeita. No fim todos envelhecem e ele resgata pela memória partes de sua vidinha e de acontecimentos históricos.

E saem a bailar.
 
Sim, só isto. Não reclame. O que importa aqui não é a história, mas sim, o que vem como bônus, assim como num jogo do videogame do seu filho aborrescente. Você se surpreenderá com as coisas que sairão involuntariamente de sua boquinha quando começar a falar sobre os pontos em que tocarei. Se você disser que é uma busca do tempo através da memória deixará os intelequituais contentes logo de primeira. Muita gente confunde com auto-ajuda justamente porque o autor usa este recurso da memória para mostrar que se pode não incorrer nos mesmos erros. Quando li essa coisa pesadona há muito tempo atrás achei que fosse ficar doidinha. Ficava horas com papai tecendo comentários sobre cada volume que lia. Confesso que o início de nossas mesas-redondas era um porre e logo em seguida me empolgava. A leitura deste crassicão é isso aí. Não tive coragem de reler, bilionário. Algum amiguinho sabichão vai lhe perguntar se a leitura da obra de Proust por muitas pessoas ajudaria a mudar e melhorar o mundo. Fuja desta pegadinha. Diga que nenhuma obra literária melhora o mundo. Que o prazer é de quem lê. E só. Sempre é bom salientar que os leitores se divertem percebendo tratar-se de um diálogo com os seus antecessores literários. Se insistirem e perguntarem sobre a história em si, seja lacônico e apenas solte: “é uma modorrenta, porém elegante, história de uma vocação literária”. Pronto! Matou a pau. De verdade. Não precisa rebuscar muito sua fala. Metade dos fulaninhos da rodinha sequer leram o primeiro volume. E não os culpem. Não é todo mundo que agüenta. Eu mesmo só agüentei porque papai me obrigou. Demorei muito pra terminar a leitura e lia mais dois outros títulos ao mesmo tempo. Pra ver se exercitava a Marilyn e a Monroe – meus dois neurônios, porque até meus neurônios são fêmeas. Diga que os temas recorrentes no livro são o tempo e o espaço. Não, carambolas, não é aquele livro de Física do seu primeiro ano do ensino médio. Diga que o personagem principal, o escritor, narra de forma estrutural as mazelas da burguesia e aristocracia entre 1870 e 1920. Diga que há lapsos em sua memória –não na sua, na do narrador. E que mostra a capacidade que todos temos em produzir memória involuntária. Se falarem sobre o homossexualismo do personagem ou mesmo no de Proust, não entre em roubada, deixe que os fofos intelequituais entrem neste assunto. E concorde com o menos esquerdizóide que encontrar. Você sabe como identificá-lo. Já dei essa lição por aqui. É uma autobiografia? Pode ser, pode não ser. Não é o que mais importa.


Teria muito mais coisas para falar deste romance, mas não me estenderei porque caso contrário você realmente vai achar que se trata de um “wishful thinking” e se perder nas conversas com nossos sabichões. Prefiro parar por aqui. Sei que você já aprendeu como deve sair da rodinha. Não? Está bem. Diga que não vê um amigo há muito tempo e quer presenteá-lo com um raro exemplar de "Sense And Sensibility” de Jane Austen. Termine com a seguinte frase de Proust: ”Só se ama o que não se possui completamente”, seja lá o que isso quer dizer. Repare nas respirações de nossos amiguinhos. Ficarão ofegantes, pode ter certeza.
 
Jane Austen na próxima semana? Who knows? Mais gelo, por favor. 

 

 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 09:30
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16 comentários:
De Ana Vidal a 17 de Março de 2009 às 11:42
Clap, clap, clap.
Resumir os calhamaços de Proust em três linhas é de génio, Marie! Eu saí a bailar...

Beijos!
De marie tourvel a 17 de Março de 2009 às 11:54
É o fast food da literatura, né, Ana? Não tem muito mais o que falar dos 7 volumes do Proust. :)
Mais uma vez, obrigada, querida.

Beijos!
De patti a 17 de Março de 2009 às 14:34
Não li Proust e confesso que ainda bem, pois saio daqui verdadeiramente aterrorizada.

Já Jane Austen.....aí sou bilionária das verdadeiras!

Mais uma vez esplêndido Marie!
De marie tourvel a 17 de Março de 2009 às 17:09
Deu pra aterrorizar, né, Patti, querida? Nem se preocupe que não tenha lido. O resumo diz tudo. E a gente não está mesmo na onda de estudar tratado psicológico de ninguém.
Jane Austen será prazeroso. ;)

Obrigada, linda.

Beijos!
De Luísa a 17 de Março de 2009 às 15:11
Brilhante, Marie! Tive todas as suas dificuldades, especialmente porque cada parágrafo me obrigava a várias releituras, e os meus neurónios Marple e Poirot (concedo-lhes uma sexualidade mista, embora a do Poirot, algo suspeita) têm mais apetência para a frase curta e incisiva. Mas os seus apartes para o jogo com os intelectuais são do melhor. Terei, sobretudo, o cuidado de não «rebuscar» muito a fala, para não me enrolar completamente nela. ;-)
Jane Austen para a semana? Magnífico! :-D
De marie tourvel a 17 de Março de 2009 às 17:13
Eu ia dizer exatamente isso sobre Poirot, Luisa, querida. Mas, vá lá, chamemos de mista) ;) Pra que ficar rebuscando, né, Luísa. A vida é empolada mesmo. :))))))
Fico contente que tenha gostado dos apartes. ;)

Decidido, Austen para a próxima semana. :)

Obrigada, flor.

Beijos!
De mike a 17 de Março de 2009 às 19:50
Mais gelo? Marie, assim apanho um pôrre do cacete! (risos)
Este clássico de bolso está uma delícia. :D
Puts, fiquei com a respiração ofegante, pode ter a certeza. (mais risos)
De marie tourvel a 17 de Março de 2009 às 21:02
Delícia mesmo é seu comentário, Mike, querido. ;)
E sei que você é forte, não fica de porre tão fácil assim. :)))))
Tá ofegante? Calma que os meus amigos bilionários servirão um Blue Label para você.

Obrigada.

Beijocas
De Raquel a 17 de Março de 2009 às 21:45
Marie
agradeço por demais este resumo. Sou da turma que leu apenas o primeiro livro.
Deu-me uma vontade tão grande de dar uma surra naquele guri que ficava choramingando por um beijinho da mamãe que achei melhor parar. Creio que foi meu lado Jane Austen... e por falar "nessa garota" quando fizer o seu Pocket, por favor, conte-me para eu para colocar um aviso e um link lá no Jane.
beijos
De marie tourvel a 17 de Março de 2009 às 23:39
Raquel, minha querida, em primeiro lugar obrigada por vir aqui nas "Portas" me ler. :) Aquele garoto era enjoativo mesmo. O cara era enjoativo, né? :)))))
Jane Austen na semana que vem, prometo. E aviso você. Muito chique ter chamada no "Jane Austen Em Português". Aquele seu blogue é chiquérrimo. ;)

Beijocas!
De Pitucha a 18 de Março de 2009 às 07:40
Não li nada (confesso, confesso) pelo que vou aproveitar tudinho para brilhar na rodinha dos "intelequituais".
E já tenho gin e água tónica no gelo, à espera da Jane Austen.
Beijos
De marie tourvel a 18 de Março de 2009 às 09:34
Pitucha, não há o menor problema em não ter lido nada do tempo perdido. Você se sai bem em qualquer rodinha. É uma querida. ;)
Pode aguardar que a Dona Jane já está no forno. :)

Beijocas!
De Rita Ferro a 18 de Março de 2009 às 08:09
Ah, Marie, soubesse eu que vc um dia me faria esta caridade e escusava de ter perdido noites, ilusões, dioptrias e, sobretudo, segurança em mim e na fraternidade cósmica do Homem! Um abraço de infinito reconhecimento!
De marie tourvel a 18 de Março de 2009 às 09:38
Puxa Rita, querida, se eu a conhecesse na época em que perdeu suas noites lendo Proust diria que parasse com a leitura. Diria a você que jamais perdesse as ilusão. :)))))

Muito obrigada pelo carinho.

Beijos!
De Teresa a 24 de Março de 2009 às 15:46
LOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLL!!!

Bravo, Marie! O que eu já ri!

Parece que estou sozinha nisto... eu tenho paixão pelo livro, normalmente tenho sempre à cabeceira um volume qualquer. No que todos estamos de acordo é na embirração pelo narrador!
Na fase da ligação com Albertine, então, só apetece deitar-lhe fogo!
De Carla Campos a 7 de Março de 2010 às 22:23
Parabéns pelo post.

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