Segunda-feira, 16 de Março de 2009

Ventos Amigos (41)

 

I. Renitente

 

Passa severo, ereto, renitente.

Resiste há uma vida ao que o exorta.

Traz às costas sinais do que não sente,

um couro enrijecido, pele morta.

 

Procura ter desprezo a toda gente.

Não que os desgoste. Não. Tudo o que importa

é evitar que um descontrole o tente.

Todo imprevisto ele prevê e corta.

 

Se é o uso que faz a boca torta,

risos, sussurros, sopros são tormento

para a alma, a espinha e a aorta.

 

No entanto, distrai-se por um momento.

Parece que vê abrir-se uma porta.

Por sorte, passa ali somente vento.

 

 

 II. Chuva criadeira

 

Entrei e, mal fechei a janelinha,

assomou da soleira a tempestade.

Invadiu-me a sala, o pouco que tinha,

uns poemas (do Pessoa, o “Liberdade”)

 

Voou tudo. Foi papel, foi Martinha,

foi memória, foi giz, foi Tito Madi.

Danado, o vira-o-tempo, e eu na linha,

que vendaval é esse que me invade?

 

Choveu, fazer o quê? Buscar abrigo,

se é nele e n’água que agora me sento?

Posar de seco e fingir que nem ligo?

 

Ora, é melhor manter o olhar atento

e ao ouvido chamar o verso amigo.

Pela porta virão o sol e o vento.
Textos enviados por: Jayme Serva
Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 18:30
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4 comentários:
De Ana Vidal a 16 de Março de 2009 às 21:14
Querido Jayme, você sabe como eu sou fã dos seus sonetos. Logo dois, que luxo! Obrigada.
Beijo grande
De jayme a 17 de Março de 2009 às 12:02
Ana, luxo é ter dois poemetes publicados aqui. Beijo!
De mdsol a 8 de Julho de 2009 às 23:24
Ana, mas que falha a minha, só aqui ter chegado agora!
:)))
De Ana Vidal a 9 de Julho de 2009 às 16:19
Aos sonetos do Jayme? São magníficos, Maria! ;-)
Um beijinho

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