Quinta-feira, 12 de Março de 2009

Ventos Amigos (39)

 

 

Não sei as condições em que vive, porque cada vez que lhe bato à porta, apenas uma frincha se entreabre. Sei que vive há 15 anos, com os três filhos, numa exígua casa de porteira com duas assoalhadas. Ao marido, trabalhador da construção civil, expulsou-o de casa há mais de cinco, numa madrugada em que chegou a casa bêbado e lhe deu (mais) uma tareia.

Sei que pelo seu corpo ainda jovem, evidenciando as marcas de maus tratos do homem e da vida que lhe foi madrasta, corre sangue fervente e na ponta da língua tem sempre resposta a um piropo atrevido. Tem um fraco por trabalhadores da construção civil. Daqueles que passam os dias empoleirados em andaimes, fixos ou móveis, balouçando ao sabor do vento. Depois de expulsar o marido de casa, apaixonou-se por um que, ao fim de um mês, desapertou o cinto para lhe cravar as marcas na pele. Disse-me, um dia :“este foi  como uma rabanada de vento. Bateu forte, mas pôs-se logo a andar”.

Há dois meses começaram obras lá no prédio. Poucos dias depois, tornou-se perceptível que ela andava de namorico com um dos artistas do andaime. Consta que um fim de tarde ouviram o arfar de ambos na cave, junto aos contentores do lixo. A administração do prédio avisou-a que não toleraria a repetição da cena. Para lá da porta de sua casa, poderia fazer o que entendesse, mas nas partes comuns do prédio, se voltasse a ser apanhada, seria despedida.

O sangue fervia-lhe no corpo, pronto a explodir numa lava de desejo contido mas, com três filhos em casa, ela não arriscava franquear-lhe a porta.

No último sábado, surgiu a oportunidade. O pai dos filhos fazia anos e ela iria ficar sozinha em casa. Comunicou-lhe o facto e traçaram o plano. Ela cozinharia o seu prato preferido, ele apareceria por volta do almoço e, depois, entregar-se-iam um ao outro ao longo da tarde. Havia, porém, um pormenor. Ela não queria que ele tocasse à campainha. Quando chegasse perto do prédio, devia telefonar-lhe e ela deixaria a porta entreaberta para ele entrar. Se a porta estivesse fechada, não tocaria à campainha…

Na manhã de sábado ela aperaltou-se e cozinhou com esmero a feijoada, carregando no piri-piri, comprado pela manhã na mercearia do bairro, para ter a certeza que gozava de todas as suas propriedades.

Faltavam 15 minutos para a uma quando o telefone tocou. Nervosa, atendeu. Pôs mais duas gotas de perfume. Abriu a porta. Ele lembrou-se que se esquecera de lhe levar uma flor. Sem lhe dizer nada correu para a florista da esquina e comprou atabalhoadamente uma rosa encarnada. Voltou ao prédio. Quando chegou, a porta estava fechada. Uma rabanada de vento boicotara o encontro.

 

Texto enviado por: Carlos Barbosa de Oliveira

 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 18:30
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6 comentários:
De Ana Vidal a 12 de Março de 2009 às 20:10
Obrigada por este texto "picante", Carlos. Mas não me conformo com o fim que lhe deu...
Os ventos que passam por esta porta nunca hão-de boicotar os encontros de ninguém! ;-)

Um beijo
De Luísa a 13 de Março de 2009 às 02:22
E não podia telefonar outra vez, para que a pequena lhe abrisse a porta? ;-)
De psb a 13 de Março de 2009 às 11:39
Um belo texto, Carlos, apesar do final infeliz ocasionado por um romantismo madrasto de última hora. Presumo que não trabalhe na construção civil, porque essas raras batidas à porta bem poderiam ser traiçoeiras.
Um abraço.
De Carlos Barbosa de Oliveira a 14 de Março de 2009 às 18:55
Eu é que agradeço a oportunidade de colaborar no seu excelente espaço, Ana.
Sobre o fim falo mais abaixo...
De Carlos Barbosa de Oliveira a 14 de Março de 2009 às 18:56
Poder, podia, Luísa, mas eu desincentivei-o.
De Carlos Barbosa de Oliveira a 14 de Março de 2009 às 18:57
O final foi uma concessão ao Slumdog Millionaire, psb. ( rsrsrs)

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