Domingo, 8 de Março de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa


 

Anunciamos, finalmente, a nossa primeira convidada. Escolhemo-la porque pretendemos intervalar a corrente de jantares polémicos, especulativos e um pouco indigestos - para estômagos sensíveis! - com um jantar sereno e familiar de homenagem a uma avozinha. Não falamos, é claro, de uma avozinha doce de capuchinho vermelho. A nossa convidada não tem a cara rechonchuda, o sorriso ingénuo e a imagem simplória de carrapito e xaile das avós dos velhos contos infantis. Mas ainda bem! Queremos acreditar que é sofisticada quanto baste para escapar aos lobos maus que pululam nesta floresta. Esperamos, de resto, poder insinuar-lhe, durante o jantar, umas dicas sobre matéria de sobrevivência. Porque, se apreciamos muitíssimo a sua presença sóbria e distinta, adequada à idade e à figura, também sabemos que a elegância de hoje não é a elegância de ontem e não se impõe sem a exposição de etiquetas e a publicitação de costureiros e marcas. E se valorizamos os seus silêncios, que são de ouro em tempo de prolixidades e discursatas balofas, também entendemos que a conjuntura requer alguma contemporização mediática e que uma ou outra declaração descomprometida, altissonante e perpassada de frémitos visionários lhe facilitaria a tarefa de desbravar o mato. E se compreendemos o largo e salutar alcance da sua proposta de suspensão da nossa sui-generis variante autocrática da «democracia», também reconhecemos que o bom-senso é, por estes dias, tido como subversivo e que as verdades devem ser protegidas sob o sorriso diplomático e dúplice do bom-humor. E se subscrevemos, enfim, a sua honesta e frontal mensagem de austeridade, também nos apercebemos de que o auditório preferiria aliviar os seus terrores com promessas de muito pão… tal como já prefere o grande circo da bola.

 

Mas passemos às coisas prementes, que o tempo escasseia: o menu. Pois desta vez, o orçamento será contido, como convém, recomendando a simplicidade apaladada da cozinha caseira. Arrancaremos, assim, com um creme de abóbora grosso e aveludado, perfumado com coentros. Para prato principal - e sob os bons auspícios de um vinho branco do Douro, um Dona Matilde 2007, que é polido, leve e sincero - teremos o luxo ainda em conta de uns carapauzinhos de gato, vulgo jaquinzinhos fritos, acompanhados com umas migas soltas de pão de trigo, tomate e azeitonas. E para sobremesa, laranja confitada em Moscatel de Favaios.

 

Quanto a conversas, adivinhamos que tentará furtar-se ao tema da política. Mas não podemos aceitar tabus. Por isso, se se refugiar no habitual laconismo, prometemos, na roda das tisanas e dos descafeinados, lançar à dedicada avozinha o infalível mote-ratoeira: e os nossos netos, que futuro?...

 

publicado por Ana Vidal às 09:30
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23 comentários:
De fugidia a 8 de Março de 2009 às 11:06
Ai Jesus, Luísa, não a vejo nada (à Manuela, bem entendido) como uma avózinha... (risos)

Hum...não sei bem se passo este jantar; enfim, acho-a muito ríspida... e daí, pode ser que o menu ajude :-D

Bom domingo!
(quando acordo, é a primeira coisa que venho fazer: saber quem vem para jantar!)
:-)))
De Luísa a 8 de Março de 2009 às 14:30
Obrigada, querida Fugi, por essa confiança nos meus dotes culinários. A nossa avozinha tem precisamente essa característica de não parecer ainda uma avozinha. Mas é o que nos vai acontecer a todas nós, agora que, com os novos desenvolvimentos científicos, já só começamos a ser (e parecer) realmente velhinhas, como clássicas avozinhas, lá para os 100 anos. ;-D
De Si a 8 de Março de 2009 às 11:07
A convidada não se deve fazer esperar, nem o creme de abóbora, cuja espessura está perfeita.
E o melhor será mesmo não falar em assuntos indigestos, mesmo com tabus temperados a preceito.
Deixemos, portanto, que a Avó Manuela se deixe marinar na ternura de uma conversa familiar, porque o futuro, esse, é demasiado incerto.
De Luísa a 8 de Março de 2009 às 14:38
Si, sendo o prato composto por esse «material» relativamente económico e, por isso, praticamente invisível que é o jaquinzinho, não sei se não daria por bem vinda uma ligeira indigestão, que me desse a ilusão de um jantar de mais substância. Mas, sim, no Dia da Mulher, falemos de nós, mulheres, mães, avós, e deixemos de lado a política… (mesmo se, e a propósito de jaquinzinhos, esta começa a ganhar animação em S. Bento com umas primeiras – e promissoras – peixeiradas). ;-D
De Manecas a 8 de Março de 2009 às 12:07
Talvez agora saia melhor...

Confesso que fico curioso com este jantar que me parece ser marcadamente de descoberta.

Que avozinha estará por trás desta figura agreste e austera?

Parabens pelo texto. Esse é seguramente o brinde para quem não pode estar presente...

Bjs
De Luísa a 8 de Março de 2009 às 14:51
Meu caro Manecas, nem tudo o que parece, é, lá reza o ditado. Nem na política (mesmo se, neste caso, o ditado reza o contrário). E nas figuras agrestes e austeras se descobrem, frequentemente, as mais extremosas avozinhas. Confesso que este é um jantar que acharia graça se fosse real. Primeiro, porque pairam sobre a personagem muitos equívocos e muitas incompreensões, que gostaria de ver clarificados; segundo, porque provei, há dias, essa sobremesa da laranja confitada, que achei o máximo e estou ansiosa por poder repetir. :-D
De mike a 8 de Março de 2009 às 14:03
Será que é a Manuela? Hum... como a Luísa tende a trocar-nos as voltas, deve ser o Pedro Santana Lopes. (riso abafado)
De Luísa a 8 de Março de 2009 às 15:13
Aqui no Porta do Vento, Mike, os convites são, em princípio – em princípio, repito – personalizados, e não há possibilidade de endosso. Mas descanse que lá chegaremos a esse amigo. Havemos de convidar o Portugal inteiro, mas vamos devagarinho, porque ainda só estão descobertas mil maneiras de cozinhar bacalhau e temos de inventar mais 9.999.000 para cobrir a população inteira. ;-)
De Ana Vidal a 8 de Março de 2009 às 19:37
É isso mesmo, Luísa: havemos de convidar Portugal inteiro, e haverá receitas personalizadas para todos os convidados! Aqui todos são tratados a pão-de-ló... ;-)

No jantar de hoje não faltarão surpresas!
De mike a 8 de Março de 2009 às 22:01
Pão de ló?... não pode ser a queijo da serra, presunto serrano, casqueiro e Trincadeira? ;D
De Ana Vidal a 8 de Março de 2009 às 22:43
Pode, Mike. Depende do convidado e do gosto que nos dá recebê-lo... :-)
De Luísa a 9 de Março de 2009 às 00:40
Aliás, se me explicar o que é essa Trincadeira, Mike, (o dicionário fala-me em variedades de uvas, mas estava a vê-lo preferir o «sumo» ao bago), até podemos adiantar já o tipo de convidado para que a temos, à Trincadeira, reservada. ;-D
De Grande Jóia a 11 de Março de 2009 às 01:49
Oh Luísa, pode dar um Chaminé 2006 que o Mike não se importa e também tem bago trincadeira. A ementa deve ter a paisagem alentejana em mente.
De Luísa a 11 de Março de 2009 às 14:08
Obrigada, Grande Jóia, pelo esclarecimento. Já sei quem vai ser o convidado! ;-D
De JuliaML a 8 de Março de 2009 às 22:21

está muito bem apanhado, Luisa. :-))

espero que a Avozona se engasge com as migas. Quanto ao Favaios, dê-lhe favaitos, que ela está tão emburrecida, nem dará por ela
LOL
De Luísa a 9 de Março de 2009 às 00:52
Ó Júlia, como pode ser tão implacável com uma pobre avó que, se calhar, pagaria para poder só ter olhos para os netos, mas que alguém deve ter desencaminhado e praticamente forçado a enveredar por este beco sem saída airosa? Enfim, com as migas talvez não se engasgue, que as fiz muito leves e soltas. E quanto ao Favaios, é o meu brio culinário que me impede de fazer a troca. Mas fico a saber que há esse tal «favaitos» (desse, nem o dicionário arrisca um significado), que talvez me sirva para umas receitas menos «consumer friendly». ;-D
De marie tourvel a 8 de Março de 2009 às 22:29
Luísa, querida, como você escreve bem. Parabéns pelo texto. Eu não sei quem é a vovozinha. Daqui do Bananão não dá pra saber. :)

Beijos!
De Luísa a 9 de Março de 2009 às 01:01
Querida Marie, trata-se da líder da oposição, Manuela Ferreira Leite, que é tudo isso que aí se diz, honesta e frontal, mas pouco adaptável às exigências da política dos nossos dias. Claro que ela é que está certa e a política, errada. Mas as coisas são o que são e temos de viver com elas – e, se possível, tentar mudá-las de dentro, quando não conseguimos mudá-las de fora. Obrigada pela sua simpatia, Marie. Um beijinho. :-)
De Grande Jóia a 10 de Março de 2009 às 12:58
Luísa, eu não tive tempo de vir cá antes da resposta, mas os homens são mais fáceis de descobrir. Sabe que por momentos até julguei que falava da outra que já foi "presidente", só que não iria sem o António.
Parabéns pelo texto e pela ementa. A Luísa cozinha bem ou gosta mais de romantizar com bom gosto?
De Luísa a 10 de Março de 2009 às 20:44
Querida Grande Jóia, a minha condição é de cozinheira frustrada. Nos raros ensaios que já fiz, saí-me muitíssimo bem – na minha avaliação -, mas o dono da casa entendeu que se impunha uma gestão mais económica dos fogões e decidiu assumir esse pelouro. Vejo-me, portanto, reduzida a estes exercícios de ficção culinária, que me provocam muitos reflexos pavlovianos, mas um enorme vazio de estômago. ;-)
De Ana Vidal a 10 de Março de 2009 às 20:54
Começo a achar que esse dono da casa lhe corta as asas, Luísa... não deixe, faça uma revolução na cozinha e imponha o requinte e a criatividade, daqui para a frente. Vai ver que ele depois gosta! ;-)
De Luísa a 11 de Março de 2009 às 14:11
Ele gosta, Ana! Mas depois vem-me com o argumento de que mais vale magros mas remediados, do que gordos mas pobres, e eu não tenho como não depor imediatamente as armas. ;-D
De Ana Vidal a 11 de Março de 2009 às 14:39
Não tenho assim tanta certeza dessa felicidade dos magros remediados, Luísa... sempre ouvi dizer "pobrete mas alegrete", e quase juraria que esses alegretes são gordinhos!! ;-)

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