Sábado, 7 de Março de 2009

Palavras soltas

Manuel Fragoso de Almeida

 

Ainda por cima somos pequenos!


Penso que já terão por certo feito esta reflexão, mas, em muitos aspectos, afigura-se-me que a nossa dimensão, enquanto país, nos traz óbices directos ou induzidos que são um factor importante nas dificuldades que o país tem de enfrentar. 

 

Não me esqueço duma prima minha que, depois de angariar a pulso uma carreira internacional no canto clássico, iniciada isoladamente na Alemanha após a conclusão do Conservatório em Portugal, construindo tercetos com artistas internacionais, sendo convidada para actuações na Alemanha, na Áustria, na Suíça, em Inglaterra, e conseguindo mesmo o objectivo, sempre assumido, de actuar nos Estados Unidos… quis cantar em Portugal. Preparou a viagem daquelas férias de Verão para se dedicar aos contactos que fossem pertinentes para conseguir finalmente dar corpo a um sonho: cantar em Portugal! Mas todos os esforços foram em vão. As decisões sobre a matéria, programação, convites, calendarização, conduziam sempre a uma única pessoa que, estando próximo do poder de então, decidia sobre tudo. Acresce que este senhor tinha sido seu professor no Conservatório e ela não tinha seguido os seus “conselhos avisados” para uma carreira em Portugal… 

É assim! 

 

A facilidade com que uma pessoa ou um pequeno grupo consegue, normalmente a expensas dos favores políticos, dominar sectores, influenciar decisões na sombra, parar carreiras de sucesso, escolher este e não aquele (aluno, fornecedor, artista, etc.), é confrangedora e deprimente, na explícita injustiça. 

 

Os últimos tempos dos negócios bolsistas em Portugal – BPP, BPN, CGD, BCP, etc., etc., - e a crise em que estamos imersos, lembraram-me uma vez mais a questão da dimensão da bolsa, dos empresários, das empresas, do sistema financeiro. Não é somente fazerem parte do índice bolsista português apenas 20 empresas. O problema é que se analisarmos os accionistas de cada uma delas, existe um núcleo significativo destas empresas que tem participações cruzadas nas outras. A consequência óbvia é que a fraqueza de uma é necessariamente a fraqueza de uma série delas, em efeito de dominó.  

 

Exemplificando, no BCP estão também a Teixeira Duarte e a Soares da Costa, onde está a Investifino, que também está na Cimpor, em cujo capital é maioritária a Teixeira Duarte. 

 

Não sei os contornos do negócio entre Manuel Fino e a CGD e não os quero discutir aqui, mas a questão é que, pela mera existência de participações cruzadas significativas, a decisão de não renegociar o empréstimo de Manuel Fino por parte da CGD está logo posta de parte, porque significaria comprometer (pelo menos) a CGD, a Teixeira Duarte, a Soares da Costa, o BCP, o BPI, etc. Questão também a colocar é a solução anteriormente encontrada para renovação da Administração do BCP, no seguimento de todo o escândalo da gestão daquele banco. A solução somente foi possível porque obteve os votos favoráveis dos principais accionistas, os já citados e alguns outros como Joe Berardo, que o eram, através da contracção de empréstimos para compra de acções junto da CGD, donde provinham os novos administradores. 

 

Será que existe um Sistema Financeiro Português? 

 

Já agora, um contraponto para que tenhamos alguma esperança, apesar de tudo: com uma dimensão próxima da nossa, a Noruega discutia no seu parlamento, há poucos anos, se deveria ser permitido a um funcionário público telefonar para casa, utilizando para esse efeito o telefone do gabinete estatal onde prestava serviço, ou se tal não seria uma utilização abusiva dos dinheiros públicos. 

 

Afinal, parece-me que a questão não tem assim tanto a ver com a nossa dimensão…

 

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publicado por Ana Vidal às 09:30
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6 comentários:
De Ana Vidal a 7 de Março de 2009 às 10:58
Não, não tem... é uma coisa cultural. Os "esquemas" caseiros e familiares são tipicamente latinos.
De Manecas a 7 de Março de 2009 às 18:55
Será cultural? Também não sei...

A minha questão é mais e qual o contributo de cada um de nós para que assim não seja?

Beijinhos
De Luísa a 7 de Março de 2009 às 13:25
Enquanto lia o seu «post», Manecas, ia pensando: somos pequenos, sim, mas também somos periféricos e do Sul (ou latinos como diz a Ana). E isso faz toda a diferença. Mas quando o Manecas nos brinda, no final, com o exemplo norueguês do pagamento do telefone, lembrou-me de ouvir contar ao meu Pai (que trabalhou, ainda no tempo da «outra senhora» e durante um pequeno período da sua advocacia, num desses bancos de que agora muito se fala), que todos os telefonemas privados que fazia do telefone de serviço, pagava-os do seu bolso, não sei se por iniciativa própria, se porque era a regra geral. E fico a pensar que, no essencial, talvez não sejamos tão diferentes assim. Estamos é um pouco «estragados» pelas recentes circunstâncias da nossa história… :-)
De Manecas a 7 de Março de 2009 às 19:04
Obrigado Luisa, pelo seu comentário.

Tive, há poucos anos atrás, o prazer de trabalhar com um Director, deixo o nome, porque infelizmente já morreu, Engº José Mariano, que (entre outras coisas) se recusava a receber (pelo menos quando se deslocava no país) as devidas ajudas de custo, porque, dizia ele, a empresa atribui-me uma viatura, paga-me a gasolina, tenho subsídio de refeição, que lógica tem eu somente pelo facto de me deslocar ainda receber mais dinheiro no exercício normal da minha função?

Às vezes é aquela velha máxima: Se os outros fazem porque é que não hei-de fazer...?

Bjs
De mike a 7 de Março de 2009 às 14:44
Não existe Sistema Financeiro Português. Ou melhor, existe à nossa maneira... só para alguns. Quase sempre os mesmos.
De Manecas a 7 de Março de 2009 às 19:19
Talvez...

Um pouco no seguimento do que escrevi, o que penso é que quando se processaram as privatizações, quando há aumentos de capital, quando se subscrevem novas acções, existe logo a certeza de que a operação está toda tomada à partida.

Ora o que se conclui é que este sucesso enorme das operações, afinal foi só possível porque os próprios Bancos que certificam a operação proporcionam empréstimos (ninguém sabe em que condições...) a uns quantos para que a procura supere largamente a oferta e portanto a operação na totalidade seja um êxito estrondoso.

Novamente a conclusão perturbadora é a de que a não existiram estes mecanismos de indução de procura a operação não teria eventualmente sucesso.

Ou, a existência destes empréstimos potenciou o reforço das participações cruzadas significativas e fechou o sistema financeiro a muito poucas mãos.

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