Sábado, 14 de Março de 2009

Azinhagas da memória

Manuel Fragoso de Almeida

 

 

Bácoros debaixo de fogo


As azinhagas com memória são normalmente emanadas dos trilhos das minhas escapadelas por terras de Nisa. A imagem lá de cima é desse lugar, de onde normalmente parto para me embrenhar nas recordações de azinhagas, rebanhos e pastores, chuvadas, e estios abrasadores, passeios de bicicleta, burricadas, passeios de charrete e a cavalo – a rua dos meus avós…

 

Mas hoje resolvi contar-vos uma passagem de ano que tivemos numa quinta da Ana, por terras da Azambuja. Éramos um grupo grande e divertido. Nós não éramos muito bons da cabeça, isoladamente. Em conjunto, a concorrência era tremenda e a coisa, nitidamente, piorava… 

 

A organização foi praticamente nula. Para quê? Reunia-se uns croquetes trazidos dum lado, com a sopa da casa das manas e primas, juntava-se o vinho de Estremoz ao da região, uns bolinhos de um qualquer café inadvertidamente aberto no caminho entre Lisboa e a Azambuja, e não havia de ser preciso mais nada.

 

Os festejos, as gargalhadas, as asneiras, as partidas espontâneas, as conversas intermináveis, as confidências dos mais chegados, a descrição pormenorizada dos últimos “copianços” na Universidade, a conversa mais íntima inacabada e o inevitável corte na casaca de algum ausente, ou o gozo sussurrado com algum atadinho ou matrona presentes à última da hora… e, como é bom de ver, sobretudo o gozo tremendo de estarmos todos juntos, isso sim, isso estava seguramente garantido! Ninguém estranhou, portanto, que a chegada antes da meia-noite à dita quinta fosse um pouco atribulada. As anfitriãs lá estavam… mas, e nós, que vínhamos de Lisboa? A partida foi retardada pelos últimos conselhos do pai da T., ainda tivemos de ir buscar o M., que até à última sempre duvidava se devia ir ou se era melhor não ir…  

 

Enfiim, quando chegámos, dava na rádio do carro do J. o sinal horário da meia-noite! Passámos, portanto, o ano na saída apressada dos carros para o tardio mas estridente rebentar da garrafa do espumante, e… surpresa total: a P. tinha desencantado, ninguém sabe ainda hoje onde, três foguetes. Isso mesmo, foguetes das romarias e festas de aldeia, e lembrou-se de perguntar alto e bom som: Quem é que sabe lançar foguetes?  

 

A resposta pronta do Z. – “Eu tenho experiência perfeita na matéria!” – só convenceu quem não o conhecesse… mas, claro, os foguetes tinham agora o destino marcado!  Apontámos, eu, o J. e o Z., os ditos ao Céu, chegámos-lhes o necessário lume e, seguindo as sapientes indicações do Z., deixámos os foguetes seguir o seu caminho, que no rasto devem ter deixado as marcas da nossa ignorância e inconsciência…  

 

Resultado? Bem, em vez de se apaixonarem pelas estrelas brilhantes daquela noite, os foguetes enveredaram por um movimento de balística rasante ao terreiro onde estávamos, e desceram estridentemente a encosta…!  

 

A pergunta seguinte do trio lançador foi quase em coro: “P., aquelas casas lá em baixo, o que são…?” Eram as pocilgas da quinta. A risada e as gargalhadas foram generalizadas… e ainda hoje nos perguntamos se, naquele ano, o habitual fenómeno do Entroncamento não se terá mudado para a Azambuja, com alguns bacorozinhos deformados ou marrãs com depressão profunda…  

 

Lembras-te, Ana?

 

 

publicado por Ana Vidal às 15:30
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8 comentários:
De Ana Vidal a 14 de Março de 2009 às 18:24
O que tu foste lembrar, Manecas! :-)
Essas passagens de ano eram mesmo divertidas, e parece-me que esta foi a mais inofensiva de todas...
De Manecas a 15 de Março de 2009 às 17:02
...e ainda assim não contei a célebre cena dos croquetes nas malas das meninas..."menos leves"...

Enfim, cala-te boca...

Beijocas
De Ana Vidal a 15 de Março de 2009 às 23:08
Uiiiiii... :-)
De Luísa a 14 de Março de 2009 às 20:53
Santo Deus, Ana e Manecas, vão ter de nos contar como foram as outras passagens de ano! Talvez a saborear os produtos do «fumeiro» dos pobres bácoros apanhados debaixo de fogo? Por acaso, tenho um caso muito mal resolvido com foguetes. Não só estão na origem da primeira das inúmeras vezes em que parti a cabeça, como me fazem sempre medo de que qualquer coisa (que não o céu) me caia em cima desta já suficientemente molestada cabeça. ;-)
De Manecas a 15 de Março de 2009 às 17:08
Eu vou contando algumas coisas...Mas outras já nem me lembro...

Ou foi do vento, ou então esqueci-me outra vez da porta aberta...

Bjs
De Ana Vidal a 15 de Março de 2009 às 10:32
Eu também detesto foguetes, Luísa. E, pensando bem, talvez o trauma me tenha ficado deste episódio!

As nossas passagens de ano dessa época eram divertidíssimas. Como diz o Manecas, o grupo era grande e muito unido, com uma tendência invulgar para a asneira... mas chego à conclusão de que éramos afinal uns anjinhos, por comparação com os grupos e as asneiras de agora.
De Manecas a 15 de Março de 2009 às 17:11
Seguramente...

Mas ficou-nos a extrema felicidade e gozo de os termos vivido e sobretudo congeminado!!!

Um beijinho cheio de ternura para a menina Ana!
De Ana Vidal a 15 de Março de 2009 às 18:40
Outro, com igual ternura, para o menino Manecas (o congeminador-mor). :-)

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