Segunda-feira, 9 de Março de 2009

Ventos Amigos (36)

 

No fado das palavras

 

Tenho andado a pensar por que falamos tanto do tempo e por que carga de água alguns fazem a previsão do tempo atmosférico enquanto outros fazem a provisão para o tempo das necessidades. A  marosca deva estar relacionada com a alma lusitana e com o fado das memórias. Dos antepassados navegadores ficou a previsão do tempo, fundamental tanto para a navegação no alto mar, como no céu dos mares. Para além disso, a previsão do tempo determina viagens e tem um aspecto preventivo e estratégico, já a provisão para o tempo condiciona  as pessoas  é aborrecido e lembra  um fado arrependido. Gosto mais do primeiro fado. Ele é preventivo, não seremos apanhados desprevenidos se chover, se o aeroporto fechar, se nos perguntarem pelo tempo, para  recomendarmos um guarda chuva, para  aconselharmos um agasalho e  para despachar as inquisições do senhor que convive connosco e nos pergunta de rompante e sem vergonha numa sexta feira à noite “olha lá, onde é que estiveste até agora?”. A resposta do tempo, do trânsito e do vento que  abalou estradas e  caminhos está sempre bem. Qualquer cabeça de vento se lembra desta resposta para desculpa caseira. Serve igualmente, para às segundas feiras de manhã justificar ao excelentíssimo, que por um dia decidiu chegar antes de nós, que o trânsito  estava um caos, e ainda por cima tivemos de atender o fornecedor de paraventos na porta da entrada, que por sinal já devia há muito ter um guarda vento.

Este é um fado estratégico que não nos deixa ficar mal quando nada mais tivermos para dizer, e só para não ficarmos mudos e especados perante outros iguais, introduzirmos a situação meteorológica e o tema dos cumolonimbos, dos nimbos e cirros, sabendo nós  que é só para  aborrecer a cabeça de quem nos ouve, já que não interessam para nada, quem quiser vê na net e a maior parte de nós não tem queda para estas coisas do tempo. Por outro lado, é tema que não interessa a quem  tem a porta fechada e a cabeça num lugar onde o mar é mais azul e as praias têm areia de cor dourada. E como já me desviei do ponto,  estacionei no tempo da canção e da Ericeira.

E quando me lembro  destas coisas, vem-me ao espírito, que é como quem diz ao fado da memória, o zumbido do Vimeiro. E de quem adorava aquele sítio porque lhe fazia lembrar as praias do Norte, todas elas com uma coisa menos o que queremos ter numa praia, ou seja, pouco ou nenhum vento e águas quentes. E também não posso deixar de me lembrar da mania das correntes de ar, mas parece que isso é segundo um brasileiro meu conhecido, invenção dos portugueses.

Sendo certo que a provisão para o tempo das necessidades é mais ao género do contar moedas e a previsão de ter provisão é assunto demasiado chato com maior probabilidade de me fecharam a porta atribuindo o descuido ao vento, e  sendo as correntes de ar uma invenção da nossa alma lusitana, vou perguntar ao vento se posso sair de mansinho por esta porta que me convidou a entrar no fado das palavras. 

 

Texto enviado por: Grande Jóia

 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 18:00
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8 comentários:
De Ana Vidal a 9 de Março de 2009 às 18:48
Temos memórias comuns, GJ: Ericeira, Vimeiro...
E sim, pode sair de mansinho por esta porta, mas desde que volte sempre. :-)

Obrigada e um beijo.
De Grande Jóia a 10 de Março de 2009 às 00:18
Ana, eu é que agradeço. E volto sim.
Um beijo.
De mike a 9 de Março de 2009 às 23:19
Não temos memórias comuns, GJ. (risos)
Mas a Ana tem razão, saia de mansinho desde que volte, nem que seja em dia de vendaval. Basta voltar à segunda-feira. (gargalhada abafada)
De Grande Jóia a 10 de Março de 2009 às 00:20
Está combinado:)
De Luísa a 10 de Março de 2009 às 20:59
Para além de gostar da Ericeira – e da magia do seu micro-clima, absolutamente incompatível com previsões, mas muito propiciador de especulações – devo confessar-lhe, Grande Jóia, que gosto de falar sobre o tempo: o que faz, o que fez, o que irá fazer, o que deveria ter feito. É uma porta de conversa que abrimos facilmente, e por onde toda a gente entra com a mesma facilidade. Outra excelente porta é discutir percursos. ;-)
De Grande Jóia a 11 de Março de 2009 às 01:35
Também gosto dos percursos e seus detalhes.
E nunca falha, especialmente quando nos perguntam se já estivemos aqui ou ali e atiramos com um "claro, e espero que também conheça aquela loja que fica à esquina da florista que está mais abaixo perto do ...":)
De Luísa a 10 de Março de 2009 às 21:01
Aproveito, Ana, para a felicitar pela formidável colecção de cata-ventos com que nos vem assinalando – e com grande a propósito – os Ventos Amigos. :-)

De Ana Vidal a 10 de Março de 2009 às 21:22
Está a acabar-se a colecção, Luísa... as repetições serão inevitáveis, não tarda nada. Mas só quer dizer que há muitos ventos amigos, e isso é o que importa. :-)

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