Domingo, 8 de Março de 2009

Ventos Amigos (35)


 

I

Antes de o Tempo ser Tempo
 
Na Terra do Fogo, antes do Tempo ser Tempo, assim que o sol se punha, a luz adormecia. Agasalhados pelo véu escuro da noite, Hipnos, Morfeu e Phantasos, desciam as escadas dos cúmulo-nimbos, com os passos abafados pelos estratos, e com as mãos cheias de feixes de cirros e de ventos indomados, recolhidos em Neptuno, onde as temperaturas são tão baixas, que congelam o pensamento dos Deuses. Pé ante pé, invadiam com eles as mentes mortais, abandonadas nos seus braços, sem resistência, povoando o sono, o sonho e a fantasia de seres adormecidos, com as imagens divinas, flutuantes à deriva na superfície dos sentidos, irreverentes e inquietas umas, serenas e indolentes outras.
Numa das noites, fluiu-lhes das mãos, um pensamento de Artémis, que logo foi pousar no inconsciente da mais bela das donzelas em repouso.
Soprado com suavidade por Morfeu, espalhou-se, primeiro sem definição, depois com nitidez e, à medida que se ia clareando, tornou-se no sonho que mudaria toda a vida de Eléia.
 
Viu-se no meio da floresta. No meio de árvores altas e frondosas, que espreguiçavam os ramos para o sol. Folhas de hera, à mão de semear, para delas fazer uma coroa que segurasse com jeito o longo cabelo. Um regato, salpicado pelas pedras e pelas ondas circulares dos peixes que assomavam à superfície, cheio de uma frescura que apetecia beber. Ao longe, cânticos de aves-liras, que cortavam o ar e manchavam o céu das cores do arco-íris. Mais um sopro ligeiro e Eléia até conseguiu sentir o cheiro do visco e do orvalho da manhã, naquele bosque paradisíaco.
Impulsionado por Phantasos, o vento abriu, então, uma clareira na parede de musgo e deixou entrever uma porta que atraiu Eléia para o seu interior, fechando-se de seguida, a moldar-lhe o corpo e empurrando-a para a frente até um jardim, onde, escondido, brincava Hermes, experimentando a sua destreza no domínio das sandálias aladas.
Sem se surpreender pela presença, Hermes tomou nos braços Eléia, disparando nos céus do bosque, atravessando as nuvens, competindo com os falcões, voando em círculos, a pique e a planar, sem lhe dar tempo a respirar, a protestar, a reagir. Arrebatada naquele abraço, Eléia mais não fez que enlaçar aquele corpo e deixou-se ir, de olhos fechados, contraída de susto e de emoção.
Amanheceu. E Eléia acordou, ainda agarrada ao leito, de dedos crispados e o coração acelerado.
Ainda não sabia que, em breve, seria mãe de uma menina com asas, linda, mágica e perfeita para cuidar dos bosques mágicos que os Deuses do Olimpo usam para brincar.
 
II
 
Olha lá, ó Vento!
Que tens tu contra mim?
Porque m' atiras teu lamento,
uivo gemido em frenesim?
Achas-te muito poderoso,
é, um colossal irascível,
só porque, mesmo furioso,
o teu rosto é invisível?
A isso chamo eu traição,
o não ver claramente,
quem nos ergue a mão,
num açoite permanente.
Levantas o chão em fúria,
tão rabugento e rugidor
pra logo vir com a lamúria
de que sopras por amor?
Não, não pode ser!
Apaixonado, meu amigo?
Eu vou lá poder crer,
que precisamente contigo
isso possa acontecer!!
Mas que paixão funesta
te dará a motivação
de vergar mato e floresta,
em tom de furacão?
Que portas e telhados
te impedem de amar
se não são eles os culpados
nem te podem ajudar?
Ora diz-me lá, a ventar,
de quem tu gostas realmente,
mas diz-me devagar,
pra perceber exactamente…
Quem? Tu endoidaste?
Esse nome qu'inda agora
tu me segredaste,
saiu-te pela boca fora,
ou comigo brincaste?
Enamorado pela Lua,
que tão longe foi morar,
e tu, que loucura tua,
achas que lhe vais chegar?
Abranda, amigo Vento,
escusas de te esforçar,
volta a soprar lento,
que não a podes conquistar.
O Sol já a levou, cortês,
num cruzar de raios tal,
que uma filha logo lhe fez
chamada Aurora, a Boreal.
Se queres, então, desabafar
o desgosto de amor imenso
em vez de raiva soprar
eu apelo ao teu bom senso:
chora apenas chuva,
nesse teu lamentar,
e clareia a nuvem turva,
que tão bem te faz chorar!
 
 

 

Textos e imagens enviados por: Si

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 18:00
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4 comentários:
De Ana Vidal a 8 de Março de 2009 às 22:46
Obrigada, Si! Dois contributos em vez de um, e ambos de qualidade... um luxo para a Porta do Vento!
Beijinho
De Si a 9 de Março de 2009 às 11:59
Ana,
O prazer foi todo meu e o luxo também, ter o destaque que me concedeu.
Muito obrigada e beijinhos!!
De patti a 9 de Março de 2009 às 21:15
Como sempre Si, um primor na escolha das palavras.
De Si a 10 de Março de 2009 às 11:59
Patti,
Obrigada. São os bons costumes da vizinhança que puxam por mim....

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