Sábado, 28 de Fevereiro de 2009

A verdade da mentira

 

Pedem-me a Luísa e a SSV que conte nove situações insólitas da minha vida, das quais três terão de ser falsas, pelo menos parcialmente. Aqui estão elas, como prometido:

 

1. Em criança, fazia toda a espécie de acrobacias sobre cavalos e bicicletas, e o meu sonho era ir para o circo, quando crescesse.

 

Verdade. E acabei mesmo no circo, como todos os outros portugueses...

 

2. Fui pedida em casamento por um taxista, numa viagem de táxi entre o Rossio e Algés. E não era uma brincadeira. Não aceitei porque tenho uma reputação a manter: quem quiser conquistar-me tem de esforçar-se mais do que dez minutos...

 

Verdade. O taxista tinha enviuvado há pouco tempo e contou-me a sua história, choroso.  Consolei-o com algumas palavras que lhe devem ter caído bem e no fim disse-me, ainda a  fungar: "A senhora é que podia casar comigo. Não quer? Um homem não pode viver sem mulher." Não me ofendi nem me zanguei, o homem estava a ser genuíno e achava, talvez, que estava a fazer-me um elogio ao "escolher-me" para substituir uma mulher de quem ele tinha gostado muito. Achei uma ternura... mas recusei.

 

3. Ando sempre na lua. Já me aconteceu cruzar-me na rua com uma cara "vagamente conhecida" a quem não falei, e, enquanto pensava em quem seria, levei dois gritos pela minha "ausência". Era uma das minhas irmãs.

 

Verdade. Foi um dos momentos mais surreais da minha vida...

 

4. Sou fanática por telemóveis e tenho sempre de ter o último modelo. O mesmo para todos os gadgets que são novidade, sem os quais não passo.

 

Mentira. Como diz a Luísa, sou avessa a todos os fanatismos (o Bush é mais uma embirração de estimação), e muito menos por gadgets. Uso telemóvel porque não posso dispensá-lo, mas demorei a aderir até ao limite possível.

 

5. No regresso de uma viagem de carro com uma amiga, de Madrid para Lisboa, pusemo-nos à conversa e, quando demos por isso, estávamos quase a chegar a... Málaga. Acabámos por seguir em frente até Marbella, onde ficámos mais dois dias.

 

Verdade. Outro momento surreal das minhas distracções, partilhado com uma amiga que não é muito melhor do que eu.

 

6. Gosto de estar à mesa. O meu record foi um almoço (em tête-a-tête) num restaurante, que durou sete horas. Sentámo-nos à mesa à uma hora e fomos delicadamente convidados a sair quase às oito, porque era preciso preparar a mesa para o jantar.

 

Verdade. O criado veio perguntar-nos se queríamos jantar, e, como dissemos que não, pediu-nos delicadamente para sair, para arrumar a mesa.

 

7. Tive um namorado poeta que me mandou um soneto e uma rosa todos os dias, durante um mês. Quando acabámos, publicou tudo num livro notável e dedicou-o a outra.

 

Só não dedicou o livro a outra pessoa, tudo o resto é verdade. E o livro é mesmo notável.

 

8. Já conversei com o actor John Cleese, no hall de um hotel em Nova Iorque onde ambos estávamos hospedados.

 

Meia-verdade. Em vez de John Cleese, com quem eu gostaria muito de ter conversado, quem lá estava era o canastrão do Alec Baldwin. Trocámos meia dúzia de palavras sem história, porque ele se interessou pela minha mala desaparecida.

 

9. Durante meses recebi ameaças de morte pelo telefone, num casarão isolado e meio em ruínas em que vivia na altura, e aprendi a usar uma arma por causa disso. Felizmente, nunca tive de usá-la, mas andava sempre comigo.

 

A única coisa que não é verdade aqui é o facto de eu andar com uma arma. Recusei sempre fazê-lo, por achar que seria ainda mais perigoso. Era a época (pós reforma agrária) das devoluções das propriedades no Alentejo, não muito diferente do ambiente do far west. Quem passou por isso sabe do que falo. As ameaças de morte eram praticamente diárias, mas eu nunca tive medo (a inconsciência dos 20 anos...) a não ser quando nasceu o meu primeiro filho. Passei a sentir medo por ele, pela prisão de movimentos que um bebé significava, se eu precisasse de me defender ou fugir. Felizmente, nunca foi preciso nada disso.

 

E agora quero ver quem adivinha onde estão as mentiras...

Passo o desafio aos meus parceiros de blogue: Rita, Marie, Pedro, Manecas e João Paulo (a Luísa já respondeu). Se quiserem responder, claro. Se não... amigos como sempre.

 

* Adendas  em 1/03

 

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publicado por Ana Vidal às 23:39
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27 comentários:
De fugidia a 1 de Março de 2009 às 00:07
Adoro este desafio :-D

Aposto nas 2, 4 e 7
Beijos e bom domingo, Ana :-)
De Ana Vidal a 1 de Março de 2009 às 13:51
Morno, Fugi...
De Luísa a 1 de Março de 2009 às 01:00
Obrigada pela resposta, Ana.
Quanto a palpites, aposto:
- na 4, porque a Ana não me parece fanática por nada, a não ser, talvez, contra o próprio fanatismo… e o Sr. Bush? ;-D
- na 7, porque não acho que a Ana pudesse andar com alguém com um carácter tão fluido; nem acho que alguém com um carácter tão fluido pudesse escrever sonetos notáveis… (mas neste segundo ponto, não estou tão segura).
- na 9, porque não acho possível que, «durante meses», andasse a receber ameaças de morte. De quem? Porquê? Causa passional? Perseguição revolucionária? (Se esta situação foi verdade, é capaz de valer um «post», Ana... E a do taxista também.)
De Ana Vidal a 1 de Março de 2009 às 13:51
Igualmente morno, Luísa...
De Luísa a 1 de Março de 2009 às 14:50
Morno, Ana? Então vejamos:
1 – O sonho não era o circo, mas a aviação comercial;
5 – Não seguiram em frente até Marbella, mas até Sotogrande, onde – aí sim – conversaram, não com o actor John Cleese, mas com o «sexy» Michael Douglas;
7 – O namorado não só não publicou nenhum livro notável, como a Ana lhe devolveu, embrulhado em papel de seda, o «bouquet» das rosas murchas.
Se continuar morno, Ana, ainda aqui temos muito por onde pegar. ;-D
De Ana Vidal a 1 de Março de 2009 às 15:01
LOL. Esfriou, Luísa... mas agora não me apetece revelar a solução, só para ler mais algumas das suas imaginativas propostas! :-)
De Luísa a 1 de Março de 2009 às 15:27
Nova tentativa:
2 – O taxista era um rapaz giríssimo, irreverente, aventureiro, de bíceps robustos e um pensador, que guiava táxis por desporto e para aprofundar filosofias. E a Ana só não casou, não pelos escassos dez minutos do «namoro», mas porque os vossos horários eram incompatíveis;
3 – Os dois gritos pela sua «ausência» não foram de uma irmã, mas de uma prima direita;
9 – Não houve ameaças de morte. Mas houve notícias de que andava a monte um bando de perigosos foragidos, se calhar os irmãos Cavacos, a Ana decidiu precaver-se, e muito bem.
Será desta? ;-D
De Ana Vidal a 1 de Março de 2009 às 16:37
Cada vez mais frio... mas com grande pena minha, no que toca aos bíceps pensantes! ;-)
E essa dos irmãos Cavacos lembrou-me outra história, que ainda um dia contarei aqui.
De mike a 1 de Março de 2009 às 02:05
Caramba, a Luísa antecipou-se. A ficção está no 4, 7 e 9. Tu fanática por telemóveis? Nem quando as galinhas tiverem dentes. E podes ter tido um namorado poeta, mas durava um mês a mandar-te um soneto e uma rosa todos os dias. Last but not least: ó Ana tu deves saber distinguir o gatilho da coronha, quanto mais aprender a usar uma arma... apesar de te estar a ver a viver num casarão em ruínas. ;D
De Ana Vidal a 1 de Março de 2009 às 13:51
Ligeiramente mais quente, Mike...
De mike a 1 de Março de 2009 às 02:05
... não durava um mês...
De mike a 1 de Março de 2009 às 02:07
... não sabes distinguir... não ligues, hoje estou avesso aos nãos... hum, exceptuando a petição da Luísa. ;)
De patti a 1 de Março de 2009 às 10:24
Mentiras parciais:

2. Foste pedida em casamento pelo taxista, mas tratava-se de uma brincadeira.
Na reputação a manter durante mais de dez minutos, também concordo.

4. Hum, nada de fanatismos por tecnologias e afins...

9. A parte da arma é verdadeira, as ameaças de morte é que não são.
De Ana Vidal a 1 de Março de 2009 às 13:52
Voltou ao morno, Patti...
De Pedro Barbosa Pinto a 1 de Março de 2009 às 10:30
1. Se a Rhonda Byrne ler este seu post vai-lhe dizer: - “Como vê Ana, a lei da atracção não falha! O seu sonho de criança era ir para o circo e aqui está a Ana, adulta, no circo.”

2. Terá feito bem, Ana? Para além de romântico, era homem honesto. Dez minutos entre o Rossio e Algés?

3. Homenagem aos lunáticos

Estou na Lua
Não me chateies
Que eu agora estou na Lua
E em breve vou chegar ao céu
Onde tu estás toda nua só c'um véu…

4. Veja lá se ainda fica com o nariz como o do Sócrates!

5. Circo a mais cansa, não é? Às vezes sabes bem um intervalo.

6. No Gambrinus, com a lamparina a aquecer o balão do café à frente, está-se bem mesmo num tête-a-tête com a nossa consciência.

7. Dê-lhe ideias, dê!

8. Discutiram o verdadeiro “meaning of life”?

9. “Recém-casada (com 21 anos !)” o que aprendeu não foi “a cozinhar na lareira, com trempes de ferro e tachos de cobre e de barro, colocados directamente sobre as brasas. E a usar o forno de lenha, a fazer queijo fresco com cardo apanhado no campo e, mais importante do que tudo isso, a conhecer e usar as mil ervas com que os alentejanos aromatizam os seus cozinhados”?

beijinho :-)
De Ana Vidal a 1 de Março de 2009 às 13:53
Vejo que fez os trabalhos de casa, Pedro. Mas... e as apostas?
De Pedro Barbosa Pinto a 1 de Março de 2009 às 14:34
As apostas estão implicitas no meus comentários, mas a ver por outros comentários, ter-me-ei ficado pelo morno.

Pareceu-me que havia uma mentira total na 4, e mentiras parciais nas 7 e 9.

E são estas com que quero ficar.
De Manecas a 1 de Março de 2009 às 11:27
Aqui vai a minha votação...Embora cá para mim, ache que perdeste a oportunidade para construir uma adivinha relacionada com os dotes para a canção...Aí é que eu queria ver quantos acertariam ...E não digo mais nada

1. V. Estou-te a ver perfeitamente assim...E a família duvidar somente da causa de mais um joelho deitado abaixo, ou de a cabeça estar outra vez partida...

2. V. Tenho uma leve ideia da veracidade da história, obviamente seguro da manutenção da tua elevada reputação, mas também certo do impulso de extremo bom gosto dum D. Juan taxista...

3. V. Pois esta é que não duvido mesmo nada...

4. F. Sendo que esta pelo contrário...Nem fanática...E para comunicar, sempre a escrita!

5. V. Juntando a resposta 3. com a poesia e a aventura de espírito, e o sentido feminino da orientação...creio bem que estás a contar uma verdade...Mas já agora não podes contar o seguimento em Marbella ...???

6. V. Deve ser a minha costela alentejana a votar por mim...Mas a minha irmã já fez uma assim...Foi com o namorado estrear uma restaurante a Cabeço de Vide (excelente. aliás...!) e a permanência valeu-lhes um convite do dono para o jantar...do mesmo dia...

7. F. Para tanto soneto alguns também não seriam de sua autoria, e tu seguramente não merecias a maldade, pela não-dedicatória . Ficava-me pelas rosas, vermelhas por certo!

8. F. ...quando acordaste estavas onde...?

9. F. Alguém ameaçar-te de morte...hum...Não me cheira, muito menos tu andares armada...Só se for com uma pena...!


Eu normalmente não sou grande coisa nestes testes, mas enfim...

Muitos beijinhos
De Ana Vidal a 1 de Março de 2009 às 14:07
Quanto a ti, Manecas, só respondo à pergunta número 8, por enquanto. Onde estava, quando acordei na manhã seguinte? No Hotel Carlton, da Madison Avenue. Voilà. :-)
De Ana Vidal a 1 de Março de 2009 às 15:02
E prefiro ignorar a provocação sobre os meus dotes vocais... ;-)
De sem-se-ver a 1 de Março de 2009 às 22:27
ana,

não vale não vale não vale!

não pode ir uma pessoa de fds que chega a casa e encontra um post LOGO COM AS SOLUÇÕES! ai!!! e olhe que não é cá por coisas, até acho que ia acertar!! (a do tlms é de cara que é mentira :))
De Ana Vidal a 1 de Março de 2009 às 22:30
Se calhar pus as soluções cedo de mais, SSV, mas achei que ninguém mais ia tentar adivinhar... :-) Agora vou ver se acertei nas suas.
De sem-se-ver a 2 de Março de 2009 às 22:50
só hoje dei as 'soluções'... :-)
De marie tourvel a 2 de Março de 2009 às 03:31
Perdoe-me pelo meu vergonhoso atraso, querida. Só agora estou colocando minhas leituras em dia. Nem li os comentários, só para responder com isenção. ;)
Vamos lá:
Falsas: 1, 4 e 9?
Tô longe?

Beijos e mais uma vez peço desculpas.

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