Domingo, 1 de Março de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

O convite está feito. E embora conste que não aceitou o outro, aguardamos, a todo o momento, confirmação de que acedeu ao nosso e já se encontra neste jardinzinho à beira-mar plantado para vir jantar connosco. É certo que, a nós, não nos move a política. Não partilhamos, com o convidado, nem a visão do mundo, nem os interesses comerciais sobre esse pequeno milagre da tecnologia informática que, não tendo ainda circum-navegado o planeta, promete restituir a Portugal a glória dos tempos de inovação e descoberta de quinhentos. Não, o que nos move são razões mais comezinhas… Mas não resistimos a conhecer a personagem, sensíveis ao charme peculiar do contraste da cara abolachada, de vincados traços indígenas, ressumando a candura popular, com o tónus vigoroso, o vernáculo imperativo e irreverente - que alguns qualificam, com soberba complacência, de exótico -, a fidelidade a um ideário e a um programa datados, mas não menos actuais no quadro das modernas causas fracturantes, e o simbolismo romântico da camisa encarnada, desfraldada aos ventos do progresso. E porque um homem é ainda e sempre a sua circunstância – e porque somos mulheres! – não negamos, também, alguma permeabilidade à sedução de um poder meio absoluto e agora meio eterno, que, se não está bem legitimado, está, pelo menos, bem financiado.

 

O nosso receio é que, nos transportes da sua costela latina, a criatura irrompa na habitual verborreia. Ou, pior ainda, que algum impaciente o mande, de novo, calar. Optámos, portanto, por uma ementa de tipo «rolha», que lhe não dê descanso aos dentes; uma espécie de «menu-degustacion», de sabores genuinamente portugueses, que não deixará, decerto, de apreciar. Faremos assim desfilar na mesa, sob os vapores do portento de complexidade e persistência que é o Dupla, tinto Bacalhôa, colheita de 2006, uma série de variações em torno do nosso tradicional porco preto. Arrancamos com uma salada de orelha de porco fumado, com redução de balsâmico. Seguimos com uma terrina de porco com tártaro de maçã, umas bochechas de porco confitadas, umas burras de porco de forno em vinagreta, um joelho de porco glazeado em mel e uma perna de porco em crosta de especiarias, não esquecendo as incontornáveis alheiras transmontanas e os imprescindíveis rojões à minhota. E para sobremesa - e ainda com a presença suína discretamente corporizada no gordo do bom presunto de Chaves - propomos o celebérrimo pudim de toucinho Abade de Priscos. A empreitada é de vulto, sabemo-lo. Mas garantimos um jantar rico, substancial e trabalhado com todo o esmero… não duvidando, embora, de que o melhor «prato» será esse que vai sentar-se à direita da nossa anfitriã…

 

publicado por Ana Vidal às 09:30
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16 comentários:
De Ana Vidal a 1 de Março de 2009 às 10:34
O que eu já me ri com a descrição do nosso conviva desta semana, Luísa... proponho convidar também o Berardo, que me parece ser excelente companhia para o convidado principal. Assim poupamos no Bacalhôa, e proporcionamos ao comendador metralha uma refeição substancial, já que parece estar à beira do desemprego. ;-)
De Luísa a 1 de Março de 2009 às 13:44
Querida Ana, espero que seja claro que, embora a ementa seja à base de porco, o melhor «prato» (que se senta ao lado da anfitriã) é de outra espécie… ;-D
P.S.: O Berardo parece-me uma excelente combinação. Não lhe conhecia esse «cognome» delicioso, quase terno, de comendador-metralha.
De Ana Vidal a 1 de Março de 2009 às 13:49
Fui eu que lho pus (mea culpa...) no tempo em que ele arrasava tudo e todos com as suas tiradas antológicas e com aquela fortuna meteórica, que agora parece ter-se eclipsado também de repente. É uma embirração minha de estimação, Luísa, não ligue...
De fugidia a 1 de Março de 2009 às 11:33
Absolutamente divinal, mas este jantar com o abolachado Hugo Chavez passo; Luísa :-P
É que também não resistiria a mandá-lo calar-se no segundo antes de entrar nova garfada :-P
De Luísa a 1 de Março de 2009 às 14:04
Tomámos providências para que não possa expandir-se demasiado, Fugidia. Mas mesmo assim, acho que valeria a pena gozar este «pratinho». Parece-me, aliás, a melhor forma – senão a única - de resistir à conjuntura, Fugi, gozar alguns «pratinhos». ;-)
De patti a 1 de Março de 2009 às 12:00
Ai, quando o PM souber que o amigalhaço veio jantar connosco e não lhe disse nada!
De Ana Vidal a 1 de Março de 2009 às 13:11
Nós servimo-lo melhor do que o PM, Patti, que só lhe dá Magalhães... ;-)
De Luísa a 1 de Março de 2009 às 14:29
Credo, Patti, se o PM, invejoso, se lembra de aparecer, meto-lhe uma maçã na boca e avança para a mesa com um acompanhamento «à la mode» de nabos assados. ;-D

De mike a 1 de Março de 2009 às 19:59
A Fugidia já deu com a língia nos dentes... senão não chegava lá. ;)
Luísa, estes textos são divinais. Será talento de quem os escreve ou das ementas?... Hum... quiçá de ambos. ;D
De Luísa a 3 de Março de 2009 às 00:28
Não sei responder-lhe, Mike. Mas posso adiantar que a escolha das ementas é muito pensada e trabalhada. Felizmente não tenho o pelouro culinário de minha casa. Não concebo o que seja fazer este exercício duas vezes por dia… sem um orçamento ilimitado como aquele que a Ana me dá aqui no Porta do Vento, claro! Imaginação culinária e orçamento apertado parecem-me duas realidades de desgastantíssima conciliação. ;-)
De Ah, neste jhamarie tourvel a 2 de Março de 2009 às 03:26
Ah, neste jantar para o perfeito idiota latino-americano faria questão de comparecer, Luísa, querida. Pode levar o outro perfeito idiota daqui do Bananão, também? :)

Parabéns por seus textos. Estou adorando.

Beijos!
De Luísa a 3 de Março de 2009 às 00:45
Marie, a sua presença só abrilhantaria o jantar. Aliás, às vezes, a nossa atenção centra-se demasiado neste nosso rectângulozinho pequeno, cada vez mais pequeno, e nos seus pequenos «faits-divers». Mas a vocação da iniciativa é «cosmopolita» e, por isso, a participação da Marie é fundamental! :-)
Um beijo.
De Grande Jóia a 2 de Março de 2009 às 10:56
Este jantar teria muita preparação, muita degustação mas a música teria de ser fornecida pelo vizinho do lado, "Don Juan Carlos, por supuesto!".
Os seus textos são muito interessantes e a Luísa uma observadora de detalhes fantástica.
De Luísa a 3 de Março de 2009 às 00:50
Obrigada, Grande Jóia. Aproveito, sobretudo, para, não tendo coragem para chamar os bois pelos nomes, chamar, pelo processo subtil da escolha das ementas, uns «nomes» a uns «bois». ;-D
De psb a 2 de Março de 2009 às 11:31
Luísa
Acima das adivinhas, adoro estas suas deambulações gastronómicas, revelando um espírito gourmet conhecedor e requintado. O José Quitério que se acautele, que ainda o substituem para as críticas gastronómicas que faz.
Mas a este conviva servia-lhe sopa da pedra, invertendo o que sobre ela se conta, não lhe acrescentando qualquer vitualha que não a própria pedra e, vá lá, alguma água. Sem sal!
Um beijinho e perabéns por estas suas crónicas de fazer crescer água na boca.
De Luísa a 3 de Março de 2009 às 01:02
Pedro, essa sopa esteve quase a fazer parte da ementa «energética» do nosso campeão do malho e do cacete, ministro Santos Silva. Talvez devesse transferi-la para este jantar Chávez, sim. E, se calhar, não só para este. Vistas bem as coisas, acho que vou ter sempre uma dose de sopa de pedra, só com pedras, de reserva na cozinha. Quanto ao espírito «gourmet» conhecedor, Pedro, é verdade que sempre me disseram que eu era muito forte no conhecimento teórico-abstracto das coisas. Mas obrigada pelo seu incentivo. ;-D

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