Sexta-feira, 6 de Março de 2009

Lapsus Linguae

João Paulo Cardoso

 

 

Edições Revistas e Aumentadas

 

A histeria tomou conta dos jornais e revistas nacionais. As vendas caem a pique e há que fazer pela vida, recorrendo à oferta de brindes e aos títulos sensacionalistas. Rara é a publicação que não ofereça um filme, um livro ou uma porcelana das Caldas.

 

Não está longe o dia em que, na compra de uma qualquer revista cor-de-rosa ou jornal cinzentão, receberemos um cupão para levantamento de uma máquina de costura no armazém da papelaria em causa.

 

"Ah, vai levar o 'Correio da Manhã'? Então tem aqui o cupãozinho para levantar um canguru que está lá atrás, no nosso armazém, sim?"

 

Haverá também aquelas alturas em que torcerão o nariz às nossas escolhas, por inconveniência do momento ou por absoluta preguiça...

 

"Quer o '24 Horas'? Não quer nada, isso não dá jeito nenhum!"

"Como?!"

"Para lhe vender o '24 Horas' tenho que lhe oferecer uma mobília para quarto de criança e para isso tenho que tirar o Mercedes do concurso do 'Expresso'. E para guiar o Mercedes tenho que retirar a Enciclopédia do Mundo Animal da 'Sábado'. E está para chegar a colecção de palmeiras decorativas da 'Casa Cláudia' e os morcegos de plástico da 'Pais & Filhos'!"

 

Até os belos quiosques do nosso país que inspiraram, por exemplo, a pintora Maluda, vão ter que se adaptar às circunstâncias e, ao tradicional formato de cogumelo colorido, juntar-se-á, na parte de trás, um hangar repleto de uma parafernália de brindes, como se cada quiosque tivesse a sua Feira da Ladra.

 

O desespero de captar leitores está também na adopção de parangonas com isco no anzol. Os pronomes quantificativos estão na moda.

 

"Toda a verdade sobre as novas maminhas da Maya", ou então, "Tudo o que queria saber sobre fenómenos paranormais", são dois exemplos para o mesmo tema. O que conta é prometer tudo revelar, mesmo que, lá dentro, as promessas fiquem por cumprir.

 

Como não gosto de ver as minhas escolhas condicionadas por subterfúgios marroquinos, confesso que, chegados a este ponto, mais depressa compraria uma revista que tivesse escrito na capa "Casa Pia – Uma pequena parte da verdade" ou "O pouco que sabemos, quase nada, sobre os voos da CIA em Portugal", do que uma das que tudo sabe e tudo oferece.

 

Mas posso mudar de ideias, se a "Pais & Filhos" oferecer mesmo morcegos de plástico...

 

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publicado por Ana Vidal às 09:30
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3 comentários:
De Ana Vidal a 6 de Março de 2009 às 12:09
A coisa tornou-se ridícula, tens toda a razão!
Beijo
De Luísa a 6 de Março de 2009 às 14:15
Começa a valer tudo para atrair clientela, JP, e não só nos jornais. Quanto a mim, sempre que vejo anunciada «toda a verdade» ou «tudo o que queria saber», viro logo a página (ou não compro) porque, invariavelmente, já sei mais do que aquilo que me querem contar. Mas duvido de que, para além dos filmes, dos livros e da dita porcelana (certamente nas suas variantes menos cruas), possam ir muito mais longe no delírio promocional por falta, precisamente, de capitais. Os morceguinhos, ainda vá que não vá. ;-)
De psb a 6 de Março de 2009 às 15:56
Honestamente, JP, não costumo comprar a 'Pais & Filhos', se calhar por já estarem praticamente criados. Mas não resisto aos morceguinhos de plástico. Por favor avise-me quando sair o nº da revista com esse brinde excepcional, para que não o perca, filhos criados ou não.
Ao que não resisto, de verdade, é vir espreitar os seus textos bem humorados e cirúrgicos das 6ª feiras. Um abraço.

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