Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Pocket Classic (Hamlet)

Marie Tourvel

 

 

Sentiu minha falta, não é, bilionário, querido? Sobreviveu nas rodinhas de intelequituais? Espero que tenha estudado um pouquinho. Minha lição de hoje é sobre Hamlet. Sim, falo de uma peça de teatro do velho bardo (não sabe quem é o velho bardo? William Shakespeare, querido. Não é um espirro, é SHAKESPEARE). Se tudo o que você conhece sobre Hamlet é o "ser ou não ser, eis a questão", precisamos realmente conversar. Mas vamos começar com o meu já famoso resumão para que você se situe:

 

Hamlet era um príncipe dinamarquês (sim, em minha cabecinha ele devia ser lindo, louro e com asinhas de anjo) que após a morte de seu pai começou a ver o fantasminha do mesmo. No seu bate-papo com o morto, o mesmo dizia que necessitava de desforra, vingança, já que, dizia ele, foi seu irmão, Claudius, que tramou sua morte e de quebra casou-se em seguida –sem que o defunto esfriasse, com sua esposa e mãe de Hamlet, Gertrudes. Aí virou obsessão. Ele queria vingar a morte de seu pai. Ficou de mau humor e se fingiu de louco. E se entregou à vingança. Sacrifica até o amor que sente por Ophelia. Pensando ser Claudius escutando escondido uma conversa em que Hamlet relatava à sua mamãe Gertrudes a trama do novo Rei, ele mata na verdade Polonius, pai de Ophelia. Olha a desgraça. Qualquer mulher vendo isso ficaria louquinha, não? Foi o que aconteceu com Ophelia. E ela morre. Para desespero de Laertes, grande amigo de Hamlet e irmão de Ophelia. Já viu, né? Todo mundo morre no final e cabe a Horacio, graaaaaande amigo de Hamlet, contar a história a todos do pobre príncipe a pedido do próprio antes de morrer. Fatal Tragedy total.

 

Bem, agora é que são elas. Imagine um intelequitual querendo pegar você na curva. Você não pode deixar isso acontecer, claro. Por isso, a bondosa Marie está pronta para lhe acudir. Não pense que eles falarão sobre as únicas coisas que você já ouviu falar sobre Hamlet, o tal do "ser ou não ser", ou "há algo de podre no Reino da Dinamarca". Não sabia que isso era Hamlet? Sim, querido bilionário, essa frase que você usa no seu dia-a-dia referindo-se aos seus companheiros endinheirados, surpresa das surpresas, é da tragédia shakesperiana. Os intelequituais tentarão ser mais capciosos.  O ideal é que quando derem a entender que o papo é sobre Hamlet você já tasque a seguinte frase: "É uma obra atual pela força com que trata de problemas fundamentais da condição humana." Pronto! Já ganhou metade da intelequitualidade da rodinha. Eles tentarão testar você com clichês sobre Ophelia, mas você não cairá na deles. Sobre a pobre Ophelia somente diga que loucura e melancolia ficam próximas tanto em Hamlet quanto nela. Estará de bom tamanho. Se insistirem no "ser ou não ser", você diz que a indecisão, síntese do personagem de Hamlet, é o que move todas as tragédias escritas entre o século XVI e XVII. Uns perdidos, vamos combinar. Ainda mais pra você que é überdecidido. Isso vai impressioná-los. Embora os olhares sempre serão blasés. Nem ligue para isso. Na realidade eles estarão pensando: "como esse cara ganha dinheiro, hein? qual o segredo dele?" Continue a jornada. Diga que o traço mais marcante de Hamlet é o pessimismo, a melancolia. E que sua inércia o leva à morte. Perguntarão a você sobre a loucura do príncipe. Diga que a peça traça um mapa do curso de vida na loucura real e na loucura fingida. Do sofrimento opressivo à raiva fervorosa. E não esqueça de dizer o quanto admira o sarcasmo do personagem. Sim, ele é sarcástico. Não é maravilhoso? Saiba que sempre desconfiei que Hamlet assistia Seinfeld.

 

Já basta, bilionário. Não diga mais nada. Ouça o que eles têm a dizer, pois sempre sai algo de bom da boca dos intelequituais pobretões. Procure decorar cada palavra. Aí você me manda um e-mail e eu faço uma triagem do que realmente vale a pena ficar impregnado em sua mentezinha brilhante. Se insistirem em continuar a dissecar ainda mais os aspectos psicológicos da figura do príncipe, não dê tanta bola. Aí é um papo completamente repetitivo e chatinho, diga que precisa tomar um Blue Label urgente para continuarem o papo suuuuuuper agradável. Beba seu Blue Label, pois sua mente já está embaralhando, saia de fininho e não participe de mais nunhum debate literário nesta noite. Vá embora para não esquecer as frases de efeito dos amiguinhos intelequituais.

 

Semana que vem volto com o provável assunto da próxima rodinha de phodões

 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 09:30
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12 comentários:
De Ana Vidal a 24 de Fevereiro de 2009 às 12:05
Marie, querida, os teus Pocket Classics estão cada vez melhores! Este Hamlet é delicioso. Aqui fica uma sugestão para um próximo: Os miseráveis, do Victor Hugo. Os bilionários deviam saber alguma coisa sobre a vida dos pobres... ;-)

De marie tourvel a 24 de Fevereiro de 2009 às 12:10
Você é muito generosa, Ana, querida, isso sim. :)
Ótima idéia. Pois o próximo será "Os Miseráveis". Começarei agora mesmo. Aguardemmmmmm.

Beijocas
De Luísa a 24 de Fevereiro de 2009 às 14:05
Mais um texto cheio de formidáveis achegas. Embora não frequente rodas tipicamente intelectuais, até nas minhas, que só discutem os dramas triviais da vida, posso enriquecer este ou aquele pensamento (e, naturalmente, a minha própria imagem) com algumas das suas tiradas, Marie, que tratando-se de Hamlet, são aplicáveis a propósito de quase tudo. Ou não seja Hamlet – e aplico já a primeira - «uma obra atual pela força com que trata de problemas fundamentais da condição humana.» Gostei muito. :-)
De marie tourvel a 24 de Fevereiro de 2009 às 14:15
Luísa, querida, para alguma coisa a literatura tem que servir, não é? :))))
Obrigada pelo carinho.
Beijos!
De Teresa a 24 de Fevereiro de 2009 às 15:58
Irresistível, como sempre!!!

Tenho ideia de também já ter sugerido Os Miseráveis, sei pelo menos que me passou pela cabeça...

E agora, Marie, vou ver se descubro o teu endereço de mail, e mais não digo!!!

Beijo.
De marie tourvel a 24 de Fevereiro de 2009 às 16:36
Oi Teresa, querida. Obrigada pelo elogio. Já recebi seu e-mail. ;)
Ele está lá no meu blogue. Para quem quiser enviar: marietourvel@gmail.com
Um grande beijo e obrigadíssima pela idéia (minha idéia ainda tem acento) :)

Beijos!
De mike a 24 de Fevereiro de 2009 às 22:06
"Como essa garota escreve bem, hein? qual o segredo dela?" Continue escrevendo. :)
De marie tourvel a 25 de Fevereiro de 2009 às 00:00
"E como esse garoto é gentil, hein? qual o segreco dele?"
Você é um amor, Mike, querido. Jamais esquecerei o "essa garota".

Beijos!
De Grande Jóia a 26 de Fevereiro de 2009 às 02:22
O que mais gosto nestas suas pistas, Marie, é que são chapadinhas para armar ao social e para desarmar a socialite bilionária :))
De marie tourvel a 26 de Fevereiro de 2009 às 02:43
E para mexer com certos setores da dita "intelequitualidade", né, Grande Jóia?

Um grande beijo
De Johnny na Babilônia a 28 de Fevereiro de 2009 às 15:18
Querida Marie, você como sempre espalhando simpatia e inteligência mundo afora! Adorei!

Meus parabéns. Vou linkar lá no blog!

Bjo bjo bjo!
De marie tourvel a 3 de Março de 2009 às 15:02
Ó, o Johnny é suspeito. É meu amigo. :)))

Brigadu, querido.

Beijocas!!!

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