Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Observatório

Pedro Silveira Botelho

 

 

A Outra Coisa

 

 

Um dos chamados ‘temas fracturantes’ (termo tão politicamente ‘in’) actuais é, indiscutivelmente, a possibilidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo, que foi utilizado como bandeira (a principal) da campanha para a reeleição (entronização) do actual Secretário-Geral do PS.

 

O tema é quente e convém tratá-lo com punhos de renda, pois agita a sociedade e tem implicações diversas noutros, como a possibilidade de adopção por casais homossexuais, por exemplo, caso esta homologação seja feita. E, daqui, derivam novas dúvidas, suscitadas por opiniões abalizadas que refutam a complementaridade do elemento masculino e feminino ser essencial para o bom e correcto desenvolvimento da personalidade de qualquer criança, outras que sustentam mais valer um casal homossexual que nenhum... e... bom... se entramos nesta de ‘venha o diabo e escolha’, vamos ter ‘pano para mangas’.

 

Logo à partida, há uma coisa que me chateia: a polarização do assunto, alinhando a ‘esquerda’ (seja o que for que isso significa) pelo sim e a ‘direita’ (seja o que for que isso significa) pelo não, com poucas cabeças, à esquerda e à direita, a pensarem realmente por si próprias. Esta premissa condiciona inevitavelmente o livre arbítrio e conduz à preguiça, convidando a ignorar a sã introspecção que o assunto merece, no meu entender. Aconteceu o mesmo com a despenalização do aborto, referendada há uns tempos, acontecerá com certeza com tudo o que possa servir de bandeira para que, alguns em algum momento, possam tirar dividendos políticos da situação.

 

É claro que no bastidor deste assunto há quem queira introduzir a perniciosa questão do preconceito que o tema homossexualidade acarreta, como que não permitindo que a uma posição despreconceituosa possa corresponder uma opinião desfavorável à legalização através do casamento civil.

 

Que é precisamente onde me situo.

 

Não tenho nada contra os homossexuais e reconheço-lhes o direito a serem diferentes e a perseguirem a sua felicidade pelos caminhos que entenderem. No entanto, fico chocado (por mera questão de pudor) com as manifestações públicas de afirmação exagerada desta diferença, tal como me chocam as mesmas tomadas por um casal heterossexual. Compreendo que lutem pela abolição da discriminação, consignada na lei base que nos regula, mas, tal como não ando a gritar aos quatro ventos que sou heterossexual, também não aceito que o façam.

 

Entendo o casamento como uma instituição criada para regular oficialmente uma relação entre um homem e uma mulher (e nem sequer entro no foro religioso). Será uma questão cultural, educacional, geracional, o que quiserem, mas, alterar esta estrutura desvirtua inexoravelmente este conceito, quer se queira, quer não.

 

Por isso, façam como os ingleses e arranjem um qualquer subterfúgio formal, já que o reconhecimento da união de facto não chega, para lhe chamar qualquer coisa.

 

Outra coisa!  

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publicado por Ana Vidal às 09:30
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4 comentários:
De Manecas a 19 de Fevereiro de 2009 às 10:01
Talvez começar pelo principio em alguns pontos, por uma questão de clarificação dos conceitos.

Uma coisa é discriminar, outra é diferenciar.

Se não devo em tese discriminar em função do sexo, talvez seja claramente adequado diferenciar um instituto (neste caso o casamento) em função dos sexos do casal, o que significa tão somente que não devo tratar da mesma forma situações que são diferentes.

De qualquer modo o que me parece ainda mais curioso na actualidade desta discussão, é que a mesma comunicação social que denunciou lesta a manobra de mera aritmética eleitoralista o facto de o PS trazer o assunto agora para a discussão, é ela própria que embarca ainda mais lesta na discussão passando-o para a primeira linha da actualidade em detrimento da discussão dos novos pobres, da situação económica e social, do desemprego, das medidas apropriadas para o combate à crise, dos critérios subjacentes aos apoios a uns sectores em detrimento de outros, etc.

Curioso...ou talvez não...!

1 AB
De miguel a 19 de Fevereiro de 2009 às 13:55
Malta: deixem os homossexuais casar e exigam, como contrapartida, o fim dos desfiles de orgulho gay. O Serzedelo ( que é o porta-voz dos gays) bem tenta explicar que esse pessoal dos desfiles é apenas a ponta do icebergue e que o verdadeiro homossexual não dá nas vistas. Mas, caramba, não há mais paciência para ver tipos peludos,cheios de barba com cuecas fio-dental e lábios pintados a dançar o samba.

e abraços ao Pedro.

Miguel Leal
De Luísa a 19 de Fevereiro de 2009 às 16:44
Pedro, sobre exibicionismos, subscrevo as suas palavras e reproduzo as de Marguerite Yourcenar: «La morale est une convention privée ; la décence est affaire publique ; toute licence trop visible m’a toujours fait l’effet d’un étalage de mauvais aloi». (Mémoires d’Hadrien).
Sobre a questão do casamento, a luta centra-se, a meu ver, na questão do nome. A nossa lei veio, recentemente, desvalorizar a carga de deveres «morais» do casamento civil, concebendo-o como uma união unicamente movida pelo amor: enquanto há amor, a união subsiste; quando deixa de haver amor, a união desfaz-se. Ao fazê-lo, a lei criou, de facto, uma realidade distinta da figura tradicional (acolhida pelas religiões) do casamento, concebida como meio de constituição e de protecção da unidade familiar movida pela perpetuação da espécie, vocacionada, portanto, para durar o tempo de vida das sucessivas gerações que protege, e em que o amor é relativamente irrelevante (para além do seu papel cristão inspirador de todo o relacionamento humano). A mim, irrita-me que chamem de casamento a uma realidade em que não se «acasala» - como refere o Mário Crespo no seu recente artigo no Jornal de Notícias. Mas como acho que este mundo é, na expressão deliciosa de Erico Veríssimo, «um mundo velho sem porteira», já não me ralo. Estou certa de que o tempo saberá sanar estas imprecisões. :-)
De Ana Vidal a 23 de Fevereiro de 2009 às 20:06
Eu estou com o Miguel, inteiramente (uma vez na vida, hein, Miguel?).
Não me incomoda nada que casem e que lhe chamem casamento... o que me incomoda é o exibicionismo de mau gosto dos desfiles e das paradas, que acho totalmente despropositados.

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