Domingo, 1 de Março de 2009

Ventos Amigos (29)

 

Sentado no banco de madeira olha sem ver o velho oleado pregado na mesa com pregos enferrujados. Os pensamentos perdidos não se conseguem ordenar. Não entende.

Pousa a mão esquerda na direita e sente a pele velha e áspera enquanto o indicador direito brinca com um prego enferrujado que, teimosamente, segura o velho oleado desmaiado e roto.

Passa assim o tempo, dia após dia, semana após semana, ano após ano.

Todos os dias entra na velha sala uma senhora forte, com um grande sorriso, sorriso triste de quem guarda memórias doces. Vê as mãos que brincam com o prego e o oleado e recorda momentos em que essas mãos, menos velhas e mais macias, seguravam a sua mão pequena enquanto passeavam pelo terreiro.

São agora as mãos dela que lhe dão de comer, que lhe afagam os poucos cabelos brancos, que lhe limpam o nariz e lhe dão banho.

Ele ali sentado sorri-lhe. Não sabe quem ela é mas sorri-lhe. Ouve, como está paizinho?, e não responde porque não entende.

Fica o sorriso quente e meigo daquela mulher estranha que vem vê-lo todos os dias. E ele sorri àquela estranha que entra todos os dias como se cada dia fosse o primeiro.

Na memória, nada, como se uma porta se tivesse aberto com uma forte rajada de vento que lhe levou as recordações.

 

Texto enviado por: Melões Melodia

 

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publicado por Ana Vidal às 21:30
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4 comentários:
De Ana Vidal a 1 de Março de 2009 às 22:15
Uma ternura, o teu texto. Obrigada.
Um beijo
De Mad a 2 de Março de 2009 às 20:48
Lindo, lindo.
De Luísa a 3 de Março de 2009 às 01:09
Um texto triste, um pouco assustador, mas, sobretudo, muito comovente.
De JuliaML a 3 de Março de 2009 às 09:06

belissimo!

lá vou eu conhecer mais outro blog!!

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