Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Lapsus Linguae

João Paulo Cardoso

 

 

É absolutamente irónico que nesta altura a palavra "crise" seja das únicas coisinhas a escapar à crise.

 

A palavra foi a mais escrita na imprensa portuguesa em 2008, de acordo com estudos da Cision, uma empresa de monitorização e avaliação dos meios de comunicação social que, estejam descansados, não pertence a Manuela Ferreira Leite, dando sequência ao célebre "não pode ser a comunicação social a seleccionar aquilo que transmite".

 

Com cinco letrinhas apenas, a palavrinha "crise" apareceu 91 mil vezes nos jornais de referência, excluindo os desportivos onde decerto apareceria associada ora a Sporting, ora a Benfica, consoante os golos falhados em verde e vermelho.

 

A crise é tão grande que ainda ontem tive que levar a minha carteira ao hospital, sendo que a pequena tem pela frente uma bateria de exames para se saber ao certo a extensão do problema.

Está no CUF-Descobertas e recebe visitas entre as sete e as oito da noite.

Apareçam e levem qualquer coisinha, uma fruta, umas revistas, umas notas de, vá lá, 50 euros.

Mais do que lhe injectarem soro, acho que ela precisa é de uma injecção de capital, mas isso sou eu a dizer...

 

Tudo isto está tão complicado que ilustrar o momento actual com a imagem de um banqueiro com a corda na garganta, parece-me desadequado, ao preço a que está o metro de corda.

Além disso qualquer Oliveira e Corda, perdão... Oliveira e Costa, sabe que, quando num iate em alto-mar, sulcando as águas de uma qualquer off-shore, não há sítio onde pendurar a corda.

Apenas um céu de azul tão azul, que parece prometer eterna impunidade a quem delapida instituições bancárias, supermercados Minipreço ou caixas de esmolas.

 

Mas atribuir a crise a banqueiros, aos gestores, aos governantes, aos patrões e aos administradores da OPEP parece, no mímimo, redutor.

Acho que os senhores da Cision também têm culpa no cartório, depois de meses dedicados à árdua tarefa de procurar a "crise".

 

"Quem procura sempre alcança", é uma máxima repetida à exaustão pelo alienado do meu vizinho Alfredo que, quando ouve a palavra "crise", acentua com nostalgia que nesse tempo é que o Tavolta dançava bem.

 

 

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publicado por Ana Vidal às 09:30
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3 comentários:
De Luísa a 20 de Fevereiro de 2009 às 14:29
Tem razão, João, a palavra já não se pode ouvir. Arrastou a sua carteira ao hospital – onde prometo que lhe farei uma visita (mas isso de aceitar fruta e revistas é mesmo estar por tudo!) – e poderá arrastar também as nossas cabeças, tomadas de exaustão. Eram tão mais ligeiras e coloridas as expressões «cava da onda», «tempo de vacas magras», «tempo de apertar o cinto», «tempo de vender os anéis e conservar os dedos», etc., etc., etc.
De Mad a 21 de Fevereiro de 2009 às 01:38
Gosto de te ver por aqui. E continuas em grande forma:)))
De Ana Vidal a 23 de Fevereiro de 2009 às 19:59
Eu não vou ver a tua carteira à enfermaria, JP... há coisas que se apanham nos hospitais, e a pobre da minha carteira já pouco mais faz do que respirar! Acho melhor não ir, sorry...
Mas mando entregar-lhe umas moedas de chocolate... boa? :-)

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