Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

Pocket Classic (Dom Quixote de La Mancha)


Marie Tourvel

 

 

Um amigo pediu-me que eu falasse para nossos amigos bilionários* sobre o crassicão Dom Quixote de La Mancha (não confundir com o desenho animado Dom Pixote, ok?), do espanhol Miguel de Cervantes. Eu confesso que demorei quase 6 meses para ler este livro inteiro. Eu tinha 18 anos. Era uma edição da Abril Cultural linda. Capa dura verde com letras douradas. Papai me deu com dedicatória e tudo. Há pouco tempo eu presenteei um amigo com esta minha edição especial. Talvez ele nem seja tão meu amigo assim, hoje enxergo isso. Presenteei tantos amigos com edições em que papai me escrevia alguma dedicatória. Muitos deles talvez nem dê bola. Tenha jogado o livro em qualquer canto, sei lá. (Marie poética mode on) Mas quando presenteei esses amigos foi como se estivesse dando parte de minha alma (Marie poética mode off).


Chega de papo furado e vamos ao que interessa, pois meu amiguinho bilionário não pode perder tempo. Tempo é dinheiro, não é? Dom Quixote foi escolhido o melhor livro de todos os tempos. Tem razão de ser, viu, bilionário, querido. Vamos ao resumão:


História de um doidão que lia muito romance sobre cavalaria em uma Europa saindo da Idade Média e decide se armar cavaleiro e ir combater as injustiças do mundo em nome de seu amor imaginário, Dulcinéia Del Toboso, e acompanhado de Sancho Pança, seu fiel escudeiro. Quixote era “O cavaleiro das tristes figuras”. Ia pra sua luta, tomava um cacete, voltava pra casa, ia pra luta, tomava um cacete, voltava pra casa... enjoou? Tem mais, muito mais.

É um resumão só para você se situar, amiguinho. O mais importante é o que dizer nas rodinhas dos intelequituais e não dar vexame. Eles vão dissecá-lo a respeito do motivo que levou um livro desses ser tão importante. Você vai dizer que é uma sátira sensacional que Cervantes fez aos romances de cavalaria. E que ao mesmo tempo é de um lirismo sem tamanho. Diga que a insanidade de Quixote virou poesia. Fale um pouco do indolente Sancho Pança. Diga que na segunda parte do livro é muito divertido vê-lo como governador da ilha imaginária e cheio de ambição. Eles muito provavelmente perguntarão a você o motivo que levou Cervantes a escrever este livro. Arrisque-se, pero no mucho. Diga que o processo intelectual de elaboração do Quixote soa como uma espécie de metáfora à decadência espanhola. Se perguntarem por que considera isso, diga que é porque o pobre fidalgo não quer menos do que realizar proezas, mas sem os instrumentos para levá-las a bom termo.

 

Não entendeu nada? Decore, amigo, decore. Você pode dizer também que há uma profusão de temas históricos no Quixote, há também muita sofisticação na abordagem dos mesmos. Já falou demais, não invente. Diga somente isso o que escrevi que está de bom tamanho. Se eles quiserem falar sobre a Dulcinéia, fuja. Não entre em barca furada. Na realidade eles querem saber se você cairá na pieguice. É uma espécie de pegadinha, entende? Olhe para frente e diga que precisa falar com um amigo sobre a última releitura que fez de Diderot. Se perguntarem qual Diderot que releu, diga sem pestanejar: "O Passeio Dos Céticos". Você ouvirá o pensamento dos cabeças pensantes: "Oh!!!!!!!". Peça licença e não esqueça do sorriso. Soará meio sarcástico para o amiguinho intelequitual. Eles gostam disso. Vá em frente.

Até a próxima semana, querido billionnaire.

 

*Milionário é pobre. Tem que ser bilionário. No mínimo.


 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 09:30
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28 comentários:
De filomeno a 17 de Fevereiro de 2009 às 10:52
"Don Quijote de la Mancha" retrata la forma de ser de muchos españoles; tienen muchos problemas en su casa, sin resolver, y se dedican a "desfacer entuertos" en moradas ajenas. Supongo que tal obra causará perplejidad a las mentes utilitaristas (time is gold) y pragmáticas de los anglosajones.........
Saludos desde la patria de Don Alonso Quijano. Por ciero, se dice que Cervantes era de origen gallego....
De Ana Vidal a 17 de Fevereiro de 2009 às 14:06
Por cá também há muito disso, caro Filomeno. Somos pouco pragmáticos e bastante irrealistas, muito diferentes dos anglo-saxões!
Um abraço
De marie tourvel a 17 de Fevereiro de 2009 às 17:21
Filomeno, querido, os brasileiros são mais ou menos assim, só que mais capengas. ;) Pragmatismo? Nem pensar.
Beijo pra você.
De filomeno a 17 de Fevereiro de 2009 às 18:58
Doña Marie, se agradece el beso enviado. Saludos a la Administradora del Blog y a todos los comentaristas
De Ana Vidal a 18 de Fevereiro de 2009 às 11:52
Mis mejores saludos para usted, Don Filomeno de la Galicia!
De Teresa Ribeiro a 17 de Fevereiro de 2009 às 10:57
Ana: está acorrentada, once again. No Delito. Bj
De Ana Vidal a 17 de Fevereiro de 2009 às 14:00
Ai, Teresa, que eu tinha prometido não me meter mais nessas coisas... mas já vou lá ver, e seja o que Deus quiser. :-)
Beijinho
De João Paulo Cardoso a 17 de Fevereiro de 2009 às 11:48
Diz o Filomeno que o D. Quixote é o típico exemplo do que é ser cidadão espanhol, mesmo nos dias de hoje, mas acho que também em Portugal há cada vez mais moinhos de vento.

O que não existe são as figuras quixotescas, excepçã0 feita, talvez, a Manuel Alegre.

E nem sequer é por falta de coragem, romantismo ou idealismo.

É mesmo por vaidade descarada.

Ninguém gosta de ficar despenteado ao vento e as armaduras para pôr no alto da cachimónia custam o preço de um Rocinante.

Beijos para a Ana e parabéns à Marie Tourvel pelo excelente texto.
De Ana Vidal a 17 de Fevereiro de 2009 às 14:03
A nossa Marie é um mimo, JP.
Para mim, a figura pública portuguesa que mais se assemelha ao Dom Quixote é o António Barreto*, de quem sou fã.
Beijos

*(pelo físico e pelo idealismo, e não pela vaidade ou pela alienação)
De marie tourvel a 17 de Fevereiro de 2009 às 17:23
Obrigada, JP, querido. Que bom que gostou.
Ana, sua amizade é um presente precioso para mim. ;)

Beijos aos dois
De Pitucha a 17 de Fevereiro de 2009 às 13:49
Marie
Não sou billionaire, mas vou usar na mesma!
;-)
Beijos
De marie tourvel a 17 de Fevereiro de 2009 às 17:25
Pitucha, queridinha da Marie, você vai ver que em qualquer rodinha da "intelequitualidade" dá certo. :)

Beijinhos.
De Luísa a 17 de Fevereiro de 2009 às 15:36
Como sempre, Marie, mais umas dicas preciosíssimas! É um livro de que gosto imenso e que também ofereço muito, numa excelente tradução que temos do Aquilino Ribeiro. Acrescentaria, ainda, na linha de alguns comentários anteriores, que não vejo D. Quixotes em Portugal. O Filomeno diz que os espanhóis, com problemas em casa, se dedicam a combater os alheios. Mas combatem, e com bravura e nervos, mesmo se imaginam gigantes onde apenas estão moínhos. Nós, por cá, com problemas em casa, dobramo-nos sobre eles e ficamos a remoê-los passiva e cobardemente. E é que nem Sanchos Panças somos, porque o Sancho ainda se prestou (por ambição mas com boa-fé) a ser governador. Os D. Quixotes têm sangue nas veias. Nós, receio que apenas tenhamos linfa.
P.S. : Acho muito curiosa a apreciação da Ana sobre o António Barreto, que é também, para mim, uma figura de referência, pela seriedade, pelo desassombro, e por um sentido, hoje quase perdido, de coerência e honra. Só não o veria como D. Quixote porque acho o seu idealismo demasiado realista. ;-)
De Ana Vidal a 17 de Fevereiro de 2009 às 16:43
Talvez seja essa mistura de honra e idealismo (mesmo realista), aliada a uma figura frágil e esguia, que me fazem ver nele sempre um Don Quixote, Luísa. AB é das figuras públicas que eu mais respeito, hoje em dia.
De marie tourvel a 17 de Fevereiro de 2009 às 17:26
Luísa, querida, fico contente por ter gostado da dica. É das boas, né?

Beijos da Marie
De lord broken pottery a 17 de Fevereiro de 2009 às 17:56
Não seria mais fácil recomendar ao bilionário a leitura do livro? Ou será que bilionários não gostam de ler? Tenho certeza de que continuarei gostando de ler quando ganhar na loteria.
Beijo
De Ana Vidal a 17 de Fevereiro de 2009 às 18:47
"Quando" ou "se" ganhar a lotaria, querido milord? Gosto muito de ver assim optimista um pessimista assumido!
Um beijo :-)
De marie tourvel a 17 de Fevereiro de 2009 às 21:37
Lord, Lord, querido, no meu primeiro "Pocket Classic" eu expliquei que o pobre bilionário não teve tempo para ler. Ele estava muito ocupado ganhando dinheiro. :) Daí a necessidade deste curso intensivo.
Tenho certeza que se você virar um bilionário continuará a ler, ler, ler... eu também, pode ter certeza. ;)

Outro beijo pra você.
De mike a 17 de Fevereiro de 2009 às 23:13
Marie, muito divertido... e lembrei-me do Sai de Baixo que tive o privilégio de assitir ao vivo em São Paulo... "ah, como eu pobre... e coquitéu com cocrete".... (risos)
De marie tourvel a 18 de Fevereiro de 2009 às 00:33
Mike, Mike, meu querido, você esteve em São Paulo assistindo ao Sai De Baixo? :))))))) Não consigo conter o riso. Pois é, a melhor parte era quando o Miguel Falabela falava com o jeito de pobre, do "cocrete". Aqui no Bananão, em se tratando de coisas toscas, a fauna é vasta. :)))

Um beijinho pra você.
De CNS a 18 de Fevereiro de 2009 às 10:30
Marie

Raras vezes se encontra uma ironia límpida como a sua. Parabéns . Vou seguir as dicas ;)

um beijo para a a na.
De marie tourvel a 18 de Fevereiro de 2009 às 11:03
Cris, querida, que bom que gostou. Ontem mesmo assisti a uma rodinha de intelectuais em que eles falavam sobre livros que eles mesmos fingiam que leram algum dia. Os bilionários não precisam mais se envergonhar. É só seguir a cartilha da Marie. :))))))

Beijos
De Ana Vidal a 18 de Fevereiro de 2009 às 11:09
Outro para si, Cristina. A nossa Marie é a estrela desta casa! ;-)
De marie tourvel a 18 de Fevereiro de 2009 às 11:13
Ana, querida... :)

Beijinhos
De Grande Jóia a 21 de Fevereiro de 2009 às 16:09
Marie, venho atrasada mais vou comentar usando uma definição dum amigo.

"Cervantes imortalizou na figura de D. Quixote o cabeça de vento que é o homem ibérico" (PA)
De marie tourvel a 3 de Março de 2009 às 22:19
Grande Jóia, querida, só agora li seu comentário. Sou relapsa mesmo. :(
Mas isso serve para países latinos, afinal. ;)

Beijos
De patti a 21 de Fevereiro de 2009 às 23:04
Com posts assim fico é "trilionária", Marie.
Adorei, mais uma vez.
De marie tourvel a 3 de Março de 2009 às 22:20
Repito o que disse à Grande Jóia, Patti, querida. Só agora li seu comentário. Perdoe-me. Você já é trilionária. Adoro ler seus textos nos "Ares". ;)

Beijos!

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