Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (23)

 

Uma história sem nenhum sentido mas com duas morais

 

Era uma vez uma cidade perfeita. As suas casas eram perfeitamente cúbicas e simétricas, feitas num papel grosso, em que se inscreviam as rimas perfeitas da sabedoria dos fundadores da terra, preservada pelas sucessivas gerações. As suas ruas eram perfeitamente paralelas e perpendiculares, traçadas com um rigor de régua e esquadro, e não tinham nome, porque a orientação era fácil e todos se conheciam. E a sua vida era perfeitamente simples, regular, ordenada, geométrica, e tão isenta de conflitos que dispensava leis e valores. Esta cidade perfeita vivia cercada por um mundo estranho de povos bárbaros, imperfeitos, pelo que, para guardar as distâncias, se fizera rodear de uma muralha de pedra, desproporcionadamente alta, mas em quadrado perfeito, e com uma porta rectangular, que os jovens tomavam por um capricho decorativo dos anciãos, já que nunca tinham visto - e desconheciam - que pudesse abrir-se e fechar-se.

A cidade perfeita não dava sinais de desgaste do tempo. Mas cá fora, o vento, que não transpunha a muralha, ia soprando todos os dias, e havia guerras, havia crises económicas, havia fomes, havia muitos erros e havia quem aprendesse e quem não aprendesse com eles. Germinavam, também, ideias novas, umas boas, outras más, e havia uma grande sede de conhecimento. Alguns bárbaros tinham chegado a abeirar-se da porta da cidade perfeita para trocar impressões, mas a porta nunca se abria – talvez porque ninguém a soubesse abrir.

Uma manhã, o céu aclarou pouco amistoso e levantou-se um vento forte e rasteirinho; um vento que, ao contrário dos outros ventos, que não transpunham a muralha, se insinuou por todas as fendas, respiradouros, luras e frinchas e entrou nela traiçoeiramente, ao rés do chão. Foi o princípio do fim. As casas viram-se arrancadas aos seus alicerces, varridas e arrastadas em turbilhão pelos quatro cantos da cidade; e o papel, de que eram feitas, rasgado e amachucado, com perda de muitas rimas e muita sabedoria. Depois, uma rajada de tufão arrombou a porta e concluiu a razia. Os habitantes da cidade perfeita, vergastados pelo vento e pelas tiras de papel, confusos e espavoridos, lançaram-se em fuga. E precipitando-se pela porta aberta, foram cair nos braços dos seus vizinhos bárbaros, que, mais preparados para enfrentar temporais, já tinham declarado o alerta vermelho e os acolheram em casas quadradas de betão e tendas triangulares de plástico. Os habitantes da cidade perfeita rosnaram ao betão e ao plástico. Mas não se pense que não se adaptaram perfeitamente, porque o nosso imperfeito planeta é perfeitamente capaz de, com o incentivo dos quadrados e triângulos ou sob a ameaça de tufões, compatibilizar a disciplina geométrica com qualquer assimetria.

 

Primeira moral da história : convém ter bem calafetados todos os orifícios, fendas e frinchas, porque por eles – mais do que pela fronteira espanhola - nunca se infiltra nada de bom, nem bons ventos, nem bons «casamentos».

 

Segunda moral da história : acarinhemos os ventos que entram aberta e livremente pela «porta do vento», que nos refrescam, nos trazem os cheiros e os sabores da vida de outras latitudes e longitudes e não estão aí para enganar ninguém.

Texto enviado por: Luísa

 

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publicado por Ana Vidal às 21:30
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6 comentários:
De Ana Vidal a 24 de Fevereiro de 2009 às 00:13
Aplaudo tanta sabedoria, Luísa! E aplaudo também, veementemente, a segunda moral da história: tem sido muito bom receber todos estes ventos de diferentes latitudes e longitudes que têm entrado por esta Porta. Uma experiência enriquecedora e muito curiosa, que me tem dado muito prazer. Como este seu texto. :-)
Beijinho
De Luísa a 24 de Fevereiro de 2009 às 14:21
É certamente qualquer coisa que me ficou dos primeiros tempos da maternidade, Ana, ou talvez até de antes, da educação que recebi, do peso das fábulas e das catequeses. Mas a verdade é que, se me apetece inventar uma história sem sentido, apenas uma história, a coisa acaba, invariavelmente, por resvalar para uma «moral» e me estragar os planos todos. Neste texto, consigo farejar muito mais do que duas tentativas de infiltração moral… Mas como me recusei (e recuso!) a pensar no assunto e apenas fui escrevendo, não sei bem dizer onde quis – e não quis! – chegar. ;-)

De mike a 24 de Fevereiro de 2009 às 02:12
Moral da história: um texto excelente mas com uma terceira moral. Às segunda-feiras só enganam as senhoras. ;)
De Luísa a 24 de Fevereiro de 2009 às 14:26
Mas cá está. O Mike já descobriu uma terceira moral. ;-D
P.S.: Mas talvez assim as 2as.-Feiras se libertem do seu peso tão negativo, Mike.

De Ana Vidal a 24 de Fevereiro de 2009 às 14:33
O Mike é óptimo a descobrir morais escondidas nas nossas pacatíssimas segundas-feiras... as dele, não chegando nunca a ser "imorais", são normalmente mais agitadas! ;-)
De mike a 25 de Fevereiro de 2009 às 01:07
Olha quem fala... diz o roto ao nú... (risos)

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