Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (18)

O exotismo da madeira não oferecia margem para dúvidas. A porta era, decididamente, da máxima qualidade. Uma estrutura sólida, ainda que leve de manusear, de cor sublime e tom discreto, com uns veios elegantes ao corrido do artigo. Naquela marcenaria não havia quem não apreciasse aquela obra de arte fruto da mestria, saber e paciência de quem a construíra. A pergunta fatal dirigia-se ao Amílcar Valente, um rapaz novo da Azambuja, estranhamente interessado em coisas da literatura, da estética, da sensibilidade, que pegara desde cedo num bloco de madeira e o transformara naquela peça.

- Oh Amílcar! Diz lá tu por mim… Que porta é esta?

E o artesão punha os olhos em alvo, afagava a madeira e respondia:

- É a porta do vento.

Os minutos seguintes tinham uma valência de meditação: os colegas garantiam um silêncio cauteloso, atentando naquela expressão poética, questionando-se sobre o alcance da afirmação, envergonhados por não conseguirem dominar toda a vastidão da frase inspirada.

A rotina do dia-a-dia passava, forçosamente, por aquela peça de rara beleza. À entrada os funcionários dirigiam-se, em primeiro, lugar ao sítio onde ela estava encostada, como se fosse um relógio de ponto em versão arte; ao sair, cumpriam o mesmo preceito. Todos, de uma forma mais ou menos disfarçada, passavam por lá durante o dia, inventando uma desculpa. Na realidade, ninguém queria reconhecer que ia buscar inspiração a um item de stock com um nome tão profundo, inalcançável, propiciador dos devaneios mais escondidos e reprimidos: porta do vento

E o Amílcar lixava, polia, encerava, dava brilho, compunha, ajeitava. E os colegas suspensos daquela actividade, não sabendo se, num passe de mágica, surgiria uma brisa redentora que os levaria a qualquer lado, embora nenhum soubesse exactamente para onde gostaria de ir.

Um dia, passava das quatro da tarde – talvez quatro e um quarto – quando tocaram à porta do estabelecimento. O João da Tribo (assim se chamava o funcionário) foi abrir e encontrou um cavalheiro baixo e magro, de sobretudo e chapéu, com uns olhos pequeninos por trás de umas lentes grossas.

- Boa tarde, senhor. Deseja alguma coisa?

O cavalheiro espirrou com sonoridade e assoou-se a um lenço branco, amarrotado. Aclarou a voz e disse:

- Boa tarde, jovem. O meu nome é Vento, Antunes Vento, e venho buscar a minha porta

Texto enviado por: JdB

 

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publicado por Ana Vidal às 21:30
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4 comentários:
De Ana Paula Motta a 19 de Fevereiro de 2009 às 11:12
A-do-rei . Simplesmente uma delícia esse texto, aparentemente vai por um caminho e de repente, muda o rumo. Como o vento.
De Luísa a 19 de Fevereiro de 2009 às 16:05
Um final inesperado, prosaico, depois de muita especulação poética, e, por isso, bem divertido. :-D
De Rita Ferro a 20 de Fevereiro de 2009 às 09:44
Ah, JdB... só tu! Que bem reportas os ventos dos antunes da vida...
De Ana Vidal a 23 de Fevereiro de 2009 às 20:09
Delicioso, JdB!
Beijo e obrigada por ter respondido ao desafio.

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