Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

Boas Correntes


 

Imagine um grande festival de música pop/rock com estrelas de craveira internacional, numa pequena cidade da costa norte portuguesa, durante um fim-de-semana de tempo magnífico, depois de um longo período de frio e chuva. Agora, substitua as bandas, os vocalistas, os  músicos, os técnicos de som, os coros, etc, por escritores, editores, tradutores, jornalistas,  designers, ilustradores, enfim, todos os que fazem parte do universo dos livros. Num ambiente de festa totalmente informal, sem sombra de vedetismo ou pose, por mais importantes que sejam os nomes em que se tropeça durante todo o dia (e são-no, muitos deles), cerca de duzentas pessoas vindas de todos os países de expressão ibérica (Portugal, Espanha, África, América Latina, etc), dedicam quatro dias/noites a um extraordinário convívio e troca de ideias. Por uns dias, a Póvoa enche-se de uma população estranhamente ambulante e heterogénea, como se se tratasse realmente de um festival de música.

 

É isto o encontro anual Correntes d'Escritas, na Póvoa do Varzim, uma notável iniciativa do pelouro da Cultura da Câmara Municipal da cidade. Este ano "as Correntes" (nome pelo qual o encontro é  já carinhosamente conhecido) comemoraram dez anos de existência e por isso foram mais concorridas do que nunca. É uma alegre azáfama: todos os dias há lançamentos de livros, projecção de filmes ou peças de teatro, conferências, palestras, debates e entregas de prémios, enchendo sempre até às portas os vários espaços que a CMPV disponibiliza para o efeito. Nunca o Grande Auditório - local onde se passam os principais acontecimentos - tem uma cadeira vazia, seja a que horas for.

 

O centro vital da animação é o Novotel Vermar, que aloja os convidados e fica exclusivamente dedicado às Correntes durante estes dias: o bar do hotel é um permanente entra-e-sai de gente, de conversas,  de gargalhadas, de histórias e anedotas, de combinações, de projectos, de negócios, tudo isto em tonalidades várias de português e castelhano. Todos os dias a organização oferece um excelente jantar volante, onde muitas das conversas que animam a "bicha" para os pratos quentes ou as sobremesas, são antológicas. No último dia há um jantar de encerramento com música ao vivo e bailarico, onde a boa disposição atinge o auge. É engraçado observar sorumbáticas figuras das letras, que associamos habitualmente ao isolamento e até à depressão, felizes e descontraídas, por umas horas, a dançar a macarena ou uma qualquer melada canção nordestina.

 

Da organização - cuja alma e coração são a Manuela Ribeiro e o Francisco Guedes, da CMPV - não pode dizer-se menos do que "5 estrelas". Mas muitos outros funcionários superiores da Câmara (psicólogos, assistentes sociais, juristas, etc.) colaboram voluntariamente nesta iniciativa, fazendo de tudo um pouco com um sorriso nos lábios e apenas pelo prazer de ajudar. Tudo corre sobre rodas, sem stress nem  atropelos, e não faltam mimos para todos: além de dois autocarros de turismo, que fazem continuamente os percursos e deslocações dos grupos entre os locais onde decorrem as actividades, há uma frota de carros topo de gama (patrocínio da BMW da Póvoa), com chauffeur, postos à inteira disposição de cada um para deslocações individuais, a qualquer hora.

 

Enfim, foi um fim-de-semana bem passado, original, divertido e produtivo. As Correntes d'Escritas já se tornaram uma referência nas letras de expressão ibérica, e estão para ficar. Para o ano há mais, e eu espero voltar.

 

publicado por Ana Vidal às 09:30
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10 comentários:
De patti a 16 de Fevereiro de 2009 às 10:38
Devem ter sido fantásticos esses dias.

Estive a acompanhar tudinho pelos blogs: Cadeirão Voltaire, Blogtailors, Ciberescritas, Blog do JL e Bibliotecário de Babel, que fizeram verdadeiras reportagens 'just in time'.
O site da câmara da Póvoa, também tinha imensa informação.

Na televisão: nada!
De Ana Vidal a 16 de Fevereiro de 2009 às 13:40
Foi fantástico, Patti, superou todas as minhas expectaivas. :-)
De Pedro Barbosa Pinto a 16 de Fevereiro de 2009 às 15:11
Engraçado como uma fotografia bem escolhida (melhorava ainda se tivesse cortado a parte esquerda atéao prédio cor-de-rosa) e umas palavras de alguém que as sabe usar conseguem fazer uma cidade horrorosa parecer bonita :)
De Ana Vidal a 16 de Fevereiro de 2009 às 15:27
O prédio cor-de-rosa é o Grande Hotel da Póvoa, um nome pomposo para um hotel de 3 estrelas ao lado do Casino, já bastante demodé. Mas a cidade, não sendo uma beleza, deixou-me de boca aberta pelo que cresceu desde a última vez que eu lá tinha ido. E sempre tem uma marginal bem cuidada, com um mar lindo mesmo ali... basta não olhar muito para o outro lado! :-)
De Leonor a 16 de Fevereiro de 2009 às 20:17
Um ano destes ainda me aventuro e vou :)
De Ana Vidal a 16 de Fevereiro de 2009 às 20:32
Tenho a certeza de que vais gostar, Leonor. Eu fiquei freguesa...
De JuliaML a 17 de Fevereiro de 2009 às 10:29
olha, a mim já me passou a paixão pelo evento. Houve anos que estive lá de pedra e cal.
Tudo passa..e já não tenho pachorra para certas coisas.
De Ana Vidal a 17 de Fevereiro de 2009 às 11:05
Nisto, como em tudo, gostos não se discutem. Não sei como era antes, mas garanto-te que este ano foi interessante e divertido.
De JuliaML a 19 de Fevereiro de 2009 às 00:30

Não é uma questão de gostos, Ana :-)



De Luísa a 17 de Fevereiro de 2009 às 14:53

Estas «Boas Correntes» têm, geralmente, o objectivo de, mais do que fazer divulgação de ideias ou obras, facilitar contactos e criar novos estímulos. Organizam-se em muitas profissões e são sempre úteis por isso mesmo : quebram barreiras. Gosto paticularmente da descrição que faz, Ana. «Original, divertido, produtivo»... Não estivemos lá e ficamos com pena. :-)

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