Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

Fugas

 


Lembras-te? Nesse dia, tudo nos fugia. Fugiam-nos as palavras, as belas, doces e sensuais palavras guardadas durante tanto tempo, cuidadosamente, amorosamente, em papel de seda como jóias raras. Fugiam-nos as palavras e deixavam-nos ali, frente a frente, estranhamente nus e vazios, sem elas. Fugiam-nos os olhos para o horizonte, porque, se os cruzássemos, seriam dardos, seriam labaredas, seriam punhais tão poderosos que nos matariam ali mesmo, sem remédio, num hara kiri conjunto. Fugiam-nos as mãos para objectos e bolsos, com medo de encontrar-se por um segundo que fosse, por um segundo que fosse, por um segundo que fosse. As mãos sabiam que era imperioso manterem-se distantes e ocupadas, e por isso desenhavam curvas no ar, enrolavam cabelos, comprimiam diligentemente o miolo do pão, em gestos inocentes e nervosos, que tentavam desesperadamente contrariar a eterna lei da atracção das coisas, dos corpos, das vontades. Fugiam-nos as lembranças para um tempo perdido no tempo, para um lugar que já não existia, que talvez nunca tivesse mesmo existido, a não ser na nossa prodigiosa imaginação. Fugia-nos a voz para cavernas de medo e de silêncio, sabendo que o mais ínfimo som libertado se transformaria, de imediato, numa sinfonia imparável, magnética, gloriosa, capaz de arrasar montanhas e esvaziar oceanos. Fugia-nos o chão debaixo dos passos, hesitantes e teimosamente paralelos, cuidando de que não houvesse o menor perigo de convergência. Fugia-nos o passado, o presente e o futuro, deixando-nos suspensos num limbo impossível.  Fugíamos nós, enfim, mestres de todas as fugas. Fugíamos um do outro, dos outros e de nós próprios. Fugíamos, convictos. E nunca mais nos encontrámos. E nunca mais nos perdemos.

 

(Imagem: René Magritte)

 

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publicado por Ana Vidal às 10:00
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18 comentários:
De JuliaML a 23 de Fevereiro de 2009 às 10:06

belo texto, Ana!..e como eu sei e vivi essa fugas...

De Ana Vidal a 23 de Fevereiro de 2009 às 21:31
Obrigada. Acho que acontececeu qualquer coisa de semelhante a todos nós, pelo menos uma vez na vida. :-)
De marie tourvel a 23 de Fevereiro de 2009 às 14:33
Ana, vivi isso. Por alguns de meus textos no Letras, não tão herméticos, pode perceber. Eu não falaria melhor sobre meu momento. Obrigada pelo maravilhoso texto.

Beijos
De Ana Vidal a 23 de Fevereiro de 2009 às 21:35
Beijo, querida. E eu é que agradeço.
De mike a 23 de Fevereiro de 2009 às 18:02
Ana, isso é que foi fugir de forma inabalável e convicta, quer dizer, escrever inabalavelmente e convictamente... quer dizer, de forma notável. :)
De Ana Vidal a 23 de Fevereiro de 2009 às 21:36
Quer dizer... gostaste. :-)
De fugidia a 23 de Fevereiro de 2009 às 19:39
:-)

(eu não sou destas fugidias... :-p)
De Ana Vidal a 23 de Fevereiro de 2009 às 21:37
Ah, eu sei... mas tens andado fugidia desta porta, menina Fugi... :-)
De fugidia a 23 de Fevereiro de 2009 às 22:07
Nunquinha :-p
Venho cá todos os dias ler... ando é tímida para comentar tantos "postadores" novos (risos)
Beijinho :-)
De Si a 23 de Fevereiro de 2009 às 20:35
Vim cá ter pelos Ares da Patti e, curiosamente, tenho agendado, para a próxima semana, um post com o mesmo nome, embora não com o mesmo teor.
Mas fugas são sempre fugas, ao mesmo tempo voluntárias e instintivas, inconscientemente programadas para libertar algo que o nosso cérebro rejeita.
Este, é um texto poderoso.
Definitivamente, vou voltar mais vezes.
De Ana Vidal a 23 de Fevereiro de 2009 às 20:45
E eu gosto muito que volte sempre, Si.
Os ares da Patti casam muito bem com esta porta de ventos... :-)
Abraço
De Si a 23 de Fevereiro de 2009 às 20:50
Obrigada, virei sim.
E já agora, se tiver curiosidade, as minhas 'Fugas' serão publicadas no dia 26....
De Ana Vidal a 23 de Fevereiro de 2009 às 20:56
Lá irei visitá-la, Si. :-)
De Si a 23 de Fevereiro de 2009 às 21:57
Seguiu mail para o endereço do blog... : )
De Luísa a 24 de Fevereiro de 2009 às 02:57
As fugas são frequentemente inevitáveis, quando os silêncios começam a tornar-se pesados. E o que custa não é a fuga, que nos liberta, mas a tristeza de saber que nunca mais voltamos a perder-nos. Gostei muito de ler este seu pequeno poema em prosa, Ana. :-)
De Ana Vidal a 24 de Fevereiro de 2009 às 12:16
O mais interessante com estes exercícios, Luísa, é ver as diferentes interpretações que um texto destes pode ter. Basta que fique mais vago, mais abrangente, e é sempre possível adaptá-lo a uma experiência pessoal ou de alguém que conhecemos. Escrever é também essa tentativa de universalizar, penso eu. :-)
De admirador a 24 de Fevereiro de 2009 às 20:11
Absolutamente fantástico. Parabéns.
De tcl a 26 de Fevereiro de 2009 às 00:37
magritte sempre te inspira da melhor forma!

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