Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

Azinhagas da memória


Manuel Fragoso de Almeida

 

 

Ao guardião das minhas azinhagas

 

 

Aquela boleia desde Lisboa, tinha sabido mesmo bem…

 

O almocinho feito pelas mãos já trémulas mas sabedoras da srª Hermínia, já estava pronto de certeza, depois era só mudar de roupa – aquela que ficava sempre no guarda-vestidos do quarto do fundo e que já só servia mesmo para me sujar pelo campo… – calçar as botas – deviam estar ainda no primeiro degrau das escadas de madeira que iam para o sótão, e ir buscar a bicicleta à garagem - a do meu irmão, claro, que sempre era de marca francesa e o pneu 26 era mesmo à minha medida. 

 

Tudo bateu certo, excepto os pneus da bicicleta! Estavam vazios, e como o António Tomás não havia meio de aparecer, lá tive de ir a pé até ao posto de gasolina da Sacor para o sr. Luís me encher os pneus. Já me estava a atrasar, e o tempo ameaçava mesmo. Aquele céu negro por detrás do relógio da vila, não enganava… E a comadre Nazaré que já me lia os pensamentos: “Onde é que o menino vai? Não está mesmo a ver que vem aí chuva da grossa? Olhe que a sua avozinha fica ralada!” 

 

Eu bem sabia que tinha de me safar rapidamente! Mas a azáfama da minha avó era grande. Na Páscoa havia essa vantagem, as senhoras andavam todas entretidas com as toalhas, os paramentos, as imagens…Tudo tinha de estar preparado para as procissões e para as cerimónias da Semana Santa, e isso para mim era uma oportunidade…escapava-me com mais facilidade… 

 

“Oh Nazaré, não se preocupe, eu vou visitar o Zé Batista à Asseiceira. Diga à minha avó que eu chego a tempo de tomar banho, jantar, e ainda vou à procissão”. Era uma fartura! A primeira parte era certa, as outras, logo se via… 

 

O caminho estava uma delícia. Agora já chovia que Deus a mandava e aquela subida do lagar de azeite do avô Jaime, era mesmo só para os melhores, mas ainda estávamos na estrada de alcatrão. Seguiam-se as azinhagas. Que maravilha, estava tudo cheio de água, as barrocas pareciam autênticas ribeiras, mas ninguém me detinha naqueles quase 10Km, até começar a ouvir as ovelhas do Zé Batista, já todas guardadas nas cabanas ao pé da casa da tapada da Asseiceira. 

 

“Oh, menino Manel, atão vossemecê meteu-se ao caminho com um tempo destes?” Só mesmo o menino para me fazer uma visita com o tempo assim… Ai valha-me Deus!” 

 

Realmente ele tinha razão. Já foi debaixo duma forte chuvada que tivemos de ir atar melhor o oleado que cobria as ovelhas, ainda à espera de serem ordenhadas, e mesmo os rafeiros foram meter-se por entre as pernas do Zé Batista para ver se conseguiam um lugarzinho à beira do lume… 

 

Agora estávamos abrigados. O vento lá fora uivava e passava forte por entre as paredes da casa. A porta batia nos trincos, toda carcomida pelos anos, ao calor tórrido do verão, à chuva e frio gélido dos invernos rigorosos. De que servia fechá-la…? 

 

Eu não podia estar melhor! Ao lume do chão, ia-me secando da molha, sentado numa cadeira já velha em que me tentava equilibrar. Aos meus pés ronronava o sortudo dum gatinho que nem eu percebi donde tinha aparecido, e os próprios rafeiros o contemplavam sem rosnar, não fosse o Zé mandá-los lá para fora… 

 

Melhor que tudo, saboreava aquela broa com o queijo acompanhado dum tinto com o qual não havia possibilidade de sentir frio. O Zé Baptista, cuidava, com as mãos frias, de pressionar metodicamente o leite gordo de fazer o maravilhoso queijo, que ia pondo a curar nas prateleiras com toalhas de palha. E enquanto isso, contava-me as histórias infindáveis da sua vida de pastor, da sua Maria, que já estava no asilo, do Sr. Zé da Graça que não dava em aparecer na carroça, do sr. Vigário que se tinha recusado a ir ao Cacheiro, do menino Joaquim António que já só queria era estar em Lisboa, e do Ti Camilo que tinha morrido sem os doutores saberem bem de quê… 

 

O vento continuava forte, mas agora a chuva tinha parado. Era a altura de fechar o postigo da porta e desatar a toda velocidade pelas mesmas azinhagas não fossem as sete horas bater no relógio da vila e eu ainda estar no caminho. Olhei para trás, já depois de passar as ovelhas, e ainda ouvi o Zé Batista: “Ai este menino Manel, este menino Manel, do que ele se havia de lembrar, num dia destes…!” 

 

E cheguei a horas do jantar… com o banho tomado, claro !!! 

 

publicado por Ana Vidal às 10:00
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8 comentários:
De Luísa a 14 de Fevereiro de 2009 às 15:57
Que belas memórias, Manecas! E invejáveis para quem, planta de estufa urbana, não tem um passado de aventuras pelos campos fora para recordar! :-)
De Manecas a 14 de Fevereiro de 2009 às 16:32
Pode crer Luisa, é uma dádiva estes tempos vividos verdadeiramente na rua...

Espero poder contar mais histórias, mas a primeira tinha de envolver este meu amigo do coração, um pastor que ainda hoje encontro na sua hortinha, e donde saio sempre a abarrotar com presentes do seu naco de terra: tomates, alfaces, melões...

E sobretudo donde saio seguramente mais simples e mais rico...

O Zé Batista é um verdadeiro amigo e pastoreia as minhas memórias com um cajado único de simplicidade e de verdadeira sabedoria.

Um beijo para si, e muito obrigado

De isabel b. a 15 de Fevereiro de 2009 às 01:05
Memórias de um tempo bom caro Manuel. O tempo da infância ou da adolescênciafica-nos sempre gravado com cores vivas e boas recordações. Gostei muito de o ler.
De Manecas a 15 de Fevereiro de 2009 às 16:38
Muito obrigado pelas suas palavras!

Voltarei de vez em quando a estas histórias do campo...

Ainda há algumas que guardo na memória.

Bjs
De Ana Vidal a 15 de Fevereiro de 2009 às 13:04
Uma ternura, estas tuas memórias, Manecas. Também tenho muitas assim, da minha infância no campo. E é um património que valorizo cada vez mais.
Um beijo
De Manecas a 15 de Fevereiro de 2009 às 16:43
Eu sei que gostas destes meus passeios.

De vez em quando conto mais um bocadinho, para trazer um bocadinho dos cheiros da palha, dos fenos, da caça aos gafanhotos para as pescarias...

Beijinhos
De Rita Ferro a 16 de Fevereiro de 2009 às 11:59
Bless you
De Manecas a 17 de Fevereiro de 2009 às 19:34
Obrigado Rita Ferro.

Um bless you vindo de pena tão ilustre até me faz corar...

Bjs

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