Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (9)

 

 

 

Não, não quero que me falem em portas,
nenhuma porta, porta de espécie alguma.

Nem portas de entrada,
magníficas porque maciças,
portas de aldrabas férreas, portas essas imperiais.

Vão-se as portas de fole
harmónios de consultórios,
dedilhados por ágeis mãos,
portas tais tão funcionais.

Não quero portas blindadas,
que façam da minha casa um cofre de que eu conheça o segredo
porque sempre há um esquecimento e com ele eis-me o lar em jazigo,
a vida em sarcófago.

Recuso a porta do fundo,
furtiva,
a porta da saída rápida e conveniente,
quando ele surge, o perigo, pela outra porta
a da frente,
na hora tão inconveniente.

Rejeito esta e todas as portas,
qualquer porta que me traga a saída ou me franqueie a entrada,
sim, porque eu abomino o direito de admissão
e por igual o acesso público,
pois tudo supõe porta.

Não, não quero, eu não quero o lugar onde outros possam entrar
nem aquele de onde seja eu a ter de sair num a porta da rua é ali.

Além disso, há na ideia de porta contida,
como num murmúrio breve de vento,
a noção de fechadura
e com ela a de ferrolho,
e a de trinco
ah! e a de lingueta
e mais ainda a de chave.

E tudo isso supõe clausura
tudo exige acesso
há em tudo tudo a horrível noção
de permissão e consentimento,
o dá-me licença, o ao que vem, o são isto horas de chegar.

Não, não quero porta qualquer que seja,
espécie alguma de porta
porque todo eu feito gazua, recuso,
eu em pé de cabra, rejeito.

E depois, meu amor, hoje, precisamente por ter havido ontem,
não me falem, no que me dói.

Franqueava eu uma porta, sim,
foi precisamente aí.
Como é irónica a vida
Abri-te, tão feliz, a porta da rua, para que entrasses sem bater.
Foi há tanto tempo, um tempo em que o mundo eram só janelas e horizontes
e céus e serranias e o desejo de viajar.

 

Texto enviado por: José António Barreiros

 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 18:30
link do post
7 comentários:
De Ana Vidal a 9 de Fevereiro de 2009 às 18:49
Obrigada pelo excelente contributo, Jab!
Um beijo
De Anónimo a 10 de Fevereiro de 2009 às 01:08
O quê? O grande advogado, investigador e escritor em pessoa a colaborar aqui? Até me custa a acreditar! Venho a este blog há dois anos e é a primeira vez que comento para festejar o acontecimento! Parabéns à anfitriã do Porta pela magnífica aquisição! Fico ainda mais assíduo... estamos todos de Parabéns! Obrigado, Ana V.
Francisco Mello Cabral (Porto)
De Ana Vidal a 10 de Fevereiro de 2009 às 01:27
É para que saiba, Francisco... este blogue é pobrezinho mas honrado!
Agradeço-lhe os parabéns, e ao Jab o facto de saber - ao fim de dois anos - que tenho mais um leitor...
Volte sempre.
De aida franco a 10 de Fevereiro de 2009 às 01:48
Muito, muito bom. Parabéns.
De marie tourvel a 10 de Fevereiro de 2009 às 11:13
Antes de mais nada, uma correção: blogue pobrezinho, não. Este blogue é riquíssimo. Principalmente de carinho. ;)

O texto está maravilhoso. Parabéns ao Jab e à Ana.

Beijos
De Ana Vidal a 10 de Fevereiro de 2009 às 16:24
O artista é o Jab, Marie. Eu só lhe dei voz aqui, com muito gosto.
De José António Barreiros a 11 de Fevereiro de 2009 às 09:54
Bom dia.
Assalta-me sempre um instante de timidez quando vejo comentários de amabilidade e apreço a meu respeito. Segue-se depois o descaramento de me convencer o tempo suficiente até que as incertezas me vençam de novo.
Obrigado a todos. Um bom dia

Comentar post

brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

Até sempre

Expresso do Oriente (3)

Expresso do Oriente (2)

Expresso do Oriente (1)

Vou ali...

Adivinhe quem foi jantar?

Intervalo

Semibreves

Pocket Classic (A Educaçã...

Coentros e rabanetes

Adivinhe quem vem jantar?

Moleskine

Lapsus Linguae

Semibreves

Sou sincera

favoritos

O triunfo dos porcos

Livros



Seda e Aço


A Poesia é para comer


Gente do Sul

E tudo o vento levou

Perfil


ver perfil

. 16 seguidores

Technorati Profile

Add to Technorati Favorites

Ventos do mundo

Ventos de Passagem


visitantes online

Subscrever feeds