Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Homens na cozinha


 

Foi um exercício de serendipidade saber que um homem que cozinhe tem os seus encantos. Tinha convidado uma mulher para jantar - chamemos-lhe Mary Alice. Pus um Erroll Garner, depois um Miles Davies, depois o "Moonglow" e o tema do Picnic, a música mais romântica que conheço, da cena de amor mais romântica jamais filmada, e apresentei o primeiro prato que tinha preparado com antecedência - camarão Rothschild, que consta de pães esvaziados salteados em manteiga clarificada, recheados com camarão ligeiramente estufado em caldo de peixe, o caldo reduzido praticamente a xarope, acabado no forno com um pouco de Gruyère e uma fatia de trufa. Apresentei-lho.

"Oh", disse ela, e foi atrás de mim para a cozinha onde fiz os tournedós Rossini - pequenos bifes de vaca cobertos de foie gras, uma fatia de trufa e uma redução de Madeira.

"Ah." Ela começou a fazer-me perguntas muito pormenorizadas sobre o que eu fazia e quem eu era.

O culminar foi uma criação espectacular chamada Le Talleyrand. Faz-se com cerejas enlatadas, imagine-se, e amêndoas moídas e açucar, cobre-se de merengue e, no merengue, põe-se metade de uma casca de ovo vazia, vai ao forno e, para o espectáculo, apagam-se as luzes, lança-se o fogo a um pouco de kirsch ou rum, que se verte na casca de ovo quando sai do forno toda tostada, ficando a parecer um pequeno vulcão - que é a parte em que as coisas se podem tornar muito húmidas.

Os olhos de Mary Alice estavam límpidos e suplicantes. "És o homem mais profundo e mais complexo que conheço, e adoro a tua sabedoria e os teus dedos... mas eu marquei outro encontro para hoje às dez". E lá foi ela passar a noite com outro tipo. Tanto trabalho para proveito dele! E nunca ele telefonou a agradecer-me.


Jonathan Reynolds, Dinner with Demmons, 2003

 

Esta é a introdução a um dos capítulos do livro que me anda a apaixonar por estes dias - A Ferver, do jornalista Bill Buford - classificado como um dos "livros do ano" pelo New York Times. O livro é o relato de um mergulho alucinante no reino encantado (mas nem sempre muito feérico) de um dos Chefs mais aclamados da cidade de todos os contrastes, Nova Iorque: Mario Batali. Batali tem, para quem conhece o millieu, um estatuto semelhante ao de um Picasso ou Dali, ou seja, o de um génio temperamental e excessivo que faz autêntica magia na cozinha. Bill Buford é o fascinado aprendiz de feiticeiro, que se sujeita a todas as exigências e humilhações para penetrar na caverna de Ali Babá e ficar a conhecer todos os segredos do exótico Batali.

 

Para mim que, como muitas outras mulheres, perfilho inteiramente a teoria de que um homem que saiba cozinhar tem encantos acrescidos, pesando muito no seu curriculum esses dotes de magia culinária, esta história é uma delícia. Aconselho a leitura deste livro (ainda que a tradução não seja famosa) aos homens portugueses. E às mulheres, claro, para se munirem de novos e saborosos critérios de escolha...

 

(A Ferver, de Bill Buford - Sextante Editores)

 

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publicado por Ana Vidal às 18:34
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7 comentários:
De marie tourvel a 6 de Fevereiro de 2009 às 22:02
Me deu água na boca para ler o livro, querida. Providenciarei.

Beijinho
De Ana Vidal a 6 de Fevereiro de 2009 às 22:09
É coisa para dar um dos teus Pocket Classic, daqui a uns anos... :-)

Beijo, Marie
De psb a 7 de Fevereiro de 2009 às 01:20
Ana
O livro é de facto um testemunho incrível. Tem histórias deliciosas, na verdadeira acepção da palavra, e mostra-nos um mundo duro e muitas vezes cruel, às vezes prepotente.
Nunca tinha imaginado uma orgânica tão hierarquizada, quase militarizada, por trás da fachada destes impérios gourmet. Deve ser uma experiência e tanto!
Um beijinho e obrigado por ma teres feito descobrir.
De Ana Vidal a 7 de Fevereiro de 2009 às 15:56
Verdadeira escravatura, não é? O livro mostra como uma cozinha de chef é um autêntico quartel, com uma hierarquia rígida e feroz. Coisa para eu me dar muito mal, aposto... :-)
Beijos
De Luísa a 7 de Fevereiro de 2009 às 03:27
Ana, vou tentar encontrar na Amazon em versão original. Fiquei interessadíssima depois da introdução. Concordo que um homem com dedo para a cozinha tem o encanto acrescido de proporcionar um excelente «aperitivo» - o jantar - para um serão romântico com um homem que tenha dedo para outras coisas (passo a vulgaridade). É que um serão romântico com um bom e empenhado cozinheiro… não estou, decididamente, a ver. ;-D
De Ana Vidal a 7 de Fevereiro de 2009 às 16:01
Passando também a vulgaridade, não imagina o potencial de uma cozinha como cenário para um encontro romântico, Luísa! (convém afastar as facas e outros objectos cortantes, just in case). Mas, fora de brincadeiras, uma refeição sofisticada preparada a dois já pode ser, por si só, um encontro romântico... ;-)

Veja na Amazon, sim. Estou a lê-lo em português e estou a gostar, mas a tradução não é grande coisa.
De Teresa Ribeiro a 9 de Fevereiro de 2009 às 12:56
Já na minha lista de compras! Esse excerto abre mesmo o apetite :)

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