Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

Imolação

 

Primeiro, calámos a orquestra, que insistia em envolver-nos de notas quentes, lânguidas, festivas. Incendiava-nos sem pedir licença, lavrava por dentro de nós uma melodia hipnótica que nos privava de toda a vontade. Por isso lhe pegámos fogo, lentamente, meticulosamente, deixando que as lágrimas nos dançassem nos olhos ao som da música que se esvaía como sangue de um pulso dilacerado. Do allegro ao requiem.

 

Mas ficaram as palavras. Mesmo sem os sons que as vestiam de encantamento, ficaram as palavras. Havia que queimá-las também na mesma pira ardente, como  viúvas do Ganges no seu sati. E assim lançámos às chamas as palavras, nuas, indefesas, tremeluzindo numa despedida muda.

 

Mas ficou o silêncio. Um silêncio ensurdecedor, feito de cinzas, povoado pelos fantasmas de todas as notas e de todas as palavras que tínhamos morto inutilmente. Um silêncio que alastrou como rastilho e se riu de nós, descarado, terrível, satânico. Era imperioso emudecê-lo depressa e por isso queimámos o silêncio, já sem forças para tanto sacrifício.

 

Mas ficámos nós.

 

 

(Imagem: René Magritte - La Belle Captive)

 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 17:45
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15 comentários:
De Manecas a 23 de Janeiro de 2009 às 18:23
...será a presença da ausência, ou a ausência da presença?

Ficando nós, permanecem os sentimentos, e assim voltará a melodia, as palavras, a música...

Será ao fim e ao cabo por isso, que deixamos o lastro do que fizemos os outros sentir, e não o que fizemos, o que dissemos, o que construímos?

Beijinhos escritora filósofa...
De Ana Vidal a 25 de Janeiro de 2009 às 02:14
Tens razão, Manecas: ficando nós, tudo recomeça. Há coisas indestrutíveis. Por muito que façamos, enquanto existirmos nós existirá sempre a memória delas.
Beijinhos
De mike a 23 de Janeiro de 2009 às 23:49
No silêncio?... ou apenas sem forças? ;-)
Gostei de te ler.
De Ana Vidal a 25 de Janeiro de 2009 às 02:15
No silêncio, a recuperar forças...
Obrigada. :-)
De JuliaML a 24 de Janeiro de 2009 às 00:27
belo texto, Ana...ficou a essência das coisas e é ela que veste as palavras, mesmo quando estão nuas,

um beijo
De Ana Vidal a 25 de Janeiro de 2009 às 02:17
Fica a essência, que é o que o fogo não destrói.
Beijo
De Oncle Oswald a 24 de Janeiro de 2009 às 10:17
Cara senhora Ana Vidal (presumo que se trata de uma senhora, devido ao nome. Nestas coisas da internet é impossível afirmar com segurança. No mundo também, dir-me-á; e eu conceder-lhe-ei razão).

Desculpe-me este longo preâmbulo identitário. Sou um especialista em imolações, por isso não resisto a deixar-lhe uma nota.

São efémeras, todas elas. Acabamos sempre por renascer, fugindo às mãos de quem nos imolou - mesmo que tenham sido as nossas. "Fénix" devia ser o nosso nome do meio. Sei do que falo.

Já imolei as palavras, mas voltaram sempre; já fui imolado em toda a espécie de altares imagináveis, imaginados, imaginários; neles tentei, por minha vez, arder a vida, o silêncio, a esperança.

De nada serviu: tanto eu como ela como elas voltámos. Tudo é efémero.

Mas o seu texto é bonito, e a esperança também.
De Ana Vidal a 25 de Janeiro de 2009 às 02:24
Nada se perde, tudo se transforma? Sim, estou de acordo. Mas as imolações são precisas às vezes, mesmo que seja para tudo renascer com mais força ainda. Mesmo que seja para provar-nos que somos essa Fénix que sai das cinzas, revigorada e pronta para novos voos. Ou para os mesmos, que a Fénix voa em círculos...

Volte sempre, caro Oswald.
De Pedro Barbosa Pinto a 24 de Janeiro de 2009 às 11:49
E eis que à terceira leitura o silêncio ressuscitou em mim…

Fiquei a olhar as pequenas colunas de fumo que saíam das cinzas ainda quentes, e que subiam, bailando, até se juntarem num plano mais alto formando figuras que eu tentava decifrar. E quando me pareceu ver Mozart de batuta em riste pronto para reatar o andamento da orquestra, soprei-lhe rapidamente. O que eu quero é uma banda negra, a tocar música muito alegre, porque a morte só pode ser uma festa se a vida foi cumprida. E as palavras saídas da caneta da Ana de que maneira a cumprem!

Com todo o cuidado espalhei as cinzas na busca de resquícios. Queria muito encontrar pelo menos uma palavra que lhe pudesse devolver. Porque sei que em si logo ela germinaria e num ápice mais mil brotariam para nosso deleite. Mas nada!... Apenas umas letras chamuscadas que não deram para mais que isto.

As cinzas esfriam, morrem, e o último negro dobra a esquina ao fundo da rua com o silêncio aprisionado no bombo.

Voltamos a ficar nós.
De Ana Vidal a 25 de Janeiro de 2009 às 02:45
Há comentários que mereciam ser transformados em posts, e este é um deles. Afinal havia muitas e belas palavras ainda vivas, pelo menos na sua caneta, Pedro!

Só duas observações:

1. Parece-me que Mozart se divertiria muito a orquestrar essa sua banda negra. Era coisa para o deliciar, aposto.

2. O seu "silêncio aprisionado no bombo" é uma imagem linda e lembrou-me, veja lá bem, a Blimunda do Memorial do Convento a aprisionar vontades para fazer voar a passarola.


De CNS a 24 de Janeiro de 2009 às 15:53
Belíssimo texto Ana. Eu, sim, saio emudecida.

Bom fim de semana
De Ana Vidal a 25 de Janeiro de 2009 às 02:46
Para si também, Cristina. E obrigada.
Um beijo
De Luísa a 25 de Janeiro de 2009 às 00:09
Apetece-me citar o mais recente Nobel da Literatura, Ana: «Par le langage, l’homme s’est fait le plus solitaire des êtres du monde, puisqu’il s’est exclu du silence». Concluo, portanto, que esse silêncio ensurdecedor, que também teve de ser queimado, não era – como aliás escreve - um verdadeiro silêncio, carregado que estava de sons e fantasmas de palavras. O verdadeiro silêncio foi quando ambos ficaram finalmente, não sós, mas a sós. ;-)
De Luísa a 25 de Janeiro de 2009 às 00:11
Errata: Onde se lê «sons e fantasmas de palavras» deve ler-se »fantasmas de sons e palavras». :-)
De Ana Vidal a 25 de Janeiro de 2009 às 02:49
O verdadeiro silêncio é sempre bem-vindo, Luísa, pelo menos para mim. Há pessoas que têm muito medo do silêncio, eu gosto e preciso dele. E quando acontece "a dois" é ainda mais especial. :-)

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