Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

De volta

 

A tudo nos habituamos, da mesma forma que tudo estranhamos se alguma coisa se altera, depois de instalado o hábito. Estive vários dias sem net e aconteceu-me o mesmo que de outras vezes em que fiquei privada de outros "bens essenciais"  da nossa era tecnológica (telefone, carro, micro-ondas, televisão, electricidade): uma sensação de desamparo e isolamento, primeiro, e depois, finalmente, a adaptação à nova situação e o consequente serenar. Com a segunda fase vem sempre um pico de imaginação, estimulada pela privação das facilidades habituais e obrigada a criar soluções alternativas. E mais: vem  também uma espécie de alívio inexplicável, paralelo à sensação de incomodidade, como se a resposta estivesse em nós e não nos acessórios. E está, sempre. Basta que não deixemos que sejam eles a controlar-nos, basta que lhes demonstremos que estávamos cá primeiro e que já soubemos viver sem eles. Que fomos nós a criá-los, e não o contrário.

 

Recém-casada (com 21 anos !), fui viver para um antigo convento lindíssimo, mesmo em cima da barragem do Maranhão. Um sítio deslumbrante, uma casa de fazer inveja a qualquer um (à beleza somava-se o mistério e a aventura, porque metade do convento estava em ruínas e apenas a outra metade era habitável) mas também um tédio difícil de engolir para uma urbana activa como eu, habituada à capital e com o firme propósito de iniciar uma carreira profissional. A vida altera-nos os planos sem cerimónias, e tudo me saíu ao contrário: não havia nada para fazer ali, a não ser admirar a paisagem, comer e beber.  Ou haveria? Claro que havia.

 

Inventei ocupações, para não entrar em depressão: primeiro, atirei-me à casa, que decorei e modifiquei até nada mais ter para alterar. Arranjei quartos e casas de banho (os duches ainda eram daqueles de balde de zinco e corrente para puxar e deixar sair a água); comprei um frigorífico a petróleo (não havia electricidade, a não ser a de um gerador que se desligava às dez da noite) e um fogão novo; do magnífico celeiro abobadado, de chão de laje e paredes de 1,5 m de espessura, fiz uma sala a perder de vista; da antiga cozinha, enorme, uma sala de jantar. Enquanto duraram as obras da nova cozinha aprendi a cozinhar na lareira, com trempes de ferro e tachos de cobre e de barro, colocados directamente sobre as brasas. Aprendi também a usar o forno de lenha, a fazer queijo fresco com cardo apanhado no campo e, mais importante do que tudo isso, a conhecer e usar as mil ervas com que os alentejanos aromatizam os seus cozinhados. Por outro lado, nunca li tanto como nesses dias em que as horas se multiplicavam e o tempo parecia suspenso. Ensinei crianças e adultos a ler, com um prazer que não me lembro de ter tido em muitas outras ocupações.

 

Foi uma época preciosa, de aprendizagem de uma vida reduzida à sua expressão mais simples, mas que me deixou a íntima e reconfortante certeza de saber sobreviver à ausência de tudo o que considero hoje elementar, caso isso venha a acontecer-me.

 

Tudo isto para dizer que estes dias sem net - logo, sem a blogosfera, que já se tornou um hábito arreigado em mim - foram penosos, é verdade, mas também funcionaram como uma espécie de férias, embora forçadas. E agora que estou de regresso, ainda às voltas com a  constatação da impossibilidade de actualização do que se passou na minha ausência (a voragem deste universo é impressionante), sinto um misto de vontade e de preguiça em retomar o ritmo que tinha. Desabituei-me depressa de postar, a verdade é essa, e soube-me bem não sentir essa "obrigação".

 

Enfim, estou de volta, mas a meio-gás. Veremos.

 

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publicado por Ana Vidal às 01:26
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34 comentários:
De Pedro a 6 de Janeiro de 2009 às 10:08
"que bom é ter um livro e não o ler!". E é bom tê-la de volta, porque já sentimos falta!
De Ana Vidal a 7 de Janeiro de 2009 às 00:24
Obrigada, Pedro. Cá estou, mas ainda preguiçosa...
De patti a 6 de Janeiro de 2009 às 10:43
Olá Ana,
Também estive desde 23 de Dezembro nesse estado de carência virtual por vontade própria, mas já sabia que era o que eu queria.

Precisava de tempo para mim, para ler, fotografar, pensar, escrever, conversar, passear e esticar-me no sofá a ver muitos filmes seguidos.

Volto um pouco mais preguiçosa, mas renovada e mais despreocupada do que vou fazendo por aqui, no virtual.

Linda a tua vivência no Maranhão e toda aa riqueza daquilo que ela te trouxe.

Habituamo-nos a tudo, é verdade sim.
De Ana Vidal a 7 de Janeiro de 2009 às 00:27
Foi uma experiência fantástica, Patti, que só apreciei devidamente muitos anos depois. Na altura tinha 20 anos e queria mais acção... mas não me arrependo, nem por um segundo, daqueles anos de quase far west!

Bom regresso, também para ti.
De JB a 6 de Janeiro de 2009 às 11:22
Trabalhei anos a fio numa multinacional e, nos últimos, "rodeado" de sistemas informáticos, net , correio electrónico, etc. Quando as "coisas" falhavam, andávamos perdidos e órfãos pelos corredores, conversando desinteressadamente sobre assuntos vagos. Nunca ninguém se lembrava do fascínio de algumas actividades que não requeriam net . O arquivo, por exemplo, que faz feliz mais diligente...
De Ana Vidal a 7 de Janeiro de 2009 às 00:29
Pois é, JB. De repente, parece que ficamos "descalços", mas logo a seguir pomos a imaginação a trabalhar. Embora, confesso, o arquivo não seja exactamente a minha ideia de felicidade... :-)
De João Paulo Cardoso a 6 de Janeiro de 2009 às 13:49
Efectivamente as paragens são estranhas.

Quando há assiduidade de postagens, de troca de comentários, de cusquice blogueira porque sim, parece que tudo funciona sem que demos por isso.

Tal qual uma locomotiva-fantasma a sulcar intermináveis trilhos tecnológicos.

Mas quando abandonamos o comando, a locomotiva abranda, soluça e definitivamente pára.

O recomeço é sempre complicado, mas já sinto este comboio em andamento.

Acelera, Ana.

Beijos.
De Ana Vidal a 7 de Janeiro de 2009 às 00:31
Calma, JP... deixa-me lá ir parando nos apeadeiros, para um cafezinho ou uma espreitadela à paisagem.
Bom Ano para ti!
Beijos
De ka a 6 de Janeiro de 2009 às 15:50
Bom ano Ana!

Eu não parei por completo mas quase e soube-me bastante bem estar mais ausente. Embora de certa forma tenha sentido alguma falta a verdade é que tendo sido substituída por outros afazeres que dão o mesmo ou ainda mais prazer, senti preguiça ao voltar mas o recomeço blogosférico " é sempre assim...já no verão se passa o mesmo
De Ana Vidal a 7 de Janeiro de 2009 às 00:33
Claro, Ka. Não é uma obrigação, tem de ser um prazer ou não faz qualquer sentido, não é? De vez em quando faz muito bem um afastamento.
De Cristina Ribeiro a 6 de Janeiro de 2009 às 20:05
Adaptamo-nos sempre :)
Em Boa Hora, Ana!
De Ana Vidal a 7 de Janeiro de 2009 às 00:35
É verdade, Cristina. E ainda bem.
Mas também é bom voltar e reencontrar os amigos.
Um beijinho!
De fugidia a 6 de Janeiro de 2009 às 20:20
Valeu a pena a espera; belíssimo texto :-)

(é manter a velocidade de cruzeiro...) ;-)
De Ana Vidal a 7 de Janeiro de 2009 às 00:38
Isso é que eu não sei, Fugi. Gosto mais de mudanças de ritmo, sabes? Para não adormecer... :-)

(e não me fales em cruzeiros, please... é uma coisa que eu detesto!)
De mike a 6 de Janeiro de 2009 às 20:37
Como te entendo, Ana. Olha, estou a pensar em dizer aos senhores para te cortar a net de vez em quando... é que para quem já escreve como tu, o efeito no-net coloca uma cereja em cima do bolo. Mas tem que ser de chocolate e Alsa. (risos)
De Ana Vidal a 7 de Janeiro de 2009 às 00:40
Não faças isso, Mike, por favor... já basta as vezes que esta coisa falha e me deixa descalça, a meio de um trabalho!

E estás a meter-te com a minha mousse, hein?
Alsa???? Pffft! :-)
De Luísa a 7 de Janeiro de 2009 às 02:59
São fundamentais – em tudo ou quase tudo na vida – os intervalos e as mudanças de ritmo, Ana. Para mim, sobretudo, foi – ainda vai sendo - fundamental libertar-me do sentimento de obrigatoriedade, porque tendo a espartilhar-me muito num modelo, numa disciplina, numa harmonia, e depois canso-me. Mas com uma pequena rebeldia aqui e ali, estou a resistir mais tempo nesta do que em anteriores experiências. Como se está a dar com a divisão por duas moradas, Ana? Às vezes, parecendo que não, uma maior amplitude de movimentos acaba por ser um alívio, mais do que um peso. :-)
De Ana Vidal a 7 de Janeiro de 2009 às 23:29
É isso mesmo, Luísa: a divisão por duas moradas não só não é um peso como funciona como uma possibilidade de variar e por isso é um alívio, de certa forma. Uma mudança de ritmo (e de "cenário", neste caso) faz agitar as águas e obriga a quebrar a rotina, o que para mim é essencial.

Quanto ao modelo do Nocturno, embora seja de uma harmonia e de um bom gosto a toda a prova, percebo que o queira mudar de vez em quando. Desde que não desapareça (isso é que não!) tenho a certeza que todos os modelos que escolher serão igualmente bons.
De bento a 7 de Janeiro de 2009 às 09:01
Isso é para nos fazer crescer água na boca??
De Ana Vidal a 7 de Janeiro de 2009 às 23:30
A mousse ou as ervas aromáticas, Bento? :-)

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