Sábado, 27 de Dezembro de 2008

Sete

 

Abre as portas, amor, e acolhe o mar que te espera lá fora. Olha-o de frente: as sete ondas da maré levar-te-ão sete recados meus, sete perguntas a que nunca respondeste, sete lágrimas que por ti chorei, sete desejos que nunca chegaste a conhecer. Deixa que as ondas venham morrer a teus pés, sem pressa, dóceis como gueixas. Agora, escuta-as bem.

 

A primeira, dir-te-á que não há fuga ou ausência que te afastem de mim.

A segunda, levar-te-á aquele riso iluminado que te fazia voltar à infância.

A terceira, avivará em ti a memória daqueles dias em que o mundo foi só nosso.

A quarta, levantará no ar a espuma de todo o tempo que perdemos.

A quinta, será um afago leve da minha mão, brisa apenas, arrepio.

A sexta, arrancar-te-á um suspiro fundo, num beijo imaginado.

A sétima, incendiará de lembranças o teu corpo imóvel, já liberto.

 

Abre as portas, amor, e olha o mar. Houve um tempo em que ele foi a nossa única testemunha. Agora, é a nossa única memória. Olha-o nos olhos: cada onda levará até ti sete saudades, vezes sete, vezes sete, vezes sete…

 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 22:24
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21 comentários:
De JuliaML a 27 de Dezembro de 2008 às 22:41
sofridamente belo!...


ps- não se vê a imagem, Ana...
De Ana Vidal a 28 de Dezembro de 2008 às 11:29
Espero que já se veja agora, Júlia. Gosto imenso desta imagem, e sem ela o texto não faz muito sentido.

Bom Ano!
De JuliaML a 28 de Dezembro de 2008 às 16:40
não digas isso, o texto vale ó por si, embora o complemente o quadro.

bem querer
De Wolf Larsen a 27 de Dezembro de 2008 às 23:19
Sete é um número perturbante: tanto pode ser mágico como diabólico. Na Europa Central dizem que o sétimo ano de casamento é o ano do Diabo.

Gosto muito do número 7: muitas vidas rodam em torno desse número. E é simples, bonito, elegante. Quase tanto como o seu texto, cara Ana Vidal.
De Ana Vidal a 28 de Dezembro de 2008 às 11:31
Sete é o meu número, caro Wolf, para o melhor e para o pior. Não me pronuncio quanto a crises conjugais, para isso tenho várias datas e prazos... :-)

Ainda anda pelo Alaska? Espero que não tenha congelado...
De Ana Paula Motta a 27 de Dezembro de 2008 às 23:25
Me perdi nesse texto, me emocionei com ele., me identifiquei, quase morro de "inveja" de tanto talento. Parabéns, Ana!
De Ana Vidal a 28 de Dezembro de 2008 às 11:32
Obrigada, Ana Paula. Sempre querida!
Um beijo e Bom Ano novo, com tudo de bom.
De Pedro a 27 de Dezembro de 2008 às 23:37
Belo. E no dia de hoje, em que só me apetece submergir...
De Ana Vidal a 28 de Dezembro de 2008 às 11:33
Vem a calhar, Pedro, com esta chuva toda... :-)
De Pedro a 28 de Dezembro de 2008 às 12:41
O que vale é que o mau tempo serve sempre como desculpa, não é?
De tcl a 28 de Dezembro de 2008 às 00:27
Fez-te bem o Natal, Ana.

Bela a tua prosa. Belíssima a tua prosa poética!

:-)
De Ana Vidal a 28 de Dezembro de 2008 às 11:37
O Natal deixa-me sempre nostálgica mas feliz, se é que esta conjugação é viável...
Espero que o teu tenha sido bom também. Temos que marcar um jantarinho para abrir bem o Ano Novo, não achas? Pode ser cá em casa, ainda estou embalada pelas comemorações de Natal com a família toda.
De JB a 28 de Dezembro de 2008 às 14:21
No dia 4 de Novembro postei sobre o número sete. Sendo ignorante em numerologia, fui fazer uma pesquisa vaga, tendo lido que era um número "importante", conjugação de outras forças. Sete é número bíblico, também, e eu gosto de pensar que fecho um ciclo.
Parabéns pelo texto e pela escolha da imagem.
De Ana Vidal a 28 de Dezembro de 2008 às 19:18
É um número bíblico, sem dúvida. Está por todo o lado na Bíblia e sempre associado a coisas positivas, excepto nos sete pecados mortais. Por isso fecha o ciclo da melhor maneira com a sua achega, JB. Gosto de vê-lo por aqui. ;-)
De Manecas a 28 de Dezembro de 2008 às 23:35
Extremamente bonito o que escreveste, Aninhas...

Quanto ao 7, sei que é um número associado ao espírito, à elevação, à espiritualidade.

Se quiseres , já que dizes que é o teu número, faz a prova dos nove com o teu dia mês e ano de aniversário.

Sei isto porque uma amiga minha "cientista na matéria" me fez uma vez esta numerologia " e disse no fim: "pois era só para comprovar porque eu já sabia que eras 7 de certeza..."

Bom Ano para ti Aninhas!
De Ana Vidal a 29 de Dezembro de 2008 às 11:27
Meu querido Manecas, sabes que acabas de dar-me um desgosto? Feitas as contas como dizes, o "meu número" é o 8. Mas não me interessa, prefiro o 7 e continuará a ser este o meu número, segundo a minha própria numerologia. De qualquer maneira, a matemática nunca foi o meu forte... ;-)

Bom Ano!
De joao severino a 29 de Dezembro de 2008 às 14:36
Muito bonito, Ana. A espelhar certamente muito da sua vida.
Bom Ano.
De Ana Vidal a 29 de Dezembro de 2008 às 19:54
Não espelha a minha vida, João. Estes textos são possíveis legendas para quadros de Magritte, um exercício de ficção que gosto de fazer. Mas ainda bem que gostou.
De sum a 29 de Dezembro de 2008 às 23:52
É lá... Isso é que foi inspiração!! Há muito tempo que não lia nada assim tão bonito.
Este seu exercicio é de facto muito bem conseguido, e gratificante para que lê!
Boa Ana é isso que gosto na sua escrita, deixa-me surpreendida todos os dias.
Um beijo e um bom ano.
De Ana Vidal a 1 de Janeiro de 2009 às 13:51
Querida Sum, exagero seu. Mas se estas palavras a inspiram para outros voos, então já valeram a pena!
Um beijo grande.
De Grande Jóia a 2 de Janeiro de 2009 às 02:58
Dá licença que espreite? Fiquei na dúvida se devia interromper a intimidade do momento.
Muito bonito, parabéns!

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