Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

Natal televisivo (rescaldo)


Entrevista de rua, na Austrália. Duas jovens muito loiras e muito excitadas falam da corrida aos saldos num qualquer Centro Comercial de Sydney como uma "tradição de Natal". No dia de Natal vieram de longe e passaram a noite num hotel que fica mesmo em frente ao tal Centro Comercial, para serem as primeiras a entrar, na manhã seguinte. "Estes saldos já são uma tradição de Natal. Compramos tudo o que queremos, a preços mais baixos. É muito divertido, como o espírito de Natal". Pasmo com o que ouço... há alguma coisa de muito perverso que se apoderou das mentes humanas, para que "o espírito de Natal" tenha integrado alegremente o consumismo desenfreado, a ponto de este se ter tornado "uma tradição". E há, além disso, uma enorme distorção do significado do espírito de Natal, para defini-lo como "muito divertido".

 

Num telejornal, ouço esta notícia curiosa: "Em 2009, o aumento do salário mínimo nacional será superior ao do espanhol". UAU! A informação é dada como uma espécie de vitória lusa contra os castelhanos, e só depois vêm os números, que acabam com a seguinte frase, já num tom murcho: "... a diferença para o salário mínimo  praticado em Espanha reduz-se, assim, para cerca de 171 euros". Pronto... há sempre um desmancha-prazeres que nos lembra a relatividade das coisas. Com menos do que 171 euros "vivem" muitos reformados neste país...

 

Não posso ser só eu a achar que a mensagem de Natal de Sócrates foi mais uma descarada acção de propaganda do governo... o primeiro-ministro falou de pé (numa demonstração de esforço e contenção orçamental?), e a ideia-chave do discurso era esta, mais ou menos: "Todos os sacrifícios que pedimos aos portugueses se destinaram a podermos agora, nestes tempos de crise global, apoiar as famílias portuguesas que mais precisam de apoio." Presumo que se referisse às famílias dos banqueiros, já que todas as outras estão pior do que estavam e não vislumbram melhorias a curto prazo, nem qualquer apoio que venha de cima.

 

Nos Estados Unidos, um homem vestido de Pai Natal entra num local público e dispara a eito, matando oito pessoas e suicidando-se a seguir. É uma receita infelizmente já bem conhecida, a outra face (nem sempre oculta) de uma América tecnológica e sofisticada, orgulhosamente líder do mundo Ocidental mas ainda cheia de contradições.

 

Quatro anos passaram já sobre a terrível catástrofe na Indonésia.  Parece que foi ontem, penso. Os canais portugueses assinalam a efeméride, como seria de esperar, mas, à falta de uma tragédia de igual  efeito  mediático na actualidade, carregam na nota dos pormenores mais sumarentos e arrepiantes e fazem-nos viver tudo outra vez.  A reportagem  é acompanhada de uma banda sonora pesada, igualmente dramática. Quando será que se fartarão deste tipo de sensacionalismo barato, de apelo à lágrima fácil?

 

Muita sobriedade, elegância e (pelo menos aparente) sinceridade, numa excelente entrevista pós-eleição a Barak Obama, no 60 minutos. Dá gosto ver que os vapores do novo cargo não lhe subiram à cabeça, e que expressa as suas ideias com a lucidez serena e bem humorada de quem sabe muito bem o que tem pela frente, mas está disposto a arregaçar as mangas e a fazer-se à empreitada.  Que a Força esteja com ele.

 

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publicado por Ana Vidal às 15:40
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2 comentários:
De sem-se-ver a 26 de Dezembro de 2008 às 20:19
bendita pausa que a fez voltar com esta garra acutilante. bela reportagem, ana.
beijinho
De JuliaML a 26 de Dezembro de 2008 às 21:30
"Quando será que se fartarão deste tipo de sensacionalismo barato, de apelo à lágrima fácil?"

Quando?...excelente análise, Ana!...

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