Sábado, 6 de Dezembro de 2008

Mais alto

 

 

 

Construímos o nosso castelo sobre a mais alta escarpa do sonho, no cume da utopia. Pedra a pedra o moldámos, exigentes. Era a perfeição que nos guiava os gestos, escancarando aos nossos olhos incrédulos a sua eterna insatisfação. Quisemos que a nossa morada fosse única, inimitável, irrepetível. Ninguém teria um castelo igual ao nosso, mágico baluarte de um segredo que só nós conhecíamos. Nenhum mortal tocaria as estrelas como nós, nenhum ser vivo saberia jamais como deixá-las escorregar por entre os dedos, como brinquedos dos deuses que éramos. Inebriava-nos o ar puro que só nós respirávamos, a voz do vento que cantava só para nós. Gravámos uma divisa sobre a porta: Mais Alto.

 

E subimos sempre mais alto, mais alto, mais alto.

Tão alto, que a queda nos foi fatal.

 

 

(Imagem: Le Chateau des Pyrenees, de Magritte)

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 21:35
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14 comentários:
De fugidia a 6 de Dezembro de 2008 às 22:40
:-)

Gosto de a ler, Ana.
E gostei muito deste post.
Mas não sei bem o que comentar, porque é daqueles textos que podemos pegar nele de várias perspectivas e faz sempre sentido.
Dependerá do nosso estado de espírito, naturalmente.

Eu, hoje, sinto-me feliz: estive rodeada de quem amo e de quem me faz feliz.
Não consigo imaginar quedas. Estou nos píncaros e lá me manterei, tenho a certeza.
:-)

Beijinho.
De Ana Vidal a 6 de Dezembro de 2008 às 23:34
Assim será, com certeza. Porque o mereces e porque saberás equilibrar-te lá em cima.
Pelo menos é o que te desejo. :-)

Quanto ao texto é, como sempre, uma ficção ditada por aquilo que o quadro me sugere.

Beijinho
De fugidia a 6 de Dezembro de 2008 às 23:49
:-p
(ainda não me habituei ao tratamento por tu, aqui nestas caixinhas, mas vou esforçar-me)
Beijinho, Ana :-)
De Ana Vidal a 7 de Dezembro de 2008 às 02:16
:-)
De Cristina Ribeiro a 7 de Dezembro de 2008 às 00:24
Se subirmos até às nuvens, Ana, que bom que é; não podemos é aspirar chegar ao sol, ou as nossas asas de cera derretem...
Beijo

P.S. Texto lindo...
De Ana Vidal a 7 de Dezembro de 2008 às 02:16
Pois é, Cristina, e a sabedoria para distinguir altitudes é essencial...

Beijo
De mike a 7 de Dezembro de 2008 às 00:30
Bela escrita, Ana. E a imagem é fantástica. Eu diria que a queda não devia ter sido fatal, que gosto de finais felizes. Assim poderiam recomeçar a contruir o castelo, mas na escarpa do sonho, evitando o cume da utopia, essa sim, fatal. ;-)
De Ana Vidal a 7 de Dezembro de 2008 às 02:14
Quem não gosta de finais felizes, Mike?
Mas sem utopia não há sonho, e sem sonho o final será sempre mais infeliz... :-)
De Carlos Barros a 7 de Dezembro de 2008 às 00:45
Ana, ler o seu texto aliado ao quadro de Magritte, é sentir um misto poético seguido de uma carga psicológica ainda maior. Fiquei atônito e bem sei os motivos.
Belo texto, Parabéns!
De Ana Vidal a 7 de Dezembro de 2008 às 02:09
Agradeço, Carlos.
De Mialgia de Esforço a 7 de Dezembro de 2008 às 13:32
Quando não há nada que nos faça sonhar nem utopiazinha que persigamos mais vale apagar as luzes. Convém é estar preparado para o trambolhão. E saber reerguer-se.

Bjs.
De Ana Vidal a 7 de Dezembro de 2008 às 14:01
Só não concordo com o apagar das luzes, Mialgia: por muito que doa, a queda tem de ser com luz e de olhos bem abertos, para depois reconhecer o caminho de volta ao sonho...
De Paulo Cunha Porto a 7 de Dezembro de 2008 às 18:32
Querida Ana,
é que o conceito de levitação só é operante quando a terra está a curta distância. Esquecemo-nos de que quem sobe muito, muito alto accaba por ir parar ao espaço exterior, que é irrespirável. E quando se reentra na atmosfera, vive-se o momento da aterragem, tido como o mais perigoso.
Beijinho
De Ana Vidal a 8 de Dezembro de 2008 às 00:57
É isso mesmo, Paulo.
Mas, quando se sobrevive à aterragem, nada mais assusta daí para a frente!
Beijinho

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