Domingo, 16 de Novembro de 2008

Matéria

 

E no entanto, meu amigo, não é de evidências, mas de intangíveis, que se faz essa fugaz matéria a que chamamos amor. Faz-se de uma substância estranha, mutante e imprevisível, apenas materializada na surpresa que de repente nos devolve o espelho: um corpo que desconhecíamos, um olhar perplexo. Faz-se de um súbito sobressalto que nos invade as entranhas, um imperioso capricho da pele, um inapelável desassossego. Faz-se de um gesto irreprimível, todo languidez e impotência. Faz-se da essência dos rios, correndo em curso livre até se precipitarem num mar que nunca viram, mas sabem ser o seu único destino. E faz-se da placidez dos lagos. Faz-se da beleza terrível de um incêndio, da voragem de um tornado, do mortífero poder de um raio. Faz-se de clarividência e de cegueira, de lucidez e de loucura. Faz-se de júbilo e de angústia. Faz-se de pudor e de lascívia. Faz-se do mais magnífico festim e da mais insuportável solidão. Faz-se de glória e de miséria, de riso e de pranto, de cobardia e de audácia, de música e de silêncio, de luz e de sombra. Faz-se de guerra e de paz. De vida e de morte. De tudo. De nada.

 

(Imagem: René Magritte - Liaison Dangereuse)

 

 

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publicado por Ana Vidal às 01:16
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34 comentários:
De Pedro a 16 de Novembro de 2008 às 09:06
Dito assim, parece fácil...
De Ana Vidal a 16 de Novembro de 2008 às 12:00
É fácil de reconhecer e difícil de viver. Mas nenhum de nós trocaria este "estado de graça", como diz a Júlia, por nenhum outro, não é? Mesmo com tudo o que ele implica de desassossego... :-)
De JuliaML a 16 de Novembro de 2008 às 09:16

É o fácil, dificil.

Meu Deus Ana, que texto, que postal perfeito!

fiquei em estado de graça.

beijo
De Ana Vidal a 16 de Novembro de 2008 às 12:01
Ainda bem que ficaste, Júlia!
Um beijo :-)
De Rita Ferro a 16 de Novembro de 2008 às 09:29
Ah, Ana, às vezes penso que estás e és desperdiçada! Porra. Não há ninguém que financie esta Mulher só para escrever?
De Ana Vidal a 16 de Novembro de 2008 às 11:54
Que exagero, Rita! Quem apostasse em mim morreria à fome, eu escrevo por impulsos... :-)
De Teresa Ribeiro a 16 de Novembro de 2008 às 10:20
Que este texto tão arrebatado seja inspirado por uma paixão a condizer, são os meus mais sinceros votos :)))
De Ana Vidal a 16 de Novembro de 2008 às 12:07
Obrigada, Teresa. Já foi escrito há algum tempo, na verdade. Mas as paixões são assim mesmo: inspiram-nos, desaparecem e... deixam-nos mais ricos.
De CNS a 16 de Novembro de 2008 às 14:07
O paradoxo do amor...
Fabuloso texto , Ana!
De Ana Vidal a 16 de Novembro de 2008 às 20:58
Obrigada, Cristina.
Um beijo
De manecas a 16 de Novembro de 2008 às 16:07
Parabéns Ana. Magnifico texto. Excelente inspiração!

Percebo que seja por e puro impulso, mas é por isso que ficarás sempre por ser a minha amiga FAMOSA!!!

Beijocas
De Ana Vidal a 16 de Novembro de 2008 às 21:00
A grande diferença é que a amizade não é efémera, ao contrário da fama. Prefiro a primeira, Manecas.
Beijinho
De fugidia a 16 de Novembro de 2008 às 16:32
... faz-se de cheiro, pele, beijos, vontade de loucura e serenidade.

Um belíssimo texto, Ana, como vários outros a ilustrar imagens.
Beijinho :-)
De Ana Vidal a 16 de Novembro de 2008 às 21:02
Outro para si, Fugi, que está em plena fase de comprovar tudo isso. Que dure muito, e se possível... sempre. :-)
De Ana Paula Motta a 16 de Novembro de 2008 às 17:24
Um texto cheio de vida,pleno em lua. Lindo, como a paixão...
De Ana Vidal a 16 de Novembro de 2008 às 21:02
Obrigada, Ana Paula.
Um beijo
De mike a 16 de Novembro de 2008 às 19:13
A Rita tem razão, caraças! Acabei de ler este magnífico texto pensando que estas deviam ser as palavras proferidas e repetidas no altar. (...) No júbilo e na angústia, na clarividência e na cegueira, na lucidez e na loucura, na glória e na miséria (...) Hum... no pudor e na lascívia já seria mais complicado ouvir no altar. Belíssimo, Ana. :-)
De Ana Vidal a 16 de Novembro de 2008 às 21:03
Mas a lascívia faz parte integrante do quadro, Mike... devia ir ao altar também! ;-)
De luis eme a 16 de Novembro de 2008 às 19:49
de tanto e de nada...

tens razão, Ana...
De Ana Vidal a 16 de Novembro de 2008 às 21:06
Tão poderoso e tão frágil, Luís... não é?

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