Sábado, 8 de Novembro de 2008

A imperatriz dos Andes

 

Morreu esta semana a cantora peruana Yma Sumac, uma verdadeira lenda de que as novas gerações provavelmente nunca ouviram falar.

 

Deram-lhe muitos nomes - desde "Rouxinol Andino" a "Imperatriz de Matchu Pitchu" - não só pelo seu extraordinário aparelho vocal como pelos filmes que protogonizou, quase sempre histórias da fascinante mitologia do seu país natal que tinham como cenário a inigualável paisagem dos Andes. Mas nem precisava de ter escolhido um nome artístico (Yma Sumac ou Ymma Sumack, no princípio da carreira em Hollywood), já que nenhum poderia competir em exotismo e "peso" com aquele com que foi baptizada: Zoila Augusta Emperatriz Chavarri del Castillo.

 

Mas concentremo-nos na voz, aquilo que lhe deu um lugar único na História. Tanto quanto se sabe, nunca uma voz humana chegou tão longe em extensão e timbre como a de Yma Sumac. Era um "contralto virago", uma anomalia vocal muito rara que, no caso dela, atingiu o máximo de alcance conhecido até hoje: cinco oitavas (!),  uma proeza inimaginável para qualquer cantora (uma boa voz lírica feminina atinge em média duas oitavas e meia; Maria Callas, por exemplo, orgulhava-se das suas três oitavas limpas).

 

A voz de Yma movia-se entre o barítono e o soprano ligeiro com uma facilidade espantosa. Gastou-a quase exclusivamente em mambos e outros sons do folclore andino, género em que podia exibi-la "de A a Z" como se de um número de circo se tratasse. Mas fez também brilharetes na ópera, dos quais o episódio mais conhecido é aquele em que arrasou com a Flauta Mágica de Mozart numa tournée por Itália, nos anos 50, época de ouro da sua carreira. Porque cantou bem? Claro, mas sobretudo porque não foi Pamina que escolheu interpretar. A sua voz foi emprestada... à própria flauta! Tudo isto por ter subido ao palco furiosa, depois de uma provocação de um crítico musical que a avisou, em tom jocoso, de que ela estava "no berço da ópera" e ali cantaria para connaisseurs, não para os leigos que a adulavam lá nas Américas...

 

Yma Sumac desapareceu de cena muito antes da sua morte. O mundo engole os seus ídolos a uma velocidade estonteante, e ainda mais quando são estranhos e pouco ortodoxos. O reinado de Yma não foi longo, nem como actriz nem como cantora. Mas foi intenso e raro, e por isso merece ser recordada. Ainda não houve quem suplantasse as proezas vocais de que a Imperatriz dos Andes era capaz.

 

 

(Yma Sumac - Pachamama)

publicado por Ana Vidal às 16:12
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16 comentários:
De Pedro a 8 de Novembro de 2008 às 18:42
É completamente disparatado o que vou dizer, mas acontece-me constantemente - de certa forma fico feliz, porque já a tinha morto há imenso tempo. Juro que pensava que já não fosse viva. E esta idéia não está relacionada com a de que já havia desaparecido de cena há muito. Enfim, mais um mito que se perde.
É curioso grafar com I - sempre vi com Y.
De Pedro a 8 de Novembro de 2008 às 18:57
(não quer reconsiderar aquela parte das gerações novas?!? é que devo ser dos seus leitores mais novos...)
De Ana Vidal a 8 de Novembro de 2008 às 19:16
Você é um melómano, Pedro, não é exemplo... infelizmente! :-)

E não me parece disparatado o que lhe aconteceu. A mim também acontece muito isso, sobretudo com nomes que deixam de ser falados. Pensamos que morreram, é natural.

De Pedro a 8 de Novembro de 2008 às 21:00
Quem me dera ser, mas ainda tenho tanto para ouvir e para aprender! Quanto a essa história, já a conhecia, é absolutamente genial!
De Ana Vidal a 8 de Novembro de 2008 às 19:24
Acho que tem razão quanto à grafia, Pedro. Eu é que estava enganada, já emendei. Obrigada.
Fui pesquisar para saber quem estava certo e encontrei uma história engraçada por causa do nome: correu o boato de que ela era uma fraude, que se chamava na verdade Amy Camus (um anagrama de Yma Sumac) e que tinha nascido em Brooklyn. Ela negou veementemente, ofendida, dizendo: "Quem tem uma voz de 5 oitavas não precisa de mentir quanto à sua origem!".
Bem dito, de facto.
De Paulo Cunha Porto a 8 de Novembro de 2008 às 21:24
Ora aqui está Artista que por completo desconhecia!
E o que andei a perder!
Beijinho grato, ó Ana das Revelações!
De Ana Vidal a 8 de Novembro de 2008 às 23:39
Fica então devidamente registado para a posteridade o único momento em que te ensinei alguma coisa... :-)

(Ana das Revelações?! Não exageres... não me estarás a confundir com o Paulo Coelho?)
Beijinho
De Mad a 8 de Novembro de 2008 às 21:49
Eu (a tal que faz parte das novas gerações) não a conhecia, de facto. Estamos sempre a aprender.

PS - Ainda por cima era bonita!
De Ana Vidal a 9 de Novembro de 2008 às 01:21
Era bonita e expressiva, mas acho que nunca lhe deram um papel num filme de jeito. Se calhar porque era má actriz, não sei. Foi contemporânea da Carmen Miranda e da Josephine Baker, as divas exóticas estavam na moda.
De mike a 8 de Novembro de 2008 às 23:41
Ana, mais importante do que me ter considerado um jovem das novas gerações (vá diga, diga o que pensa em voz alta... ah Mike, seu ignorante... risada)... onde é que eu ia?... ah, o mais importante foi ter-me apresentado, numa escrita sublime, a Imperatriz. :-)
De Ana Vidal a 9 de Novembro de 2008 às 01:24
Com um elogio desses à minha escrita, claro que não vou chamar-lhe ignorante, Mike... até porque sei que não o é. :-)
De Luísa a 9 de Novembro de 2008 às 00:57
Também não conhecia, Ana, vendo-me assim remetida para o grupo das novas gerações. Um nome que já não esqueço por isso e pela bela voz que se reconhece no vídeo. Admirável essa amplitude de cinco oitavas, para quem não consegue – nem nunca conseguiu – ir além de uma oitava e três notas. :-)
De Ana Vidal a 9 de Novembro de 2008 às 01:28
Nós, os simples mortais, não vamos muito além disso, Luísa... uma voz sem treino dificilmente ultrapassa as duas oitavas. Agora imagine cinco!!
De Mialgia de Esforço a 9 de Novembro de 2008 às 01:01
Também a julgava já desparecida e desconhecia de todo o episódio da Flauta Mágica. É por isso que gosto muito de a visitar, ó Saraswati da bloga :-)))
De Ana Vidal a 9 de Novembro de 2008 às 01:31
Saraswati?? Oh, meu caro Miagia, venha mais vezes visitar-me... foi o nome mais bonito que alguma vez me deram! Quanta honra, e logo uma deusa hindu desse calibre... :-)
De Sissym a 25 de Novembro de 2008 às 20:40
A voz dela era realmente incrível... como pode haver tamanha beleza? Agora canta com os anjos e rouxinóis...

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