Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008

Viagens

Esta belíssima fotografia de Lisboa, saída da arte e da sensibilidade da Luísa, levou-me de repente até Istambul. Por isso republico este post escrito há cerca de um ano, quando lá estive pela segunda vez depois de muitos anos.

 

De Istambul, com amor

 

Entre mim e Istambul há uma paixão antiga. Começou há muitos anos, com um pianissimo e inocente flirt que prometia grandes voos, mas afinal se deixou adormecer devagarinho e acabou por ser cilindrado pela voragem da vida. Mas o limbo do tempo manteve a paixão viva, porque voltou agora, em cheio, sem sequer se fazer anunciar.

 


 

É um mundo que tem muito em comum comigo: ambos vestimos várias peles, ambos gostamos de mistério e de exotismo, ambos somos feitos de uma matéria absorvente, flexível, em permanente mutação. Talvez por isso me sinta tão bem lá. Costumo ter grande  facilidade em fundir-me com os sítios aonde vou, e em poucos dias tenho alma de nativa. seja onde for. Mas em Istambul isso é-me especialmente fácil e natural. A cidade oferece as suas muitas faces a quem a quiser descobrir, mas há que respeitá-la e entendê-la para fruí-la inteiramente.

 

Além disso, uma viagem a Istambul é para nós, portugueses, uma alucinante e surpreendente descoberta de muitas das nossas origens e tradições: de repente, entramos na belíssima Mesquita Azul (nesta viagem, eu acordava e adormecia com a mágica imagem da mesquita em grande plano, emoldurada pela janela do meu quarto... como não sonhar com garbosos Aladinos, sobrevoando os minaretes nos seus tapetes ondulantes?) e descobrimos, fascinados, o catálogo completo de padrões das nossas chitas de Alcobaça, estampados em azulejos e frescos, decorando paredes, arcos e abobadilhas; dobramos uma esquina e o inconfundível cheirinho de castanhas assadas invade-nos as narinas, vindo de um carrinho igual aos nossos (pré-ASAE, claro), com um vendedor que as arruma uma a uma, criteriosamente; no deslumbrante Harém do palácio Topkapi encontramos ruas inteiras de pequenos seixos rolados, pretos e brancos, em desenhos caprichosos que nos revelam, sem enganos, a genealogia da calçada portuguesa; um eléctrico (rigorosamente igual aos nossos com excepção da cor, encarnado e não amarelo) desce uma rampa íngreme e traz-nos de volta a casa, a Lisboa, num lance de magia; sobre a ponte Gálata comemos uma espécie de sardinha assada sobre o pão, como se estivéssemos na Madragoa ou em Alfama, nos santos populares. 

 

E há muitos mais paralelismos: a luz de Istambul é a mesma luz gloriosa de Lisboa, de um branco azulado que não há em mais sítio nenhum, que eu saiba; o Bósforo tem quase a largura do Tejo, com uma Cacilhas asiática em frente, na outra banda, e uma ponte de ferro que apenas difere da nossa no comprimento e na cor; a cozinha, mediterrânica como a portuguesa, tem sabores que reconhecemos facilmente e outros que deixámos que se perdessem, com a globalização que já nos engoliu; a simpatia feita de manha, o improviso, a marosca, o fatalismo e outros atributos que nos caracterizam, também a nós, fazem dos turcos uma espécie de portugueses exóticos, mais sensuais, mais feios  e ainda mais aldrabões. Em todas as lojas nos oferecem um delicioso chá fervente de maçã, um ritual sagrado e irrecusável que acompanha o despique da negociação obrigatória de cada compra até à redução do preço a um terço do inicial. O Grande Bazar, com as suas quase 5.000 lojas, é um abismo de tentações. E o Bazar Egípcio (também chamado Bazar das Especiarias) um festim para os sentidos, sobretudo para os gastrónomos como eu.


Istambul é um verdadeiro caleidoscópio: ora nos sai Bizâncio, num esplendor de mosaicos de ouro e cores deslumbrantes (o exemplo mais impressionante é a igreja de São Salvador de Chora, um comovente bastião da fé cristã em terras islâmicas, com paredes e tectos cobertos de cenas da Bíblia, de uma beleza rara e em óptimo estado de conservação); ora nos sai Constantinopla, imponente como o império que a baptizou e que por lá deixou vestígios inigualáveis (como a maravilhosa Cisterna da Basílica ou Hagia Sophia, irmã cristã da Mesquita Azul e uma majestosa manta de retalhos de cultos religiosos); ora nos sai um poderoso marco otomano, com incontáveis mesquitas cujos altifalantes, nos minaretes, propagam arrepiantes litanias de apelo à oração, 5 vezes por dia, e transformam a cidade (sobretudo ao entardecer, quando começam a iluminar-se) num cenário das mil e uma noites; ora nos sai, finalmente, uma metrópole moderna e fervilhante do lado de lá das pontes, piscando o olho ao ocidente e aspirando por um lugar ao sol da Europa.

 

Não fora a Ásia e os seus conflitos, sempre tão omnipresentes, e o sonho estaria mais perto. Mas não é possível ignorarmos, por exemplo, um grupo de mulheres embiocadas em trapos pretos, escondidas atrás de uma grade e separadas dos todo-poderosos homens, no simples acto de rezar, numa mesquita, ao mesmo Deus. Ao mesmo? Não, não pode ser o mesmo. As mulheres muçulmanas são, com toda a certeza, filhas de um deus menor. E é nesse ponto, de uma enormidade inultrapassável, que eu e Istambul nos zangamos e acabamos o romance.

 

Mas recomeçamos logo a seguir. Porque, afinal de contas, todos os amantes têm defeitos e qualidades.

 

 

 

 

 

 

 


Can Atilla - Mara Despina

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 14:00
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22 comentários:
De Leonor a 23 de Outubro de 2008 às 21:43
Istambul está na minha lista de cidades a visitar. Quem sabe para o ano :-)
De Leonor a 23 de Outubro de 2008 às 21:47
Já leste Istanbul - Memoirs of a City do Orhan Pamuk?
De Ana Vidal a 23 de Outubro de 2008 às 22:19
Não li, Leonor, mas vou procurar. Obrigada pela dica.
Beijinhos, e não deixes de ir se puderes.
De Leonor a 23 de Outubro de 2008 às 22:56
Não ligues Ana, saiu agora a versão em Português, sem qualquer desmérito para com o teu Inglês. O meu é Inglês, andava doida para o encontrar no início do ano e quando fui a Copenhaga não resisti.
Beijinho
De Ana Vidal a 23 de Outubro de 2008 às 23:26
Se há uma tradução razoável, não resisto. Ando muito preguiçosa para ler originais, já não tenho a mesma capacidade de concentração... ;-)
De Cristina Ribeiro a 23 de Outubro de 2008 às 22:39
Sempre gostei de viajar através das palavras dos outros; mais uma vez o confirmei, Ana...
De Ana Vidal a 23 de Outubro de 2008 às 23:30
Ainda bem que a fiz viajar, Cristina. Mas não deixe de lá ir, o meu post não substitui a realidade, nem vagamente! :-)
De fugidia a 23 de Outubro de 2008 às 22:52
Hum... confesso que fiquei com vontade de lá ir.
Já pensou em ser guia turística? [:p]
Beijinhos
De Ana Vidal a 23 de Outubro de 2008 às 23:31
Já não vou a tempo, mas não me importava nada, Fugi... :-)
De luis eme a 23 de Outubro de 2008 às 23:03
gostei de viajar por Istambul...

curiosamente, era uma daquelas cidades que não pensava visitar, mas é cheia de atractivos...
De Ana Vidal a 23 de Outubro de 2008 às 23:43
Olá, luís eme. Istambul é mesmo apaixonante, ou não tivesse sido o centro de sucessivos impérios. Não é um berço que ali encontramos, são vários...
De Luísa a 23 de Outubro de 2008 às 23:48
Também gostei muito desta viagem, Ana – também sou de estabelecer paralelos e contrastes com a realidade que conheço - e fico com vontade de a repetir, agora pelo meu pé. A Turquia é o único país da Ásia Menor a que, no actual estado de coisas, equacionaria a hipótese de ir – embora, na verdade, por uma razão ou por outra, todos me interessem. Oiço falar que se fazem, ao longo da costa do Egeu, presumo, uns óptimos cruzeiros de veleiro. E integra uma das regiões do planeta que mais me atrai pela sua falada originalidade, a Capadócia. Resta-me saber, para me decidir - e agora que a estação está em pleno - se as castanhas assadas também por lá estão ao mesmo preço proibitivo que por cá. ;-D
De Luísa a 23 de Outubro de 2008 às 23:53
E obrigada, Ana, pela referência à fotografia, cuja «beleza» parece não ter tido aceitação passiva… ;-D
De Ana Vidal a 24 de Outubro de 2008 às 00:16
As castanhas são bem mais baratas lá, Luísa, e estão dispostas nos carrinhos em desenhos engraçados que eles se vão entretendo a fazer à medida que as assam. Só têm um defeito: não têm sal, como as nossas.

Estive lá na passagem de ano, com muito frio mas sempre sol. E no último dia, como um presente, caíu um nevão enorme que deixou toda a cidade branca. Mais uma faceta...
De mike a 24 de Outubro de 2008 às 00:10
Gostei muito desta viagem, Ana. Mas a menina não é muçulmana, porque haveria de ter acabado o romance? Acho que estava de má vontade... mas Istambul deu-lhe a volta de novo, hein? ;-)
De Ana Vidal a 24 de Outubro de 2008 às 02:33
É, Mike, essa é a parte que me incomoda. Mas a beleza de Istambul faz esquecer tudo outra vez. :-)
De Mialgia de Esforço a 24 de Outubro de 2008 às 11:37
Gostei muito de a ler, Ana. Fez-me viajar no tempo. Estive lá uma semana, em Outubro de 2000, com um tempo excelente e visitei todos aqueles pontos obrigatórios que tão bem descreve. Inesquecível um jantar no Palácio Dolmabahce e outro, por motivos diferentes, num restaurante típico, cujas atracções principais eram umas pequenas executantes da dança do ventre e uns moços vestidos de branco que rodopiavam a uma velocidade estonteante sem perder o equilíbrio. E de um dia fantástico no Bósforo a bordo de uma espécie de cacilheiro. Para além disso fiquei alojado no Ceylan InterContinental (muito perto do Taksim) que tem uma vista fabulosa para o Bósforo. Curiosamente, do meu quarto a vista era bem diferente - a do Estádio do Besiktas. E o banho turco e a massagem? Um must. No Grande Bazar, o antepassado dos centros comerciais, fiz várias compras com destaque para um relógio TAG - fake as a three-dollar bill- mas que ainda funciona na perfeição.

Do que não gostei: das quase 2 horas de táxi, para percorrer 20kms entre o aeroporto e o hotel, do trãnsito ultra-caótico, dos magotes de gente em tudo o que era sítio e de, à saída do Bazar, um fulano, tipo melga, que queria à viva força engraxar-me os sapatos à borla.
De Ana Vidal a 24 de Outubro de 2008 às 14:05
Claro que esta descrição está um bocadinho romantizada, Mialgia. Istambul é também tudo isso que refere: a confusão, o excesso de gente e o pouco asseio nas ruas. Mas o resto compensa largamente, a cidade é linda e muito curiosa.
Conheço o Ceylan, que tem uma vista deslumbrante. Eu fiquei em Sultanahmet, no Golden Horn. Tem as vantagens e as desvantagens inerentes ao facto de estar no centro histórico.
Quanto ao banho turco e massagem, um dia destes faço aqui um post sobre a minha experiência (tenho a certeza de que foi bem diferente da sua...).
De Paulo Cunha Porto a 24 de Outubro de 2008 às 14:52
Isto sim! Onde o Conselheiro Acácio louvava Lisboa e Constantinopla, fazendo o paralelo entre ambas, com uma banalidade de circunstância e sem nunca lá ter estado (podem confirmar no texto), Tu dás-nos uma visão conhecedora, no mais notável dos estilos!
Obrigado, Ana!
Obrigadinho, Luísa!
Beijinhos
De Ana Vidal a 24 de Outubro de 2008 às 16:20
Ai, Paulo, Eça mania de te deixares toldar pela amizade... :-)
De Teresa Bragança a 29 de Outubro de 2008 às 19:27
Lembro-me da viagem lindamente, de nos quererem enganar no hotel e porem-nos nos piores quartos, das castanhas sem sal, do milho que me fartava de comer, do chá de maçã (Lembra-se Ana?). O último dia não podia ter sido melhor, aquela neve toda e a maravilha de vista que era do nosso hotel. E a decoração da entrada? Tenho muitas saudades da viagem. Beijinhos
De Ana Vidal a 29 de Outubro de 2008 às 20:27
Olá, Teresa, seja muito bem aparecida por aqui!
Também tenho saudades disso tudo... foi uma óptima viagem, não foi? Quanto aos quartos, eles não sabiam que se estavam a meter com portugueses! Claro que ficámos com os melhores, e ainda um pedido de desculpa!
Beijinhos, volte sempre.

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