Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

Força maior

 

 

Interrompo hoje, pela segunda vez, uma pausa que decidira gozar por alguns dias. Não me arrependo de fazê-lo, porque ambos os motivos são de força maior e me merecem mais respeito e atenção do que o meu descanso. Ambos se prendem com questões de amizade, e a amizade é uma coisa que considero sagrada.

 

O primeiro foi o nascimento de um bebé que tem um significado muito especial para mim, filho de dois queridos amigos. Uma notícia feliz, portanto.

 

O segundo, pelo contrário, é uma notícia inesperada e triste: o "bater de porta" de um amigo que muito respeito - o Paulo Cunha Porto - num blogue que constituiu uma referência para mim desde o primeiro momento em que aterrei neste mundo - o Corta-Fitas. A razão da brusca saída, tão pouco tempo depois da entrada em cena? Não a sei claramente, mas, ao que percebo, prende-se com questões ideológicas ou diferendos de opinião. E é isso o que mais me incomoda em tudo isto: tive sempre o Corta-Fitas e os seus redactores  na conta de livres e isentos, o que me fazia admirá-los, e este episódio faz com que essa admiração fique agora seriamente comprometida. Um blogue com o perfil do Corta-Fitas é tanto mais rico quanto mais plural. E o Paulo é uma evidente mais-valia, para qualquer blogue que não tema a polémica. Ainda há bem pouco tempo me pronunciei sobre a disciplina de voto partidária, que considero uma aberração em democracia. Num blogue, por definição um espaço de liberdade, essa disciplina ainda me parece mais incompreensível.

 

O Paulo Cunha Porto nunca escondeu as suas opiniões políticas nem o seu prazer em abordar temas polémicos, clara e repetidamente expressos nos vários blogues em que escreveu. Não estou de acordo com ele em muitos assuntos (em alguns deles situamo-nos mesmo nos antípodas) e batemo-nos frequentemente por  opiniões contrárias, mas nunca o vi discutir ou defender os seus pontos de vista de uma forma que, de algum modo, fosse incómoda para mim. Pelo contrário: além de uma enorme erudição, que apoia e fundamenta solidamente as suas incomuns teorias, o Paulo é de uma elegância irrepreensível numa discussão. Admito que não "encaixa" no tal mainstream, seja lá isso o que for. Mas então, conhecendo já as suas posições diferentes, por que foi que o convidaram a integrar a equipa do Corta-Fitas? E porquê esta censura repentina?

 

Não percebo. Fico à espera de respostas satisfatórias e de atitudes claras. Nesta casa, meu amigo Paulo, não preciso de dizer-te que és sempre bem-vindo.

 

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publicado por Ana Vidal às 23:50
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16 comentários:
De Margarida Pereira a 18 de Outubro de 2008 às 14:07
Exactíssimamente!
Palavra por palavra.
Sentimento por sentimento.
De Luísa a 18 de Outubro de 2008 às 14:17
Ana, penso que o problema é quase de origem e não sei se de cariz político-ideológico… Creio que o vi nascer logo na primeira Sexta-Feira. O Paulo é uma pessoa vibrante e, como todos os vibrantes, fez uma entrada de «leão» (ele que me perdoe a comparação. Devia dizer «águia»… mas não digo!), provocando um arrepio na serena superfície do lago «corta-fiteiro». Tenho pena, porque gosto de lagos e mares serenos, mas, por alguma razão, nunca resisto – geralmente não resistimos – a atirar pedras e a agitar as águas lisas. Era – ou parecia-me - uma excelente combinação. Resta-me desejar que o Paulo abra ou reabra rapidamente o seu espaço. Acho que já é possível dizer que tem a responsabilidade de o fazer. :-)
De Ana Vidal a 18 de Outubro de 2008 às 18:00
Também pensei por momentos, Luísa, que o problema estava nas sextas-feiras. E também identifiquei um "espinho" logo na primeira... mas não foi isso. Os motivos são outros e bem menos edificantes. O Paulo fez muito bem em sair.
Claro que nada disto é o fim do mundo, outro espaço haverá para ele, bem mais à sua medida. Mas às questões de carácter não fico indiferente, e esta não é tão inócua que me faça ficar calada.
De Cristina Ribeiro a 18 de Outubro de 2008 às 16:26
Mais uma solidária com o nosso amigo Paulo, a pedir a sua volta- ele sabe que sempre afirmei a falta que faz!
De Mialgia de Esforço a 18 de Outubro de 2008 às 16:53
Cara Ana,

Não conheço pessoalmente nenhum dos membros do Corta-Fitas mas, ao longo destes meses em que o tenho visitado quase diáriamente, foi dando para conhecer um pouco quem lá habita. Digamos que para mim, a saída do Paulo foi uma meia-surpresa. Já lhe transmiti, a ele, no seu último post comentável, parte do que senti pela sua saída. O modo como ele descreve a situação revela uma baixeza de carácter torpe, própria de gente sem grandes princípios. Ideologicamante, nada me aproxima do Paulo mas tenho-o como uma pessoa boa e de sólida formação. Inteligente, arguto, perspicaz e atencioso como muito poucos, fazem dele uma espécie quase em vias de extinção nos dias de hoje. E isso tornou-se insuportável para alguns. É confrangedor quando se começa a ver sombras em tudo o que é sítio. E muito triste.
Receio que em breve iremos assistir às exéquias do Corta-Fitas. E é pena porque aprecio bastante alguns, agora menos, dos seus elementos.

E já sinto a falta das postas do Paulo.
De Ana Vidal a 18 de Outubro de 2008 às 18:03
Concordo, Mialgia. Também me parece que esta cisão vai causar estragos sérios no Corta-Fitas e tenho pena de que assim seja. Mas aguardemos... talvez os amotinados se organizem, como espero. :-)
De Paulo Cunha Porto a 18 de Outubro de 2008 às 20:53
Querida Ana,
muito obrigado a Ti, Luísa e Cristina. Haverá outras possibilidades, estou certo.

Tenho de deixar uma palavra especial para o Caro Mialgia de Esforço: tê-Lo descoberto como Comentador foi dos melhores momentos da minha já longa travessia da blogosfera. E gosto muito de vê-Lo nesta extraordinária Casa, que condiz com a Sua Qualidade.
Beijinhos e abraço
De Mialgia de Esforço a 18 de Outubro de 2008 às 21:07
Meu Caro Paulo,

Bondade sua, como sempre. Claro que por aqui continuarei a passar.
Quero continuar a lê-lo e a comentá-lo na blogosfera. A sua inteligência faz muita falta. Vá dando notícias, Ok?

Um Abraço.
De JuliaML a 18 de Outubro de 2008 às 21:04

Concordo absolutamente com o que aqui foi dito por ti, pela Luisa, por todos os amigos.

Não se fica indiferente ao seu carisma, Querido Paulo, brindemos a ele :-)

Reabra o Afinidades ou qualquer outro, não lhe faltarã quem o admire e estime.

bem querer meu

De lucubrina a 18 de Outubro de 2008 às 21:27
Claro que tive que ir até ao Corta Fitas (desconhecia).
Claro que lá li a polémica instalada.
Claro que lá li a despedida do Paulo Cunha Porto.
Mas o mais me deliciou foi ler o post publicado por FAL - Vivos da Silva - e como se referem ao colaborador "despedido" - PCP (ele que é monárquico).
O fantasma permanece. Visado pela censura, pois sim senhor.
De JuliaML a 18 de Outubro de 2008 às 21:33

Fez-lhes sombra, foi o que foi.

De JuliaML a 18 de Outubro de 2008 às 22:04
sabes que mais, Ana?

Cada vez gosto mais de ti. Acabei de te ler agora lá no CF. Ah, Leoa!

De Huckleberry Friend a 18 de Outubro de 2008 às 23:04
O que escreveste deixou-me curioso, Ana. Tanto que fui até ao Corta-Fitas ler o telenovelo. Deplorável. Não conheço nenhum dos intervenientes e ia pouquíssimo àquele blogue, mas agora é quase certo que não irei mais. A monarquia absoluta ou lá o que é é o oposto do que defendo. Mas, caramba, isso não chega para correr com um tipo de um blogue. Cheira-me que a história está mal contada e, se por um lado gostava de saber o que se passou, por outro as intervenções do Naves e do FAL sobre a controvérsia são tão fraquinhas que mais apetece voltar a página...

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