Domingo, 12 de Outubro de 2008

Número de circo

 

(Jacques Dutronc - L'Oportuniste) 

 

Feios, Porcos e Maus - Ettore Scola (1976)

 

Compram aos catorze a primeira gravata

com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas da limpeza após o combate.
São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos - tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.
A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o
golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.


No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.


(JOSÉ MIGUEL SILVA, Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, Lisboa, 2005.)

 

Nota: Dedico este poema e esta música aos deputados da Assembleia da República que nos fizeram recentemente assistir ao triste espectáculo de contorcionismo das suas consciências, vergadas à mais básica ambição carreirista.

 

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publicado por Ana Vidal às 18:24
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8 comentários:
De Cristina Ribeiro a 12 de Outubro de 2008 às 19:29
E ministrar-lhes um curso que lhes explique o que é a vergonha? Se alguém conseguisse esse milagre...
De Ana Vidal a 12 de Outubro de 2008 às 20:10
A vergonha é um bem com baixa cotação na bolsa, Cristina... na bolsa deles, claro. Acho que a maior parte chumbaria por faltas.
De Paulo Cunha Porto a 12 de Outubro de 2008 às 21:42
lha o Dutronc!
A condizer com a pilantragem, claro.
Beijinho
De Ana Vidal a 13 de Outubro de 2008 às 00:18
Como sopa no mel, Paulo... ;-)
beijinho
De mike a 13 de Outubro de 2008 às 00:11
"Os olhos são a morada da vergonha". Mas são os meus, Aristóteles, por me fazerem ver o que me envergonha. Parabéns Ana. Pela escolha certeira e a propósito (e trabalhosa?) do poema.
De Ana Vidal a 13 de Outubro de 2008 às 00:28
Não foi trabalhoso, Mike, já o tinha guardado e as ocasiões não faltam, infelizmente.
Assim o poema servisse para alguma coisa, o que duvido... só o lê quem tem vergonha, como nós.
De Luísa a 13 de Outubro de 2008 às 02:40
Nem sei que diga, Ana. O poema e a música são chocantemente realistas... E já para aqui estou irritadíssima com essa gente sem categoria e comigo por não saber como apagá-la do mapa. Grrrr!
De Ana Vidal a 13 de Outubro de 2008 às 10:08
O mais triste é que este post sirva para irritar-nos a todos, mas não para chegar a quem devia... enfim, vale pelo desabafo!

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