Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

Fraquezas femininas

 

Quase a chegar a casa, de regresso de um jantar simpático em que bebi dois ou três copos de vinho (nada de especial a quantidade, que da qualidade não posso dizer o mesmo), deparei-me com uma aparatosa operação stop, na rotunda do Ramalhão. Dez ou doze carros da polícia a mandar parar todos os carros, sem apelo nem agravo. Não escapei à regra e encostei, contrariada. Estou constipadíssima e a vontade de chegar a casa e meter-me numa cama quentinha era enorme.

 

Depois de mostrar todos os documentos - tudo em ordem, felizmente! - o agente "convida-me" a sair do carro para fazer o teste do balão. Ainda pensei dizer-lhe que, se o balão era de whisky, para mim era com muito gelo... mas calei-me a tempo, ao olhar para a cara de pau do meu "carrasco". Não me pareceu que achasse muita graça  e a verdade é que eu não estava em situação de provocar más vontades.

 

Nunca tinha feito um teste do balão, por isso fui fazendo perguntas à medida que caminhava, gelada e a tossir, pela beira da estrada (em Sintra, à noite, já se nota bem que estamos a caminho do Inverno). Sem certezas quanto ao nível de alcoolemia que o meu sopro acusaria, fui arquitectando uma forma de escapar a um resultado imprevisível. Não sei até que ponto o vinho que tinha bebido, somado a um levíssimo bife grelhado só com legumes e dois ou três quadradinhos de fruta, seria motivo de problema. Just in case, fui falando da minha terrível constipação (verdadeira e a piorar, a cada minuto fora do carro) e dizendo que tenho asma (uma descaradíssima mentira), pelo que não sabia se seria capaz de soprar com força. Dito e feito: foram três as tentativas falhadas de sopro, sem "conseguir" encher os pulmões de ar e, muito menos, expeli-lo com o vigor de que a maquineta precisa para dar algum veredicto. Tudo inconclusivo. Pedi desculpa, tossi ainda mais e disse que estava a ficar com muito frio, e que era melhor ele deixar-me meter no carro da polícia para continuar a fazer o teste. Olhou para mim, escandalizado com o abuso do pedido, e respondeu-me com um seco: "Não temos ordens para deixar entrar pessoas no carro". Nova tentativa, nova frustração: o meu sopro não apagaria nem uma vela de bolo.

 

Com uma fila de candidatos atrás de nós, o guarda acabou por desistir de mim e mandou-me embora, irritado. Ainda lhe ouvi um resmungo mal humorado para um colega, mas fiz de conta que não dei pelo desabafo. Estava safa. Cheguei a casa gelada e a tossir (agora sem fitas), mas sem multa. Talvez o balão não tivesse acusado nada de grave, mas nunca se sabe.

 

E fiquei a pensar que só uma mulher faria isto, pela simples razão de que só uma mulher não se importa nada de fazer-se de parva perante a autoridade. Se é um estatuto de que já temos fama, há que tirar dele alguma vantagem. Valha-nos isso. A última a rir é quem ri melhor. Isto se não tiver apanhado uma pneumonia, entretanto...

 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 02:02
link do post
32 comentários:
De Luísa a 1 de Outubro de 2008 às 04:27
Mas que importante dica me dá, Ana! Nunca fiz o teste do balão e desconhecia que fosse necessária uma certa força de sopro para que houvesse registo de níveis. É um dado que não deixará de me ser muito útil se a oportunidade (que não se deseja) surgir. Tal como a sua estratégia de exploração de fragilidades, que me parece infalível. Mesmo que não desperte no agente o instinto protector ou uma simples compaixão que seja, sempre o inibirá de entrar em provas de força. Rindo do sucesso destas pequenas manhas femininas, Ana, espero que recupere rapidamente da sua constipação. O Outono vai-nos apanhando desprevenidos, e por aqui também já começou a fazer estragos. :-)
De Ana Vidal a 1 de Outubro de 2008 às 11:24
Como previa, estou pior hoje, Luísa. Sem multa mas com o dobro da constipação. Foi castigo, imagino... ;)

As suas melhoras também.
De JuliaML a 1 de Outubro de 2008 às 09:15

lembraste-me as historietas que tenho da safa de multas, que são tantas!! desde enjoada a viuva, já fiz de tudo

o meu pai chamava-me a "safa multas" :-))
De Ana Vidal a 1 de Outubro de 2008 às 11:27
Temos que usar a imaginação, não é? É para isso que a temos, ora essa! Também já fiz alguns desses papeis, Júlia... sobretudo o de grávida, que é uma situação que os homens não dominam e parece ter um efeito mágico neles... ;)

De JuliaML a 1 de Outubro de 2008 às 19:15


também já fiz! :-)

mas o papel que usalmente faço, é enganá-los com a verdade. dá sempre resultado!
De Ana Vidal a 1 de Outubro de 2008 às 20:52
Eu não sou tão sofisticada, Júlia: fico-me pela meia-verdade, não vou mais longe...
De Meloes a 1 de Outubro de 2008 às 10:42
pois eu tambem ja soprei no dito, ja la vao uns bons anos (dez? ja la vao dez?), acusou e vim-me embora sem multa ;-)
Segredo? nao me armei em esperto, disse que tinha bebido, que se soprasse me levava preso, uns olhinhos a gato das botas e ja esta.
Mas como um raio nao cai duas vezes no mesmo sitio (se calhar cai, so ainda nao me convenci disso) agora quando vou tomar um copo, saio de taxi.
Isto para dizer que nao e preciso fazer de parvo, so nao se pode e fazer de esperto.
Beijos
De Ana Vidal a 1 de Outubro de 2008 às 11:33
Tiveste muita sorte com o polícia, então! Geralmente não basta não armar em esperto, é preciso um bocadinho de teatro...
E eu estava perfeitamente, só bebi vinho ao jantar, mais nada.
beijo
De Huckleberry Friend a 1 de Outubro de 2008 às 11:58
"Só uma mulher não se importa nada de fazer-se de parva perante a autoridade"

Não é verdade, Ana... mas parabéns pela pantomina e as melhoras :)
De Ana Vidal a 1 de Outubro de 2008 às 16:08
Serás então a excepção à regra, querido Huck. Os homens não costumam gostar de dar parte de fracos, picam-se e acabam por entrar num braço-de-ferro com os polícias, o que só piora tudo. Se não o fazes, és esperto!

Quanto à pantomina, mais dia menos dia vais ver-me num palco da cidade... descobri a minha vocação.
De João Paulo Cardoso a 1 de Outubro de 2008 às 13:03
Fantástico testemunho que li de uma penada.

Registei, para teste futuro, a história da asma, que achei genial.
Vou arranjar uma bombinha tudo.
Pode dar certo, desde que não apanhe a Brigada de Minas e Armadilhas.

Beijos e as melhoras.
De Ana Vidal a 1 de Outubro de 2008 às 15:59
Aprende, JP, que eu não duro sempre...
bjs, obrigada.
De Sofia K. a 1 de Outubro de 2008 às 16:36
LOL

Só tu... eu também já fiz umas dessas e nunca soprei no balão!

Mas olha que agora eu sou a melhor companhia para as operações stop, é só fingir que vem aí o Limão, ninguém me pára! Quando quiseres já sabes...

beijinhos e vê lá se melhoras para não pegares ao Limãozinho, certo???

p.s. Travesseiros com chocolate quente deve ajudar a curar, não?
De Ana Vidal a 1 de Outubro de 2008 às 17:31
Querida... travesseiros com chocolate quente??? Estás cada vez pior, e olha que vais deixar de ter desculpa para os quilinhos a mais...
Como eu já não tenho há muito tempo, vou curar a constipação com chá de... limão! O que achas?

Beijinhos
De Sofia K. a 2 de Outubro de 2008 às 15:41
Parece-me demasiado saudável... mas olha que um bagaço também ajudava, não?

Vê lá se melhoras e me convidas para jantar! ;-) (LOL)
beijos
De maria.musqueteira a 1 de Outubro de 2008 às 17:21
... Ana Vidal... não resisto à vontade de rir. essa de "fazermos-nos".. de parvas: é pois exactamente a "nossa" grande mestria ! dá cá um jeitasssssssssssso! mas como lhes escapou... com a breca... e deixaram-na mesmo seguir?!.. devem ser porque pela região em causa... os agentes lá têm boas vibrações, provenientes da Real guarda;) eu não lhe disse que esta gripe... era das violentas!?... eu disse. eu avisei! mas... ouvi de si que era imune às constipações, não foi? pois... o mais interessante é que por onde eu andei, até ficar recolhida em casa... todos apanharam essa maldita gripe. recomendo-lhe Redoxon!... agora...ando no fervor das tais "nossas" ideias!... penso que: se aguardam bons resultados. as suas melhoras e não se esqueça do tal provébio: "abafa-te, avinha-te e abifa-te".... dizem que dá resultado, mas como sou vegetariana só poderei fazer as duas 1ªs , dessa triologia popular.
as suas francas melhoras,
maria
De Ana Vidal a 1 de Outubro de 2008 às 17:38
Pois é, Maria, deve ter sido castigo por eu dizer que estava imune... e toda a gente à minha volta está com o mesmo problema também.
Mas foi por causa do "avinha-te", com o "abifa-te" mas sem o "abafa-te", que ontem tive de fazer aquele teatrinho...
Já estou a Redoxon, obrigada pela dica.
Beijinhos

PS: O nosso projecto vai andando, pelo meu lado já comecei a trabalhar nele. Um dia destes temos de falar outra vez.
De maria a 1 de Outubro de 2008 às 18:00
... pois temos k marcar novamente. mas... depois de estar curada. adeste ano custa a passar... o que significa, que segundo os entendidos só daki a 3 anos volta a apanhar outra. é o que dizem..... as francas melhoras e nada de aventuras ;)maria
De Ana Vidal a 1 de Outubro de 2008 às 18:06
Obrigada, Maria. As suas melhoras também.
De sem-se-ver a 1 de Outubro de 2008 às 18:17
tenho uma amiga que nem foi por teatro nem por calculismo nem para 'se fazer de parva': nao teve / nao tem mesmo folego (eu acho que é uma questao de jeito, nao de folego) para que aquilo suba seja onde for. estavam todos os agentes à volta dela 'força, minha senhora, mais uma vez, ora tente lá!', e nada - deixaram-na vir embora.

:-)

(e não, nao tinha bebido...)

as melhoras, ana. cuidado com as gripes, que podem ser perigosas.
De Ana Vidal a 1 de Outubro de 2008 às 18:40
Então a sua amiga não vai para o inferno, como eu, ssv...
Obrigada. :)
De fugidia a 1 de Outubro de 2008 às 18:28
Shame on you...

As melhoras.
Bom... vá lá, um beijinho...
De Ana Vidal a 1 de Outubro de 2008 às 18:38
Mas, Fugi, eu é que fiquei doente...
I presume you mean: "Shame on them, the bad guys!"

Beijinho ;)

Comentar post

brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

Até sempre

Expresso do Oriente (3)

Expresso do Oriente (2)

Expresso do Oriente (1)

Vou ali...

Adivinhe quem foi jantar?

Intervalo

Semibreves

Pocket Classic (A Educaçã...

Coentros e rabanetes

Adivinhe quem vem jantar?

Moleskine

Lapsus Linguae

Semibreves

Sou sincera

Rosa dos Ventos

Livros



Seda e Aço


A Poesia é para comer


Gente do Sul

E tudo o vento levou

Perfil

Technorati Profile

Add to Technorati Favorites

Ventos do mundo

Ventos de Passagem


visitantes online

Subscrever feeds