Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008

The great american circus

 

Raramente comento política, e por duas incontornáveis razões: porque percebo pouco do assunto e porque, talvez por isso mesmo, quase sempre ele me maça e me deprime. Não me meto em altas cavalarias (embora cada vez mais sobre pilecas...) quando há muito quem o faça melhor do que eu.

 

Mas é claro que gosto de manter-me informada, pelo menos sobre os grandes temas da actualidade política, e por isso as eleições americanas não me têm passado ao lado. Seria impossível, com todo o aparato e tempo de antena que ocupam nos espaços noticiosos nacionais. E já que me obrigam a acompanhar o grande circo eleitoral americano, arrisco uma reflexão própria.

 

Como seria de esperar (já tardava), assistimos agora a um contra-ataque final poderosíssimo dos republicanos, concertado entre a administração Bush e o seu candidato McCain,  e na minha opinião magistralmente orquestrado. Paulatinamente, os conservadores deixaram o primeiro milho para os pardais, no caso um pardal atraente e mediático a quem era imperioso permitir que exibisse a plumagem até que deixasse de ser novidade. O contra-ataque começou com a contratação da "miss" Sarah Palin e daí para cá tem vindo num crescendo imparável, aproveitando (pergunto-me até que ponto não terá sido induzida...) a crise económica para a manipulação das emoções mais básicas dos básicos cidadãos americanos. Já Bush tinha feito o mesmo com a cartada da insegurança causada pelo terrorismo, e agora a instabilidade económica serve perfeitamente para o mesmo efeito. Há que encontrar um herói que salve o país e o mundo e lhes devolva a paz e a prosperidade, e depois se afaste gingando no seu cavalo em direcção ao horizonte, ao pôr-do-sol, com uma música de fundo de derreter corações. O facto de o partido ter as rédeas do governo ajuda muito a que se aproprie facilmente desse papel.

 

A suspensão da campanha de McCain parece-me um golpe de mestre: evita um debate problemático, com antecedentes perigosos - foi a juventude e o dinamismo de Kennedy que lhe deram a vitória, numa situação semelhante - e fará parecer Barak Obama, ao recusar-se a suspender a sua, um ambicioso que põe a sua eleição à frente da união por uma causa superior, em torno de uma urgência nacional. Nada foi deixado ao acaso, e a quem quiser aprender alguma coisa sobre marketing político basta estar com atenção a este curso intensivo.

 

Gosto de Barak Obama, e gosto dele de uma forma espontânea que tem pouco que ver com políticas concretas. É fácil gostar-se dele, sobretudo por contraste com uma figura que sofre o estigma da sombra negra de Bush. Não sou ingénua ao ponto de acreditar que Obama seja um herói romântico, impoluto e incorruptível, mas deixei-me arrebatar pelo sonho, pelo símbolo, pela mudança de mentalidades que a sua eleição significaria. Gosto da ideia de imaginar a alegria de Luther King com essa vitória, e gostaria de presenciar a de Nelson Mandela.

 

Cheguei a acreditar que isso seria uma realidade, até porque Obama reuniu uma corte invejável de apoiantes ilustres. E porque se tem saído muito bem nos discursos, e porque tem feito uma campanha "limpa". Mas fui ingénua. Esqueci-me da argúcia política dos corredores de fundo e do seu tremendo poder. E não estava à espera do recuo de Obama na ousadia, ao escolher como segunda figura uma personalidade mais consensual, preferindo sacrificar Hillary Clinton. Um "preto" e uma mulher de uma vez só, pela primeira vez na Casa Branca, pareceram-lhe uma arriscada dose de leão para os americanos, e terá tido provavelmente razão. Mas a cartada Palin e uma providencial crise económica foram o xeque-mate dos conservadores.

 

Talvez o mundo ocidental fique mais seguro com McCain, cuja figura não afronta grupos minoritários nem nos obriga a todos a olhar nos olhos os nossos atavismos e preconceitos. Talvez seja mais prudente assim, numa época em que tudo tem de ser tratado com pinças. Mas a mim, que sou um bocadinho lírica, custa-me sempre abrir mão do Sonho. E este parecia mesmo à mão.

 

No, Barak, you can't. Sorry. Na América haverá mais do mesmo, nada mudará para que tudo se mantenha.

 

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publicado por Ana Vidal às 11:14
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22 comentários:
De Huckleberry Friend a 25 de Setembro de 2008 às 17:10
Tanto pessimismo é exagero, Ana. Concordo com muito do que escreves. Biden em vez de Hillary foi uma burrada, a arrepiante Palin uma cartada magistral; a maior disposição do GOP para campanhas sujas é uma arma tremenda; McCain tem a seu favor ter sido um crítico de Bush sem deixar de ser seu correligionário; BaraCk Obama é preto e isso ainda pesa.

No que à economia diz respeito, porém, o que tenho lido - e que é bastante, porque aproveitei uma manhã numa sala de espera para pôr em dia duas ou três semanas de Time e Newsweek - leva-me a pensar que a crise económica prejudica mais os republicanos do que os democratas. Porque estes são mais atreitos a medidas de sensibilidade social (e há nos EUA mais Main Street do que Wall Street) e porque aqueles são responsabilizados pelo actual descalabro.

Se tivesse de apostar dinheiro hoje, ia para McCain. Mas pouquinho, porque a corrida está - tenho isto por certo - muito aberta e o resultado há-de ser encontrado voto a voto. Acredito que seja possível Obama ganhar.

Peço-te, pois, que guardes os dois últimos parágrafos para o dia 5 de Novembro, caso sejam necessários. Ou para o caixote do lixo, onde desejo sinceramente que tenham lugar...

Bjs
P.
De Ana Vidal a 25 de Setembro de 2008 às 18:28
Espero que tenhas razão, Huck. O pessimismo não é o meu género, mas neste caso acho que tudo se conjuga para ganharem os republicanos. Once again, what's new?

Bjs
De fugidia a 25 de Setembro de 2008 às 18:14
Se calhar sou (continuo) ingénua, mas acredito no contrário: que Obama vai vencer.
De Ana Vidal a 25 de Setembro de 2008 às 18:28
Talvez eu me engane, Fugi...
De Paulo Cunha Porto a 25 de Setembro de 2008 às 20:04
Querida Ana,
asc eeições presidenciais americanas não podem ser vistas como de partidos, que lá, ideologicamente, contam pouco, embora sejam importantíssimos, financeiramente. As pessoaqs é que contam. Bush não ganhou por cartadas por aí além, ganhou porque qualquer um era melhor do que Kerry e, na primeira eleição, por Gore ser um estranhíssimo caso de capacidade intelectual conjugada com impotência afectiva. A própria mãe (Céus!) disse que era difícil gostar dele.
Não penses que Bush está por detrás de McCain. As aparências são para salvaguardar, claro. mas já mandou a Primeira Dama Laura produzir umas frases assassinas.
Porém, concordo com o HF, quando diz que a crise económica favorece Obama. É que, quando o mercado não funciona bem, claro que os turiferários dele são penalizados. E esses estão, maioritariamente no GOP. Mas tudo será decidido nos debates.
Beijinho
De Ana Vidal a 26 de Setembro de 2008 às 00:51
Veremos, Paulo. E não me digas que qualquer um era melhor do que Kerry, porque Bush é sempre pior do que qualquer um. (se a mãe gostava dele era uma santa, mas até a do Hitler deve ter gostado do filho).
De sem-se-ver a 26 de Setembro de 2008 às 17:48
associei o final do seu comentário a:

«Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você»

adriana calcanhoto, que na primeira estrofe desta canção diz que 'saiba: todo mundo foi neném ... hitler também'

pronto, era só.

De Ana Vidal a 26 de Setembro de 2008 às 18:04
lol... é isso mesmo, ssv!
Bom fim-de-semana
De mike a 25 de Setembro de 2008 às 20:48
Partilho do mesmo pessimismo da Ana, sem estar certo se Obama seria o melhor para a América. Acho que ainda não é desta vez que a História mudará de rumo porque a América não é um país de sonhos. The American Dream tem dois nomes. Dinheiro e sucesso. E os que ousaram sonhar morreram enquanto sonhavam.
De Ana Vidal a 26 de Setembro de 2008 às 00:53
Mas sonharam, Mike. E aí reside toda a diferença.
Dinheiro e sucesso não são sonhos, são objectivos.
De mike a 26 de Setembro de 2008 às 01:43
Não acho que o sonho comande a vida, que tem sido uma sina nossa, que não nos tem levado a lado nenhum. Sou mais pelo eu sonho, logo ajo...
De Ana Vidal a 26 de Setembro de 2008 às 01:55
Mas, Mike, acabou de dar a perfeita definição da frase "O sonho comanda a vida"! O sonho é o impulso criador que leva à acção, e nesse sentido comanda a vida. Todos os que avançam já sonharam, antes... ou não teriam saído do mesmo lugar!
De mike a 26 de Setembro de 2008 às 02:00
Ah Ana, a menina enrola-me com as palavras. Está cá uma desconversadora... (muitos risos)
De Ana Vidal a 26 de Setembro de 2008 às 02:44
Tudo se aprende, desconversador-mor... ;)
De Luísa a 26 de Setembro de 2008 às 02:23
É interessante a sua perspectiva, Ana, porque eu pensava exactamente o contrário: que a crise ia cair, fatalmente, sobre quem estivesse no poder. Para estes países muito pragmáticos, de tradição anglo-saxónica, «quem cá as faz, cá as paga» - a pronto pagamento! - e ponto final. Mas havendo a tal estratégia concertada de combate à crise, que hoje reuniu toda a gente, republicanos e democratas, à mesa, as coisas podem, de facto, tomar o rumo que prevê. Para mim, confesso que tanto faz. Ambas as soluções são simultaneamente interessantes (no sentido de suscitar curiosidade) e inquietantes. O que não pensava era que a Ana fosse tão «obamista»! :-)
De Ana Vidal a 26 de Setembro de 2008 às 02:42
Querida Luísa, não tenho nada contra McCain nem sou Obamista convicta por razões de ideologia política. A eleição de Obama, para mim, significaria uma hipótese de evolução das mentalidades, um passo à frente na anulação de alguns preconceitos antigos e injustificáveis. Só por isso gostava que ele ganhasse, embora não negue que tenho simpatia pela sua coragem e (aparente) carácter. :)
De Paulo Cunha Porto a 26 de Setembro de 2008 às 08:59
Não é bem assim, minha Amiga, vê-se bem que não conheces o Kerry. E, tudo somado, já veio pior daquele País. Um dia destes faço um postal sobre os ineptos que por lá passaram.
Beijinho
De Ana Vidal a 26 de Setembro de 2008 às 12:00
Do Kerry sei pouco mais do que o facto de ter uma mulher portuguesa (ou que fala português, pelo menos) e milionária. Mas não pode - ninguém pode! - ser pior do que o Bush, Paulo...
De SC a 27 de Setembro de 2008 às 17:24
Eu acho que os Europeus deviam poder votar nas eleições norte-americanas. ;) Assim, como assim, esta eleição afecta-nos a todos. E eu votaria Obama.

Beijinho!
De Ana Vidal a 28 de Setembro de 2008 às 03:11
Também acho, Cristina. É mais importante para todos nós o que se decide lá do que aqui...

beijinho
De SC a 28 de Setembro de 2008 às 14:25
(é Catarina! ;) )
De Ana Vidal a 28 de Setembro de 2008 às 14:32
Bolas, Catarina... porque será que me engano sempre no seu nome (de que até gosto muito, por sinal)?

Sorry, uma vez mais.
Beijinho e bom domingo

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