Sábado, 20 de Setembro de 2008

Sortes

 

Tive a sorte de apanhar hoje, por acaso, um programa do canal Mezzo dedicado a Maxim Vengerov, considerado o maior violinista da actualidade e um dos maiores de todos os tempos. Foram quase três horas da melhor música, tocada com um virtuosismo raro por um homem simples, humilde e de uma simpatia contagiante. Um músico de tal maneira extraordinário que corre o mundo a ensinar a sua arte a jovens violinistas que demonstrem  talento e muita vontade de aprender. Por esta generosidade rara num músico do seu nível, foi nomeado embaixador da Unicef para a música.

 

Mas tive outra sorte ainda maior, há cerca de quatro anos (sou uma mulher de sorte, reconheço-o sem qualquer hesitação): a de tê-lo visto e ouvido ao vivo - numa sala do Palácio de Queluz - num inesquecível e restrito recital que precedeu as audições que vinha fazer a jovens portugueses. Por muitos anos que viva ainda, sei que não se apagará da minha memória a lembrança desse fim de tarde mágico.

 

Maxim Vengerov, pelo seu lado, teve a sorte de nascer na Rússia, um país que - com todos os terríveis defeitos que possamos apontar-lhe - sempre soube reconhecer e dar oportunidades aos seus talentos. Das mãos grandes, rudes e aparentemente desajeitadas deste camponês da Sibéria (até hoje não perdeu esse arcaboiço rural, que contrasta estranhamente com a delicadeza da sua sensibilidade) saem sons sublimes que julgamos impossível serem extraídos de um instrumento musical. Mas o instrumento que ele toca não é um violino qualquer. Vengerov teve também outra sorte: por ser de tal maneira especial foi-lhe oferecido, por uma mecenas japonesa multimilionária, um dos raríssimos Stradivarius que a senhora acabara de adquirir num leilão em Nova Iorque. O gesto foi de uma generosidade  imensa (os valores a que ascendem estes violinos são astronómicos), e o argumento que ela apresentou revela uma sensibilidade rara: preferiu saber a sua preciosidade entregue em mãos que a merecessem e a fizessem reviver, do que tê-la exposta, inerte, numa vitrine ou num cofre de banco. Chama-se Ex-Kreutzer (os Stradivarius são tão poucos que todos têm nome) o pequeno violino barroco cor de mel, que parece às vezes não aguentar as emotivas interpretações do seu dono.

 

Escolhi estes sete videos, encontrados no You Tube, resistindo à tentação de colocar aqui outros tantos. Os primeiros revelam o virtuosismo de uma criança e de um jovem músico, os seguintes o esplendor da sua maturidade musical. E o último mostra a faceta humana de um artista verdadeiramente excepcional. Espero que gostem, pelo menos tanto como eu.

 

(Sonata - Bach)

 

(Caprice - Paganini)

 

(Concerto - Dvorak)

 

(Caprice - Saint-Saens)

 

(Violin Concertos - Mozart)

 

(Vocalise - Rachmaninov)

 

(Masterclass)

 

(Nota: Com excepção de dois deles, os videos são de curta duração)

 

 

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publicado por Ana Vidal às 19:20
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10 comentários:
De Cristina Ribeiro a 20 de Setembro de 2008 às 21:50
"Fly me to the moon".
Beijinho grato, Ana.
De Ana Vidal a 20 de Setembro de 2008 às 22:51
Let's fly, Cristina.
beijinho :)
De Luísa a 20 de Setembro de 2008 às 22:29
Ana, é interessante acompanhar, com a sua escolha, a evolução. E é também muito interessante ver, no último vídeo (e por comparação com o aluno), como a expressão e a vivacidade «corporais» do intérprete são – acrescendo ao virtuosismo - tão estimulantes para o ouvinte-espectador. Ando pouco pelo Mezzo (ando pouco pela televisão), mas devia andar mais, porque há coisas que valem a pena. :-)
De Ana Vidal a 20 de Setembro de 2008 às 22:50
Eu também já vejo pouca televisão, Luísa. Escolho o Mezzo como fundo musical, às vezes, enquanto escrevo ou faço outra coisa qualquer. Mas hoje fiquei presa ao écran, hipnotizada. :)
De Paulo Cunha Porto a 21 de Setembro de 2008 às 12:35
Querida Ana, pena que o Paganini se não ouça melhor. O teu relato fez-me lembrar Segóvia, cujos dedos também foram dados como incapazes para guitarradas, o que deve ter feito uns quantos juízes engolir as palavras, em vez da língua, como pertencia.
No vídeo de Rachmaninov (sonoridade e interpretação apelativíssimas) aparece uma senhora de feições orientais na primeira fila. Sabes se é a Benfeitora?
Beijinho
De Ana Vidal a 21 de Setembro de 2008 às 18:53
Se procurares no YouTube encontras outros videos de actuações dele, é possível que uma ou outra destas escolhas não tenha sido a mais feliz.

A história do Stradivarius foi-me contada no dia do concerto em Queluz, e foi esse o violino que ele tocou nesse dia. Nem sempre o usa, presumo que para poupá-lo (imaginas o seguro que aquele brinquedo deve ter???) Mas nunca vi a senhora, por isso não sei se será a que está na plateia.
Bjs
De manecas a 21 de Setembro de 2008 às 22:22
Obrigado por mais este postal ilustrado...!!!

Mas julgava que te ia encontrar no dia 19 ao vivo no CCB...onde tocava a Maria João Pires, acompanhada de um Soprano extraordinário e um violoncelista também de grande nomeada...

Soberbo concerto, momentos de elevação...

Beijinhos !

De Ana Vidal a 21 de Setembro de 2008 às 22:29
Não me faças inveja, Manecas! Com grande pena minha, quando dei por isso já não havia bilhetes. Para a próxima peço-te uma cunha...
Mas ainda bem que foi bom e que gostaste.
Beijinhos
De Manecas a 22 de Setembro de 2008 às 14:18
Fazes então o favor de anotar na tua cabecinha (suponho que ainda não terás a agenda de 2009...) o dia 30 de Janeiro de 2009.

Terás também no CCB a Maria João Pires, e ainda por cima na companhia do teu grande amigo Frederico...o Chopin...

Depois não digas que eu não te avisei...!!!
Para já ficas com um beijinho.
De Ana Vidal a 22 de Setembro de 2008 às 17:50
A minha cabecinha não é de fiar, meu querido amigo... mas felizmente existe a agenda do telemóvel! Fica já registado.

E o Fred também vai? Que bom, não o vejo há séculos!!!!!

Beijinhos :)

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