Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

Um almoço especial

 

São várias e facilmente perceptíveis as vantagens de ser-se convidada para um almoço em que se é a única mulher entre sete garbosos cavalheiros. Se isso acontecer consigo, amiga leitora, não se amedronte e não ceda nunca à tentação de declinar tão simpático (embora insólito) convite.

 

Para começar, certifique-se de que eles são, de facto, cavalheiros. Nada mais desagradável do que surpresas nesse capítulo, e partilhar uma mesa com trogloditas deve ser uma experiência traumática que não se aconselha a ninguém.  Deixar que isso lhe aconteça só pode ser fruto de muita imaturidade ou de uma estratégia suicida. Não caia nessa. Garantida essa precaução básica, pode avançar para o covil deles com absoluta confiança. Convém, no entanto, que conheça pelo menos um dos convivas. As razões são meramente sociais: assim não terá de chegar sozinha (pode chegar ligeiramente atrasada, para maximizar o efeito) e terá quem faça as apresentações da praxe.

 

Depois, perca o medo ou as inseguranças que semearam nessa cabecinha aqueles anos de apocalíptica catequese, geralmente ministrada por freiras vagamente suspirantes por razões de que talvez nem suspeitassem. Eles não mordem. E, mesmo que mordam, das duas uma: ou as dentadas lhe sabem bem e não há por que se queixar, ou você pode devolvê-las, uma por uma. Também tem dentes, não tem?

 

Se você for minimamente agradável será, garantidamente, a rainha da mesa (quanto mais não seja, por manifesta falta de concorrência). Não precisa de fazer-se engraçada. Pelo contrário, deixe-os brilhar e não constitua um impedimento ao à vontade que eles teriam se você não estivesse ali. Você é que é a intrusa, lembre-se disso. Faça por integrar-se no grupo, o que não significa necessariamente que se dilua nele e desapareça.

 

Discretamente, olhe à sua volta: todas as mulheres presentes nas outras mesas do restaurante a invejarão. Verá essa inveja de forma explícita ou menos óbvia, conforme os olhares forem, respectivamente, de admiração ou de reprovação. Não se incomode, é inveja de qualquer forma. Aproveite esse momento de glória porque talvez nunca mais venha a ter outro, nem por quinze minutos, na sua vida.

 

Aprecie a ocasião rara de estudar o género masculino no seu habitat natural, e num grupo suficientemente representativo para avaliar todo o universo da espécie. É sempre útil. Porque eles são uma outra espécie, sim. Um outro povo, muito diferente do seu. Não se iluda com as modernices da pseudo-psicologia televisiva. Mais: agradeça ao deus em que acredita (ou ao Darwin, ao Big Bang ou a quem lhe parecer melhor) que assim seja. Um mundo em que os seres inteligentes fossem todos iguais seria de uma monotonia insuportável. Brinde em segredo a essa diferença e sorria intimamente. Depois, deixe que eles a mimem e mime-os também.

 

Se tiver em atenção os pontos chave desta receita, garanto-lhe que o momento será um sucesso. Pelo menos para si.

 


 

Nota: Hoje tive um almoço assim, no Bairro Alto, com seis encantadores corta-fiteiros. Gostei muito de conhecê-los. Com mais um amigo que apareceu para o café, eram verdadeiramente os sete magníficos... e eu. Espero que eles me perdoem a brincadeira acima (sei que o farão, todos eles têm um notável sentido de humor) e que este momento se repita mais vezes, a bem do meu ego...

 

Ficou a faltar-me conhecer as meninas corta-fiteiras, e espero que essa lacuna seja ultrapassada brevemente. Gostava muito de conhecê-las também.

 

A todos - Pedro Correia, João Távora, Francisco Almeida Leite, Luís Naves, Paulo Cunha Porto e João Villalobos - agradeço o mais que simpático almoço em que me senti uma rainha entre verdadeiros reis. Da blogosfera e não só.

 

publicado por Ana Vidal às 17:37
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31 comentários:
De fugidia a 18 de Setembro de 2008 às 20:42
Querida Ana,
confesso que mais do que a inveja de a ver tão bem rodeada, tenho é inveja da forma sublime como escreveu este post.
Parabéns, gostei muito de o ler

Beijinhos.
De Ana Vidal a 19 de Setembro de 2008 às 01:17
Beijinho, Fugi. Foi muito divertido.
De mike a 18 de Setembro de 2008 às 21:42
Estratégia suicida foi a dos cavalheiros, Ana. (risos) Como também considero suicídio conhecer sozinha as meninas corta-fiteiras. Não acha que devia levar como companhia um cavalheiro? Seria curioso avaliar o seu comportamento num habital que não é natural. (mais risos)
O mais importante no meio disto tudo: magnífico post. :-)
De Ana Vidal a 19 de Setembro de 2008 às 01:16
Ora, ora... não tinha ido comprar cigarros, menino Mike? :)


De Teresa Ribeiro a 18 de Setembro de 2008 às 22:04
Gostei muito do post, Ana. Revela muita sabedoria. Aproveito a ocasião para a informar de que já fiz constar que a quero conhecer também. Até porque sou contra os monopólios :)
De Ana Vidal a 19 de Setembro de 2008 às 01:12
Também eu sou, Teresa. Agora quero conhecer as magníficas corta-fiteiras!
De Pedro Correia a 18 de Setembro de 2008 às 23:07
Um convívio certamente para repetir, Ana. O prazer foi todo nosso.
De Ana Vidal a 19 de Setembro de 2008 às 01:11
Obrigada mais uma vez, Pedro.
Gostei imenso.
De Cristina Ribeiro a 18 de Setembro de 2008 às 23:19
Brindarei- mesmo longe- à diferença, Ana, e já estou a sorrir ao i9maginar tão promissora reunião.
De Ana Vidal a 19 de Setembro de 2008 às 01:10
Faz bem, Cristina. Vive la difference!
De JuliaML a 18 de Setembro de 2008 às 23:30

também gostei!

Não é por acaso que escreves bem, sabes viver e estar na vida. um beijinho por isso!
De Ana Vidal a 19 de Setembro de 2008 às 01:10
Outro para ti, Júlia.
De Luísa a 18 de Setembro de 2008 às 23:41
Consigo imaginar o quanto não deve ter sido agradável e divertido, Ana. Mas gabo-lhe, ainda assim, a coragem de enfrentar sete - sete! -Magníficos!!! ;-)
De Ana Vidal a 19 de Setembro de 2008 às 01:09
Foi, Luísa. Eles não mordem... e têm graça.
De Mad a 18 de Setembro de 2008 às 23:49
Se bem te conheço, deste cabo deles. Sortuda!
De Ana Vidal a 19 de Setembro de 2008 às 01:08
Nada disso. Não dei cabo de ninguém nem eles de mim. Tudo pacífico e muito simpático.
De baterdeasas a 19 de Setembro de 2008 às 01:34
Para mim O magnífico, chegava mas não sobrava nada. ehehe
De João Villalobos a 19 de Setembro de 2008 às 10:08
Eu estou a gostar muito dos poemas do livro que roubei ao Dr. Ricardo, mas acho que é melhor combinarmos a devolução um dia destes :)
De Ana Vidal a 19 de Setembro de 2008 às 12:50
Essa foi à má-fila, João... mas tenho um para si, não quero que vá parar ao inferno por minha causa!
Combinamos a troca um dia destes, claro. :)

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