Sábado, 6 de Setembro de 2008

Um ano de silêncio

Faz hoje um ano que morreu Luciano Pavarotti. Como homenagem, aqui republico hoje o que escrevi sobre ele a 5 de Setembro de 2007, na véspera da sua morte, quando a confirmação desta era já só uma questão de horas.
 
"O crepúsculo de um deus
 
Lembro-de bem da profunda impressão que me causou quando o vi (e sobretudo ouvi) cantar ao vivo, a menos de dez metros de mim, ainda em pleno esplendor da sua poderosíssima voz. Gostei sempre mais da doçura e maleabilidade da voz de Plácido Domingo, por contraponto à imensa força da natureza que era a de Pavarotti. Muito abaixo dos dois, na minha opinião, ficou sempre José Carreras (não fosse a tocante e exemplar história de vida, uma lição de preserverança e de estoicismo, e não lhe reconheceria o direito a um lugar entre "os três tenores"). Mas tenho de admitir que Pavarotti, não sendo o meu preferido, era absolutamente arrasador em palco. Abria a boca e saía - aparentemente sem o menor esforço - um vozeirão magnífico, seguro e cheio, que enchia cada recanto da sala e fazia arrepiar de espanto quem o ouvia.
 
Teve ainda um outro enorme mérito: o de ter sido o primeiro a abrir as portas do canto lírico, habitualmente reservado a um público reduzido e exigente, às chamadas "massas". Por causa das suas parcerias com variadíssimos músicos de outros géneros musicais - pop e rock, sobretudo - o universo operático deixou de ser, para muita gente, um "papão" inacessível. Ficam para a História os concertos "Pavarotti and Friends", a favor de causas humanitárias para as quais arrecadou muito dinheiro e chamou as atenções do mundo.
Por tudo isto assisto com tristeza, nestes dias, ao crepúsculo de um deus."
 
 

(Nessum dorma / Turandot - Os 3 Tenores)

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publicado por Ana Vidal às 12:20
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9 comentários:
De Teresa a 6 de Setembro de 2008 às 16:16
Lembrámo-nos.

Acabo de publicar o meu post e descubro que também escreveste sobre ele, o nosso Luciano.

Quase coincidimos nas opiniões sobre os Três Tenores. Placido passará à história, provavelmente, como o mais gigantesco de todos os cantores do século XX. O repertório é impressionante. Até Wagner! Carreras, antes da doença, tinha uma voz abençoada, mas mais pequena.

Pavarotti... era a tal força da Natureza. Voz deslumbrante e tonitruante, isto para não mencionar o silabar sem igual - conta-se que passou o primeiro ano de estudo de canto a entoar vogais, apenas vogais. O resultadfo foi o canto cristalino, cada sílaba perfeitamente perceptível.

A falta que nos faz!
De Ana Vidal a 6 de Setembro de 2008 às 17:46
Pois é, lembrámo-nos. Não li o teu post, já lá vou.

Beijo
De RAA a 7 de Setembro de 2008 às 02:19
Magnífico, vizinha! Bem lembrado
De Samuel a 7 de Setembro de 2008 às 14:42
Bela lembrança! Gostava tanto de o ouvir como do ar feliz que o iluminava sempre que "conseguia" acabar mais um dos seus heróicos exercícios vocais...
De Luísa a 7 de Setembro de 2008 às 16:41
Este nosso tempo, Ana, tem sobre os outros a vantagem de poder deixar muito testemunho (designadamente em som e imagem) dos seus valores e referências e de os manter vivos e próximos na memória de todos nós.
De fgidia a 7 de Setembro de 2008 às 22:42
Sim, é um tempo em que é mais fácil deixar intacta a memória...

Beijinho Ana (vejo que tem andado mais... leve, bem-disposta... é da viagem à Índia que se aproxima ou...
De Ana Vidal a 9 de Setembro de 2008 às 21:50
"Mais leve" não é exactamente o termo, querida Fugi... as minhas férias foram muito dadas à gastronomia!

Mais bem disposta? Mas eu não costumo estar bem-disposta? Ora essa! E a Índia ainda está tão longe... ;)
De Cristina Ribeiro a 7 de Setembro de 2008 às 22:56
É, a voz ficará para sempre. Os vindouros hão-de conhecer a magia que trouxe à ópera.
De Manecas a 11 de Setembro de 2008 às 15:33
Não sei se ainda vou a tempo.

Queria somente lembrar Luís de Camões, e a frase plenamente verdadeira relativamente ao Pavaroti , ...que se vai da lei da morte libertando...

A emoção e a saudade que o seu tributo à musica e, assim sendo à vida, mantêm passado um ano...resiste realmente à lei da morte!

Obrigado pela tua lembrança, e um beijinho

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