Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

B-A BA russo

 

 

A Rosa, já o disse por aí, está há tantos anos connosco que faz parte da família. Veio um dia para casa das "tias" - já lá vão mais de setenta anos - para brincar com o meu pai, e nunca mais se foi embora. Pelo caminho, criou-nos a todos (a mim e aos meus irmãos) e depois aos nossos filhos. Com um bocadinho de sorte, e todos nós gostaríamos que isso acontecesse, ainda há-de conhecer os nossos netos. A Rosa é do tempo em que havia "criadas" e não "empregadas", palavra que significa, literalmente, alguém que era criado numa casa, juntamente com as crianças dessa casa. Não era um emprego, era uma vida.

 

Quando as minhas tias a levaram para casa, a Rosa era uma de sete irmãos muito brancos, muito loiros e muito, muito pobres. Tinham ascendência alemã, o que, numa terra ribatejana de peles tisnadas, bigodes e patilhas tão negros como os toiros da lezíria, era uma absoluta extravagância. Por isso eram conhecidos como "os russos", um bando de aves raras entregue a si próprio, porque os pais se matavam a trabalhar para criá-los com o mínimo dos mínimos e não sobrava nem um segundo para olhar por eles.  É claro que a Rosa, tal como os irmãos, fugia da escola porque tinha coisas muito mais interessantes para fazer, como apanhar fruta das árvores ou correr atrás dos gatos da vizinhança. Eu teria feito o mesmo, se pudesse.

 

Nunca quis aprender a ler, nunca se interessou pelo assunto. Três gerações consecutivas o tentaram aplicadamente, mas o máximo que conseguimos foi que ela aprendesse a escrever o próprio nome e a juntar algumas letras de imprensa, garrafais, em palavras simples. Só há pouco tempo, e por via da culinária, se convenceu a treinar um pouco mais a leitura. Muito a custo, e só porque é uma cozinheira de mão cheia e gosta de experimentar receitas novas, nem sempre tendo à mão quem lhas leia nos livros de cozinha. É engraçado ouvi-la ler as receitas, soletrando cada sílaba até fazer sentido no conjunto, numa operação que pode demorar vários minutos por palavra. Apanha, às vezes, um daqueles panfletos publicitários que aparecem na caixa do correio e põe-se a ler alto, sí-la-ba a sí-la-ba, até ficar cansada ou um de nós desatar a rir.

 

Além de cozinhar e passar a ferro como ninguém, a Rosa faz rendas. Das suas mãos já saíram quilómetros de verdadeiras filigranas de linha Âncora número 60 (finíssima!), com os desenhos mais imaginativos e intrincados. Um destes dias perguntei-lhe que renda estava a fazer agora. Foi buscar o saco, para me mostrar. No meio das linhas e agulhas vi um livro, e fiquei curiosa: nunca tinha visto tal coisa nas mãos dela. Escondeu-o no bolso do avental e disse-me, corada, que andava a treinar a leitura às escondidas e que aquele livro era fininho, por isso não a assustava. Tinha-o apanhado lá por casa, ninguém estava a lê-lo e ela não queria que se soubesse. E já tinha lido uma parte: em três pinceladas cómicas contou-me uma história, mais ou menos confusa, até ao ponto a que chegara. Não tinha passado ainda das primeiras páginas mas estava entusiasmada.

 

Fiquei impressionada. Fiz-lhe ver a importância daquilo, enquanto ela se ria da minha solenidade: “Rosa, é o teu primeiro livro, isto tem de ser comemorado!” E obriguei-a a mostrar-me o livrinho, o que demorou algum tempo. Quando finalmente o tive nas mãos, abri a boca de espanto: a Rosa, sem ninguém saber (nem ela própria…), fez jus à alcunha de infância e estreou-se... com um conto de Tchékov!

 

(Nota: Também no Pastéis de Nada)

 

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publicado por Ana Vidal às 23:56
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10 comentários:
De Teresa a 6 de Setembro de 2008 às 00:26
Esta é a minha Ana! :)

Não te reconhecia nos posts mais recentes. Muito bons, sim, mas não te encontrava. Tu és mulher palavrosa (como eu, mea culpa,mas com a diferença substancial de teres uma escrita que deleita; a Madalena também, runs in the family, pelo visto).

Digo apenas que li o Pastéis de Nada de fio a pavio. Esclarecida? :)
De Ana Vidal a 6 de Setembro de 2008 às 00:42
Teresinha, eu sou de luas... ora cheia, ora meia...
e às vezes, só às vezes... nova.

De cada vez que me falam no Pastéis fico com remorsos...

Beijo! :)
De Luísa a 6 de Setembro de 2008 às 01:26
É comovente, Ana. Creio que muitos de nós têm, nas suas vidas, uma Rosa, que é um extraordinário exemplo de dedicação, de trabalho e de esforço de aperfeiçoamento.
De Ana Vidal a 6 de Setembro de 2008 às 02:05
E de fidelidade, Luísa. Ai de quem fizer alguma crítica a um de nós, mesmo que tenha toda a razão...
De João Paulo Cardoso a 6 de Setembro de 2008 às 11:48
A tua Rosa faz jus ao ditame "nunca é tarde para aprender" e como vês é já uma "Gaivota" que aprendeu a voar.

Beijos.

P.S.: Diz-se por aí que o "Eldorado" está cada vez mais giro.
http://oeldorado.blogspot.com
De Ana Vidal a 8 de Setembro de 2008 às 00:43
Diz-se por aí que estás um verdadeiro ás do marketing, JP!

Beijo
De sem-se-ver a 6 de Setembro de 2008 às 20:31
fiquei comovida.

entregue, por mim, um beijo à Rosa, sim?
De Ana Vidal a 8 de Setembro de 2008 às 00:40
Claro que sim, SSV. E ela vai gostar, tenho a certeza, embora tenha de lhe explicar o percurso virtual desse beijo... :)
De Manecas a 12 de Setembro de 2008 às 16:14
Bem, hoje lembrei-me de descer por aqui abaixo, e não é que encontrei esta prosa magnifica!!!

Sabes que gosto muito do "tema" e também que conheço Rosas destas sem espinhos com uma bondade extrema, e com histórias infindáveis para contar nas noites tórridas do Alentejo...

Nunca mais me esqueço desta vossa Rosa, quando nos lembrámos de ir passar o ano à Azambuja (ideias da Paula)... e a vi ainda toda aprumada e vestida a preceito !

Nós, que nessa noite íamos dando conta duns quantos porcos a lançar foguetes com a indescritível ciência de quem nunca sequer num daqueles artefactos tinha alguma vez tocado...

Muitos Beijinhos para ti!!!
De Ana Vidal a 12 de Setembro de 2008 às 17:21
Lembro-me bem dessas nossas aventuras homéricas, Manecas!

Quanto à Rosa, hoje em dia temos que ralhar com ela porque ainda quer fardar-se "a preceito", imagina... se a deixássemos, ainda andava de bata preta de cetim, crista e avental branco bordado... lol

Beijinhos, amigo.

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