Domingo, 24 de Agosto de 2008

Da Atlântida (III)

Depois da beleza agreste e selvagem do Pico, os olhos estão rendidos. Tudo nos parece harmonioso e o mundo que antes nos era natural foi remetido à condição de um passado longínquo, vago. As ilhas de bruma já nos invadiram com a sua calma, o seu ritmo de vida que pulsa em uníssono com as marés atlânticas, a sua lógica sobrehumana, absolutamente desarmante.  Neste estado de espírito rumamos ao grupo oriental,  julgando que já nada nos poderá surpreender.

 

 

 

 

Pura ilusão: não pode haver nada, rigorosamente nada, que nos prepare para a visão das lagoas de S. Miguel. São cenários irreais, de uma beleza arrasadora como nunca encontrei igual. De repente, numa curva da estrada que serpenteia, subindo sempre - entre milhões de hortenses que vão do branco virginal ao violeta, numa paleta estonteante de azuis - surge a Lagoa das Sete Cidades vista de cima, num vale profundo que parece pertencer a outra dimensão. Os folhetos turísticos, as belas fotografias e as descrições entusiastas que tivemos antes, criaram em nós expectativas altíssimas. Temíamos, naturalmente, a desilusão que quase sempre lhes sucede. Mas neste caso a realidade supera todas as expectativas e deixa-nos sem respiração. As cores da lagoa e os raios de sol coados pelas nuvens que rodeiam a cratera, contibuem para dar a todo o conjunto uma aura mítica: é a própria Avalon que nos aparece aos pés e nos deixa extasiados. 

 

 

Rasgadas as brumas, muitos outros sortilégios nos esperam depois desta primeira visão: a Lagoa do Fogo, com águas de um verde-esmeralda inimitável; a minúscula Lagoa do Canário, verdadeiro bosque encantado cuja entrada nos é franqueada por uma porta de árvores e de musgo, e onde acharíamos naturalíssimo ver surgir duendes e elfos; as Lagoas do Congro, das Empanadas, de S. Tiago e das Furnas, rodeadas igualmente de escarpas altíssimas em que imperam as belíssimas criptomérias (espécie de abeto gigante trazido do Japão pelos navegadores portugueses, que invade as encostas de toda a ilha); a paisagem fantasmagórica das Furnas, onde o cheiro intenso a enxofre, as colunas de fumo branco vindas do chão e as águas em permanente ebulição nos lembram que estamos sobre o perigo eminente de uma manifestação mais exuberante da força incontrolável do centro da Terra; os jardins magníficos do Hotel Terra Nostra, ainda nas Furnas, com a sua piscina de água quente e sulfurosa, cor de ferrugem; a cascata igualmente quente da Caldeira Velha; e muitas, muitas mais maravilhas desta ilha tão prodigiosa que quase a julgamos uma twilight zone de beleza sufocante. 

 

 

 

Das vilas, semeadas ao longo da costa, rendi-me a Ribeira Grande e Vila Franca do Campo, dois dos mais antigos aglomerados urbanos. A última foi a primeira capital de S. Miguel e conserva ainda uma certa imponência que recorda esse estatuto. Em frente a Vila Franca do Campo fica o famoso ilhéu em forma de anel, com uma piscina natural de água transparente e morna, onde tomámos um banho memorável. A viagem faz-se numa pequena traineira que liga o ilhéu à vila, de meia em meia hora. É uma sensação estranha estarmos ali dentro, protegidos e confiantes, sabendo que do lado de fora embatem contra as rochas as ondas pouco amistosas do atlântico, cujo estrondo ouvimos claramente e cujos salpicos nos chegam a tocar. 

 

 

Outra das curiosidades de S. Miguel (suponho que exista também nas outras ilhas dos Açores) é o cuidado extremo que há com as estradas: vi inúmeros jardineiros que tratam, aparam e uniformizam os tufos de hortenses e buxos ao longo de quilómetros de estrada alcatroada, como se de um jardim camarário se tratasse. Não há papeis nem qualquer lixo visível, o que, a par com a existência de inúmeras vacas leiteiras nas encostas inclinadas e verdes, faz lembrar a Suiça.

 

Fica muitíssimo por visitar e por dizer sobre estas ilhas mágicas, mas fica também a certeza de que voltarei. Mais: de que voltarei sempre. Ainda sob o encantamento deste lugar, apetece-me quase dizer que voltarei "para sempre". Os Açores são uma paixão da qual não tenciono curar-me nunca mais. 

 

 

 

  

Nota: Aos futuros viajantes que me leiam, deixo aqui algumas dicas dos lugares de que mais gostei para comer e dormir. Aviso desde já que prefiro sempre pequenos hotéis de charme ou casas particulares às grandes unidades hoteleiras. Nos Açores vai havendo alguma oferta deste tipo, de qualidade, quase sempre propriedade de estrangeiros. 

 

1. No Pico

 

Para comer: Canto do Paço (Prainha); O Ancoradouro (Madalena).

Para dormir: L' Escalade de l' Atlantique (um precioso turismo de habitação com poucos quartos, decorado e gerido por um casal de belgas, na Piedade); Casa das Cagarras (casa particular que se aluga inteira ou por quartos, entre a Prainha e Sto. Amaro)


2. Em S. Miguel


Para comer: Colégio 27 (Ponta Delgada. Um sofisticado e excelente restaurante de cozinha internacional, propriedade de suecos)

Para dormir: Convento de S. Francisco (Vila Franca do Campo. A promessa de alguns dias inesquecíveis num convento muito bem recuperado, com uma vista  magnífica); Estalagem Senhora da Rosa (Fajã de Baixo, Ponta Delgada. Uma óptima relação preço/qualidade, cosy, central e de muito bom gosto) 

 

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publicado por Ana Vidal às 01:04
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14 comentários:
De Luísa a 24 de Agosto de 2008 às 16:06
Ana, quando estive nos Açores, o que pensei foi, não que «voltarei» ou que «voltarei sempre», mas, precisamente, que «voltarei para sempre». :-)
De Ana Vidal a 25 de Agosto de 2008 às 00:57
É isso mesmo, Luísa! Sei que ainda é cedo para isso, mas um dia mais tarde... não sei... ;)
De adelaide a 24 de Agosto de 2008 às 16:28
Linda viagem, Ana. Guardei suas dicas para nossa planejada volta a sua terra.
Beijo e feliz regresso!
De Ana Vidal a 25 de Agosto de 2008 às 00:56
Não deixe de dizer-me quando vier, Adelaide. Há outras dicas que posso dar-lhe e talvez dê para nos encontrarmos, se vier aqui ao continente também.
Beijo.
De adelaide a 25 de Agosto de 2008 às 01:15
Claro que aviso, Ana.
Beijo e obrigada.
De Cristina Ribeiro a 25 de Agosto de 2008 às 00:44
Ana, gostei de rever as lagoas, o "Anel de Princesa"...
Que bela viagem, a sua!...
De Ana Vidal a 25 de Agosto de 2008 às 00:54
Foi uma viagem fantástica, Cristina. Cheguei hoje mas ainda não habituei os olhos a outra paisagem... :)
De Ana Vidal a 26 de Agosto de 2008 às 17:56
Só tinha visto o ilhéu naquele anúncio fantástico do Turismo português (não passou na televisão cá, que eu saiba) e tinha-me ficado atravessado... estar lá e mergulhar naquela maravilha foi especial.
Foi uma viagem fantástica, sim, Cristina. Mas eu tiro partido de tudo!
De João Paulo Cardoso a 25 de Agosto de 2008 às 19:24
S. Miguel descrito com requinte!

Conheço todos os recantos mencionados e, embora o texto seja excelente e as fotos não lhe fiquem atrás, estar lá ultrapassa tudo o que ficou aqui registado.

Tenho um carinho especial pela Lagoa do Fogo.
Espero que tenhas descido até lá abaixo e dado umas braçadas naquela divina banheira gigante.

Beijos.
Viva os Açores!!
De Ana Vidal a 26 de Agosto de 2008 às 17:52
Por acaso a Lagoa do Fogo foi dos poucos sítios onde não tomei banho. Mas vista de cima é fabulosa. E tens razão, nada se compara a olhar aquilo tudo com os nossos olhos.
De Teresa a 26 de Agosto de 2008 às 08:39
Há muito que ando com vontade de lá ir. É quase criminoso não conhecer os Açores!
Que viagem fantástica, Ana!
De Ana Vidal a 26 de Agosto de 2008 às 17:50
Eu também não conhecia, e digo-te que é imperdível. Garanto-te que é difícil encontrar mais bonito, mesmo para quem já correu mundo. Os Açores são ilhas mágicas.
De ritz_on_the_rocks a 27 de Agosto de 2008 às 13:59
... não, não, não ... e eu que fiquei no cais
bj
R
De Ana Vidal a 27 de Agosto de 2008 às 17:19
LOL
Para a próxima não falhas, Ritz!
Beijo

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