Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008

Da Atlântida (II)

"Onde vos retiver a beleza dum lugar,

há um Deus que vos indica o caminho do espírito."

 

(Natália Correia) 

 

 

A magia continua, e parece que estas ilhas reservaram para nós as suas melhores surpresas. Chegámos ao Pico no dia do eclipse e recebeu-nos uma lua cheia de encantar qualquer mortal, a que a sombra do sol acrescentou uma bem visível dentada. Também o mar se encapelou - em nossa honra? - naquilo a que chamam por aqui as "lavadias", marés vivas que trazem nova vida e lavam as ilhas de todas as impurezas. A "piscina" natural onde tomamos banho (uma plataforma de cimento numa pequena baía da costa recortada, onde uma escada escavada na rocha e uma corda nos ajudam a sair do mar, depois de mergulhar), esteve bastante agitada nos primeiros dois dias.

 

 

  

Foi no meio destes prodígios que atravessámos o Canal que Nemésio imortalizou (mesmo em calmaria, merecedor de respeito) em direcção ao Faial. Foi uma travessia épica, entre vagas de altura considerável e de uma beleza rara, que se quebravam à saída da barra contra os ilhéus da Madalena, num espectáculo inesquecível. Impunha-se, mais do que nunca, um bom gin tonic no Peter, que, verdade seja dita, acabou por transformar-se em dois ou três. Lá deixámos, como manda a tradição, mensagens escritas para viajantes amigos que nos sucederão nestas paragens e por lá hão-de passar a reclamá-las. Na marina da Horta tivemos ainda um presente inesperado: a chegada de um magnífico espadarte de quase 400 Kg, imponente nos seus quase três metros, içado a custo e fotografado à exaustão por todos os presentes. 

 

 

 

 

Hoje a alvorada foi às sete da manhã, para o embarque num bote de borracha com destino ao mar aberto entre o Pico, Faial e S. Jorge. Objectivo: avistar baleias e golfinhos. A neblina da manhã deu à viagem o cunho sobrenatural que nos tem acompanhado sempre por aqui. E a sorte continua também connosco, já que quatro grandes cachalotes nos brindaram com a sua presença à tona de água, a poucos metros de distância, seguida de um mergulho vertical que deixou à nossa vista as enormes barbatanas caudais. Faltou ao encontro a grande baleia azul – o maior animal do planeta – que só aparece nestas águas entre Abril e Junho, migrando depois para outras paragens. Depois das baleias, navegámos por algum tempo escoltados por uma colónia de cerca de trezentos golfinhos, tão amigáveis e habituados a estas visitas que saltavam alegremente à volta do barco, sem qualquer medo ou timidez. No regresso a terra, já se desenhava em volta do Pico aquela curiosa formação de nuvens que às vezes configura um chapéu em torno do cume, a 2.351 metros de altitude, que no Inverno se cobre de neve. Uma beleza.  

 

 

Depois de todas estas emoções esperava-nos um merecido jantar no Canto do Paço, o melhor restaurante da Prainha, que nos foi muito recomendado e teve que ser marcado logo no dia em que chegámos. Muito bom, realmente.

 

E por aqui se detém esta crónica, por hoje. Na próxima vez que vos escrever, já estaremos em S. Miguel. Esta foi a nossa casa no Pico:

 


 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 00:07
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14 comentários:
De Meloes a 21 de Agosto de 2008 às 10:10
Por la passarei, beberei o meu gin tonic e buscarei alguma mensagem perdida.
(Nunca mais chega Setembro)
beijos
De Ana Vidal a 21 de Agosto de 2008 às 11:35
Bebe um à minha saúde, Melões.
Boas férias em Setembro neste paraíso que vais adorar, tenho a certeza.
Beijo
De Luísa a 21 de Agosto de 2008 às 18:18
Continuamos a segui-la nas suas explorações, Ana. A nota da travessia épica, entre vagalhões arrepiantes, é de cortar a respiração, a cauda do cachalote mete medo e a vista do Pico é esmagadora. Uma grande aventura! Aguardamos novos desenvolvimentos… mas dê-nos uns segundinhos só para recuperar o sangue-frio. ;-)
De Ana Vidal a 25 de Agosto de 2008 às 02:34
Garanto que não exagerei, Luísa: o dia da travessia foi escolhido a dedo, com marés vivas e eclipse... e os cachalotes eram bem maiores do que o nosso barco. Enfim, uma aventura mesmo! :)
De sum a 22 de Agosto de 2008 às 00:38
Que espectáculo, assim vale a pena mesmo.
Beijinho grande
De Ana Vidal a 25 de Agosto de 2008 às 02:32
Beijinho, Sum. Já conhece os Açores? Não perca...
De João Paulo Cardoso a 22 de Agosto de 2008 às 19:28
Leio esta narrativa de viagem com um suspiro sonhador porque amo os Açores - já o tinha dito 'né? - e também porque desconhecia os teus dotes para narrativas de viagem.

Ao pé de ti o Gonçalo Cadilhe é um menino da primária que faz composições.

Estás mais na linha de um Bruce Chatwin, só faltou que alguém te fotografasse dentro do espadarte!

Nota-se também alguns traços de Hemingway.
;)

A vida nas ilhas é mais plácida, como em alguns pontos do Alentejo, mas têm a vantagem de só ter mar à volta.

Nós por cá é mais trocas e baldrocas.
Lê o "Eldorado" e perceberás.

Beijos e continuação de um tempo eldorado nos Açores.
De Ana Vidal a 25 de Agosto de 2008 às 02:32
Obrigada pelos elogios e pelos exageros, JP. Não sou eu, são aquelas ilhas que nos deixam inspirados! Uma narrativa de viagem a sério teria de ter muito mais pormenores, eu limitei-me a divagar... devagar!
Amanhã começo a pôr as minhas leituras em dia e lá irei ao Eldorado.
Beijos
De RAA a 22 de Agosto de 2008 às 23:32
Espantoso, vizinha! Quando for velho e os aviões me aborrecerem menos, hei-de fazer esse périplo -- de preferência acompanhado do grande Nemésio.
Boas férias!
De Ana Vidal a 25 de Agosto de 2008 às 02:29
Garanto-lhe que é imperdível, vizinho! Vale o esforço e o aborrecimento aéreo, que nem é longo. E entre ilhas tem sempre a alternativa de um barco, que dá à coisa uma magia acrescida. Mas não deixe de ir...
De JuliaML a 23 de Agosto de 2008 às 00:09

.......até estou com inveja! inveja da boa!

1 beijo meu
De Cristina Ribeiro a 23 de Agosto de 2008 às 01:51
Que continue a boa travessia, Ana!...
De marie tourvel a 23 de Agosto de 2008 às 15:41
Passo por aqui para um breve olá. Meu trabalho está me consumindo, mas já na próxima semana estarei mais tranqüila e retornarei às leituras prazerosas. E aqui é um prazer mesmo. :) Um grande beijo e até, querida.
De Ana Vidal a 25 de Agosto de 2008 às 02:27
Cheguei hoje, Marie. Bom te ver por aqui, mesmo apressada. Vou tentar retribuir a visita!
Beijo!

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