Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

À última (da) hora

 

 

Sempre me fez urticária aquele riso escarninho, trocista, de quem julga ter o mundo aos pés. Não exagero: as pretensões políticas dele já foram de uma megalomania tal que roçava o ridículo, e sem que alguma vez se tenha apercebido disso (é egótico de mais para sequer imaginá-lo), era gozado por toda a gente por causa disso. Enfim, fraquezas perdoáveis a quem tenha qualidades que as suplantem. Mas não é o caso. Foi toda a vida um marido e um pai déspota, intratável, que humilhava em público os filhos com exigências e exibições de autoridade absolutamente descabidas, e expunha a mulher (que era muito bonita, por sinal) como um troféu de sua exclusiva propriedade, merecidamente ganho numa qualquer mesa de jogo. Porque ele é um jogador inveterado, também. E dos que têm mau perder, ainda por cima. Lembro-me bem de assistir, há muitos anos, a exibições deploráveis do seu proverbial mau feitio, sempre que o jogo não lhe corria de feição.

 

A vida não o poupou, é verdade: primeiro, a revolução de Abril atirou-o para uma insustentável prateleira na empresa em que trabalhava, onde contava chegar longe devido ao nome que lhe coroava o cartão de visita. Não por mérito próprio, que nunca o teve. Mas nunca se recompôs dessa "injustiça", nem tanto orgulho ferido alguma vez o levou a tentar provar o seu valor, de outra qualquer maneira. Ficou enclausurado num ódio primário, irracional, que remói para o resto da vida numa espécie de vingança cega, aplicada a eito em todos os que lhe estão mais próximos. Depois, muito mais grave do que a humilhação profissional, a sua vida familiar foi cruelmente atravessada por duas tragédias arrasadoras. Nessa altura toda a gente teve pena dele. Mas nem assim se tornou mais humilde ou aprendeu alguma coisa de útil com esses terríveis acontecimentos. Pelo contrário, dir-se-ia que o desgosto refinou tudo o que ele tinha de pior, e o azedume tem vindo a corroê-lo por dentro, por inteiro, como um ácido letal.

 

Eu já não o via há alguns anos, felizmente. Encontrei-o há poucos dias, por acaso, numa livraria do Chiado. Ainda tentei disfarçar, mas foi inútil: ele tinha qualquer coisa para ensinar-me, como sempre, porque veio lá do fundo para me falar, num gesto magnânimo sublinhado pelo insuportável sorriso de superioridade. Estava com um amigo mais novo que, percebi logo, o bajulava. Enorme erro, pensei. Apresentou-nos e trocámos algumas palavras de circunstância. Quis ver o que eu estava a comprar e preparava-se para dissertar sobre a minha escolha quando eu lhe disse que estava cheia de pressa, porque estava de partida para férias e tinha passado por ali, à última da hora, para comprar aquele livro que me fazia falta para as minhas pesquisas.

 

E pronto, eu acabara de dar-lhe o mote para uma aula de português correcto. O tal amigo tinha-se afastado para o fundo da livraria e não nos ouvia, mas havia por ali clientes suficientes para compor uma plateia que lhe parecesse valer a pena. Rasgou um sorriso sardónico e disparou, bem alto para conseguir o máximo efeito: “Não sabes que não se diz à última da hora, mas sim à última hora? E julgas-te tu uma escritora?! Francamente, menina!!”.

 

Tenho de abrir aqui um parêntesis, para explicar que teria aceite a correcção de bom grado, se ela tivesse partido de qualquer outra pessoa. Não tenho nenhuma pretensão de escrever ou falar um português sem falhas, e todos os dias aprendo alguma coisa sobre a minha língua que não sabia antes. Além disso, estou muito longe de considerar-me uma escritora. Mas aquilo irritou-me. Aquela criatura tem sempre que dar lições a toda a gente, sobre todos os temas. Apanhou-me numa falta, não tão grave que justificasse todo aquele chinfrim, e aproveitou logo para fazer o seu brilharete. Subiu-me a mostarda ao nariz, confesso. Também tenho mau feitio. Olhei-o nos olhos e fiz o meu sorriso mais cândido, para ganhar tempo. E depois, quase sem pensar saiu-me isto, enquanto compunha um ar blasé: “Engana-se. Diz-se à última da hora e a expressão significa à última badalada da hora. Vem do tempo dos antigos relógios de sala, que cantavam as badaladas, e quer dizer que o tempo está a esgotar-se. Olhe, é o meu caso, peço desculpa mas tenho mesmo que me ir embora.”

 

Deixei-o plantado, sem lhe dar oportunidade de resposta. Às vezes sou mazinha: aquilo fez-me ganhar o dia. Ainda vi, por cima do ombro, o amigo aproximar-se dele e fazer-me um adeus com a mão. E seria capaz de jurar que foi aquele desgraçado quem pagou as favas pelo meu atrevimento. Pelo menos não deve ter-se livrado de ouvir uma lição acabadinha de aprender e totalmente falsa: “Sabes qual é a origem da expressão À última da hora?”... 

 

publicado por Ana Vidal às 23:20
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16 comentários:
De Cristina Ribeiro a 15 de Agosto de 2008 às 02:54
Ri-me bem alto com a sua história, Ana,
É como diz: certas pessoas têm o dom de nos irritar com um sermão que noutras pessoas vemos como uma bem intencionada , e sempre bem-vinda, ajuda.
De Ana Vidal a 15 de Agosto de 2008 às 12:06
Nem mais, Cristina. Gosto sempre que me corrijam, mas assim...
:)
De JuliaML a 15 de Agosto de 2008 às 20:49

"sem pensar" dizes tu! Que faria se pensasses. Trucidarias o homem.

O elemento deve ser uma peça
De patti a 15 de Agosto de 2008 às 11:01
Ai estes pequeninos prazeres ...
De Ana Vidal a 15 de Agosto de 2008 às 12:05
É por causa deles que hei-de ir parar ao inferno, Patti... o pior é que vou dar de caras com este, assim que lá chegar! Vai ser esse o meu castigo...
De miguel a 15 de Agosto de 2008 às 11:35
Chegado de Barcelona, uma cidade para as pessoas, a caminho do Baleal, uma praia para os carros,quero deixar deste modo um sinal da minha presença: é sempre bom repousar a vista nos (bons ) blogues dos (bons ) amigos, sempre talentosos, persistentes, criativos.

E a propósito: que é feito do PSB? Estará no Baleal?
Se sim, e sabendo o mundo que tanto me apraz glosar o seu polemismo, encarar-me-á ele com indiferença? simpatia? despeito?condescendência? agressividade contida ( ou não contida?)?

um abraço a todos e em especial à Ana.

De Ana Vidal a 15 de Agosto de 2008 às 12:24
Boas férias no Baleal (não te invejo, em Agosto!), mesmo com mais carros, pessoas e intrigas por metro quadrado do que a minha noção de férias admite. Se encontrares por lá o PSB - e se ele te falar, claro... - dá-lhe um beijo meu. LOL

Um abraço, Miguel.
De psb a 17 de Agosto de 2008 às 18:35
Miguel
Aproveito aqui a brisa que esta Porta nos faculta, para te responder (obrigado Ana, pela boleia). Este ano não vou estar no Baleal, com muita pena minha e da família toda. Irei lá, porventura. Indo ou não indo, se te vir ou se te visse, farei, faria, o mesmo de sempre: cumprimento-te, cumprimentava-te, como sempre o fiz toda a Vida, com dois dedos de conversa à mistura. Sem qualquer reserva mental, como sempre.
Ou estarei enganado (ingénuo?) e as tuas glosas pretenderiam ter outro objectivo?
Um abraço
De pedro a 15 de Agosto de 2008 às 15:12
:) Eu infelizmente ainda não ganhei traquejo necessário para lidar com esse tipo de situações; só quando chego a casa é que me lembro do que poderia dizer e não disse. Mas isto vai lá, porque deve saber tão bem...
De Ana Vidal a 15 de Agosto de 2008 às 16:22
Sabe bem, sabe...
;)
De Luísa a 15 de Agosto de 2008 às 18:29
Não lhe adivinhava esta faceta, querida Ana, mas o sorriso cândido com que respondeu compõe o quadro. ;-D
Há gente assim, que só deixa descontentes, infelizes e revoltados à sua volta. Mas, às vezes, tenho pena deles, porque nem sempre têm essa consciência: ficariam genuinamente surpreendidos, se soubessem como são detestados.
De Ana Vidal a 15 de Agosto de 2008 às 19:57
Eu tenho mais pena dos infelizes que ele tem massacrado toda a vida, Luísa, por isso estas pequenas vinganças sabem tão bem. Mas tem razão, ele ficaria espantado se percebesse que toda a gente o detesta... acha-se interessantíssimo!
:)
De psb a 17 de Agosto de 2008 às 18:25
Ana
Como sempre, uma Senhora. No meio ácido em que o dissolveste, não deixaste escapar qualquer pista que revelasse a vítima.
No entanto, atrever-me-ia a dizer que descortinei de quem se trata.
Estando certo, era uma das maiores bestas que alguma vez conheci. E sendo ele, revelo mais um episódio que lhe conheci: em determinada época, fazia-se acompanhar da filha mais velha, que era muito bonita e bem dotada mas burra que nem um cepo, apresentando-a como sua amante...
Beijinhos.
De Ana Vidal a 17 de Agosto de 2008 às 20:15
Pedro... ups! Não era suposto ninguém reconhecer a figura, espero que tenhas sido só tu... acertaste em cheio e haveria muitas mais histórias a contar sobre ele, mas não vou acrescentar mais nada...
beijinhos
De Mad a 18 de Agosto de 2008 às 22:30
Acho que tb sei quem é, já que o Pedro tb o conhece. Pode ser quem eu estou a pensar, o candidato a Presidente da Junta?

CHEGO SÁBADO 30 DE MANHÃZINHA!!!!!!!
De Ana Vidal a 19 de Agosto de 2008 às 01:04
Apaguei o teu outro comentário porque não quero mais identificações. Já chega. Quem conhece conhece, quem não conhece escusa de saber quem é.

Boa... chego antes de ti, vou esperar-te ao aeroporto!

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