Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

Classe

 

Se há gente que respeito é aquela que aguenta os embates da vida com classe, por mais brutais que eles sejam. Quem, confrontado com um revés pessoal, não cede à tentação de fazer dele uma bandeira lancinante, arrastando um espectáculo de vitimização que é sempre confrangedor porque deixa impotentes todos os que assistem. Não é fácil, eu sei. Não é certamente para todos manter direita e vertical uma espinha que por dentro estará mais partida do que a de Frida Khalo. Quem se mostra superior nestes momentos demonstra ter uma estrutura invejável, o melhor trunfo para a futura reconstrução de um castelo de areia que ficou em ruínas.

 

Admiro a fibra, o pudor, a subtileza. A classe, enfim. E admiro ainda mais quando à elegância se junta o sentido de humor, que quase sempre nos falha nestes momentos.

 

Tudo isto encontrei em Marie Tourvel, a quem tiro respeitosamente o meu chapéu: num único desabafo - este que aqui reproduzo - diagnostica, relata, ironiza e relativiza, cirurgicamente, uma desilusão que adivinhamos ter sido bem dura. A lição está lá toda, o recado foi dado ao destinatário com um tiro certeiro no coração. E, felizmente, não faz de nós carpideiras. Poupa-nos. Não há acusações, não há queixas, não há convite à comiseração. Pelo contrário, faz-nos sorrir da coragem, da graça e da dignidade com que enfrenta uma maré negra. Quem assim se desconstroi vai reconstruir-se depressa e bem, tenho a certeza. Vai ficar mais forte ainda. Parabéns, Marie.

 


Desconstructing Marie 


Ofensa: ato ou dito que lesa um sentimento respeitável ou legítimo; desconsideração, desacato, menosprezo.

Velhacaria: ação ou comportamento de pessoa que é velhaca ou que age como tal; patifaria.

Surpresa: fato ou coisa que surpreende, que causa admiração ou espanto.

Decepção: sentimento de tristeza, descontentamento ou frustração pela ocorrência de fato inesperado, que representa um mal; desilusão, desapontamento.

Vergonha: desonra que ultraja, humilha; opróbio.

Arrependimento: pesar ou lamentação pelo mal cometido; compunção, contrição.

Choro: ação de verter lágrimas; pranto, lágrimas.

Mágoa: desgosto recolhido cujas marcas transparecem no semblante, nas palavras; tristeza, amargura, pesar. Sensação desagradável causada por agravo ou indelicadeza; ressentimento.

Tristeza: falta de alento; desânimo, desalento, esmorecimento.

Melancolia: estado afetivo caracterizado por profunda tristeza e desencanto geral; depressão.

Raiva: sentimento de irritação, agressividade, rancor e/ou frustração, motivados por aborrecimento, injustiça ou rejeição sofridas etc.

Desprezo: falta de estima, apreço ou consideração; desdém.

Asco: aversão natural por tudo o que seja considerado hediondo ou repugnante; nojo, enjôo, náusea.

Nada: a negação da existência, a não-existência; o que não existe; o vazio. Mais filosoficamente, aquilo que se opõe, contradiz, transcende ou se afasta do ser, em sentido absoluto, relativo, ou como mera construção lingüística; não ser.

É a ordem da desconstrução. Tudo isso numa única madrugada. Coisas da engenharia que só os engenheiros entendem, ninguém mais.

 

Nota: A cereja no topo deste bolo de suprema ironia é a "banda sonora" que Marie escolheu para acompanhar o seu post: The Kinks - Death of a Clown

 

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publicado por Ana Vidal às 09:48
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15 comentários:
De JuliaML a 11 de Agosto de 2008 às 15:23

sou como tu.Detesto comiseração. Ensinaram-me a ter dignidade no sofrimento.

Dei uma olhada no blog e também gostei, saudo a Marie, lindo nome.!Não lhe dou mais mimos porque em excesso enfraquecem,mas quando ela menos contar, estarei lá, no batente.:-)



De Ana Vidal a 11 de Agosto de 2008 às 18:01
És uma querida, Júlia.
Beijinhos
De baterdeasas a 11 de Agosto de 2008 às 18:53
Esse Glossário parece um Cardápio para nos ajudar a definir o que sentimos.... Julgo que aprendemos o significado destas palavras naturalmente dando nomes que parecem adequados ás diferentes circunstâncias (é um processo contínuo ao longo da vida). Não é necessário estudá-los como seria se fossemos extra-terrestre aterrando neste planeta a tentar entender a natureza humana. Acho que é algo instintivo dar um nome ao que sentimos.
Penso que existe muito o medo de estar triste e de sentir outros sentimentos também pouco "positivos".... Mas porque haveremos de viver a enganar-nos a nós próprios....? Sublimar a dor, rir do nossosa sofrimentos não vai à raiz do problema quando há factos reais para esse desconforto.
De Ana Vidal a 11 de Agosto de 2008 às 19:18
Cara Baterdeasas,
Este cardápio, acho eu, não pretende ensinar ninguém sobre sentimentos ou emoções. É simplesmente um exercício de ironia. Pelo menos eu entendi-o como tal.
É claro que a dor tem que ser vivida para depois ser ultrapassada, nisso dou-lhe razão. O que não precisa é de ser um espectáculo público, que não dignifica e nem sequer consola. Mas rir de nós próprios, mesmo que seja em pleno sofrimento, é sempre uma boa terapia e um bom princípio.
De baterdeasas a 11 de Agosto de 2008 às 20:22
isso chama-se "ESTALECA" .... lol
De Ana Vidal a 11 de Agosto de 2008 às 20:29
Isso mesmo! ;)
De João Paulo Cardoso a 11 de Agosto de 2008 às 20:37
É efectivamente necessária muita coragem para desconstruir assim a nossa vida, como que oferecendo as peças de um puzzle que só alguém especial pode voltar a juntar.

Mas por vezes, a raiva é tanta que, durante muito tempo, desejamos que ninguém se afoite a pegar no jogo, para que as peças permaneçam o nosso muito próprio código genético, um exclusivo insondável.

Mas para outras ofensas, surpresas, velhacarias, poucas vergonhas, choro de riso, algum asco, mas nada de raiva, desprezo e muito menos decepção, tristeza, mágoa ou melancolia, nada melhor do que ler
"Driving Mr. Bin Laden".

Está em
http://oeldorado.blogspot.com

Beijos.
Para ti e para a Marie.
De Ana Vidal a 11 de Agosto de 2008 às 21:25
Sabes que gosto de ouvir-te falar a sério, JP? Para variar...

Mas como gosto muito do teu humor, já lá vou espreitar o ninho de cucos do Eldorado...
Driving Mr. Bin Laden? Hummm, promete!

beijo
De Cristina Ribeiro a 12 de Agosto de 2008 às 00:52
Exemplar, mesmo. Força interior de que nem sempre dispomos...
De Ana Vidal a 12 de Agosto de 2008 às 09:13
É verdade, Cristina. Exibir as chagas é sempre mais fácil.
De marie tourvel a 12 de Agosto de 2008 às 03:00
Pois só agora consegui vir por aqui para ler e agradecer. Muito trabalho hoje, Ana, querida. Mesmo não sabendo o motivo de minha desconstrução, soube exatamente entender o post.
Classe? Não sei se tenho. Mas, sim, foi uma auto ironia. É o que me move. Rir de nós mesmos não tem preço.
Pessoas de meu convívio não entenderam, mesmo sabendo dos problemas. Precisei desenhar. Você, não. Você entendeu tudo. Vitimizar-se é o pior dos defeitos, mas todos nós um dia fazemos isso. Mas aprendi a duras penas que o melhor do amadurecimento é o contrário. Obrigada a todos que por aqui comentaram e podem ir lá no Letras que sempre tem música boa, música ruim, post agradável, outros tantos não-agradáveis, deboche, ironia, vinho e o mais importante, muita paixão.
Ana, mais uma vez muito obrigada e obrigada à Meg por ter nos apresentado. Daqui já sou sócia. Um grande beijo a todos. :)
De Ana Vidal a 12 de Agosto de 2008 às 09:18
Querida Marie, se há aqui algum agradecimento a fazer é em sentido contrário. Pela lição.
Vou passando no Letras sempre. Paixão, boa música, ironia e vinho? Essa é uma combinação irresistível para mim!
Beijo grande
De fugidia a 12 de Agosto de 2008 às 19:53
Rir de nós próprios é, de facto, sempre o melhor remédio...


Beijinho.
De Ana Vidal a 12 de Agosto de 2008 às 21:17
É mesmo, Fugi. É o que nos leva mais depressa outra vez a um porto seguro.
De Anónimo a 14 de Agosto de 2008 às 10:28
Grande lição! Classe é isso mesmo, e como a Ana diz e muito bem não é para toda a gente. Parabéns à Marie. Quem lhe causou sofrimento não a merecia.

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