Sábado, 9 de Agosto de 2008

Despertar

 

 

"Quando a China despertar, o mundo tremerá". Quem o disse foi Napoleão Bonaparte, em 1816. E ninguém poderá negar-lhe o direito ao epíteto de visionário, por muitos defeitos que tivesse.

 

Lembro-me bem de um livro que o meu avô nos recomendava ler, há muitos anos: Quando a China Despertar, de Alain Peyreffite (*), que nos dava conta dessa mesma... realidade. Ia escrever "ameaça", mas detive-me a tempo. "Só será ameaça se o Ocidente ignorar essa força emergente e não se preparar para ela", dizia o meu avô. E tinha razão no vaticínio, porque me parece que foi exactamente o que aconteceu. A velha Europa, sobretudo - arrogante e narcisista por natureza - deu-se ao luxo de subestimar o gigante que se espreguiçava lentamente, abandonando o sono de séculos a que fora obrigado. A China sofreu e aprendeu, sofreu mais e aprendeu mais. E despertou, afinal.

 

A cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos não foi mais do que uma (belíssima) demonstração dessa pujança, dessa força imbatível que alia orgulho na tradição, disciplina férrea e total ausência de individualismo.  Todas estas características nos abandonaram há muito, a nós que adoramos o protagonismo e que reagimos mal ao sacrifício em prol do colectivo. A nós, ocidentais, que nos deixámos dormir no pedestal em que nós próprios nos colocámos, julgando o lugar eternamente garantido. E agora, de repente, queixamo-nos de uma invasão em massa e de uma batalha perdida antes mesmo de ter começado.

 

A China despertou, mas o problema não foi esse. O problema, o grande problema, foi termos nós adormecido, entretanto.

 

(*) O mesmo autor escreveu há poucos anos, antes de morrer, "A China despertou"

publicado por Ana Vidal às 18:45
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6 comentários:
De adelaide a 10 de Agosto de 2008 às 00:13
Tem toda razão, Ana. A China desperta e nos pega (quase) desprevenidos. Mas ainda que nos tivéssemos preparado para conviver com ela, há grandes dificuldades culturais e práticas a transpor.
Obrigada por me citar no Cata-Ventos, fiquei bem contente.
Um beijo e um excelente domingo.
De Ana Vidal a 10 de Agosto de 2008 às 17:35
Claro que sim, Adelaide. A China tem muito que aprender sobre direitos humanos e nós não vamos voltar atrás nesse capítulo (espero!). E há diferenças culturais dificilmente transponíveis, mas podem talvez ser rodeadas se houver abertura de ambos os lados. O problema está aí, em conviver com elas sem ceder no essencial...

Quanto ao Cata-Ventos, nada a agradecer. É sempre muito bom ler os seus excelentes textos.
Um beijo
De JuliaML a 10 de Agosto de 2008 às 13:35
:-)

pronto, Ana, entrego os pontos, colocaste as coisas de uma forma inesperada.

De Ana Vidal a 10 de Agosto de 2008 às 17:36
Júlia, :)
De Luísa a 11 de Agosto de 2008 às 00:43
Não sei, Ana, se é possível considerar este arranque económico chinês como o «despertar» da China. Será que Angola também «despertou» com o seu alucinante crescimento? E a Arábia e a Venezuela, com a riqueza do petróleo? Ou será que ainda lhes falta tomar consciência de mais algumas coisas?... O futuro, certamente, o dirá. :-)
De Ana Vidal a 11 de Agosto de 2008 às 01:15
Concordo consigo Luísa, em que lhes falta tomar consciência de muitas coisas. Mas esse despertar começou com a queda de Mao, embora o regime seja ainda muito despótico. Mas uma das coisas em que reparei, no espectáculo de abertura dos Jogos, foi a preocupação de mostrar toda a diversidade da China (nos trajes regionais, por exemplo), a contrariar a uniformização cinzenta de Mao. E isso é o princípio de um despertar...
Mas tem razão, o futuro dirá se o rumo da China é o do progresso ou só o do poder económico, que já é esmagador. :)

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