Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

Rik

 

Há algum tempo, divulguei aqui um pedido de ajuda encabeçado pela Caritas de Setúbal - o Apadrinhamento à Distância -  destinado a melhorar a vida das crianças pobres de S. Tomé e Príncipe. A iniciativa está muito bem organizada, estabelecendo um laço personalizado entre quem ajuda e quem é ajudado, o que faz toda a diferença no que toca a empenhamento: apela à responsabilidade pessoal, dá uma cara (e as caras são mesmo irresistíveis...) à nossa vontade de ajudar. Digo "nossa" porque já tenho um afilhado em S. Tomé. Chegou ontem, à minha caixa de correio, a carta com a ficha da criança que me foi atribuída.

 

Dá pelo pomposo nome de Henrikson e tem 5 anos. Tem uns olhos imensos, interrogativos, e a expressão ligeiramente zangada de quem não percebe muito bem porque lhe calhou sofrer assim, logo desde o primeiro momento em que pôs um pé no mundo. É impossível não querer protegê-lo, é enorme o impulso de tentar substituir aquele pai que já morreu, a mãe e os irmãos (4, todos mais velhos) que não se interessam por ele. Não os crucifico: não faço a menor ideia do que é viver como eles, naquele grau de miséria extrema em que só a sobrevivência pessoal importa e tudo o resto se apaga... mesmo os mais básicos instintos, como o maternal. Parece-nos, a nós que vivemos com todo o conforto da civilização (mesmo os que têm dificuldades), muito criticável este abandono de um filho. Mas o que faríamos nós em semelhantes condições? Não sei. Não julgo, portanto. Não é esse o meu papel, nem isso adiantaria nada ao meu afilhado.

 

Tenho um afilhado em S. Tomé e vou chamar-lhe Rik, porque o seu nome completo me parece muito pesado para aquela carinha de quem quer descobrir o mundo inteiro num bater de asas, aquele olhar esperto e matreiro de sobrevivente, aquele desafio na expressão que, apesar de tudo, é muito doce. Vou escrever-lhe sempre, mesmo sabendo que não terei resposta muitas vezes. As pessoas que olham por estas crianças têm muito mais que fazer, não têm muito tempo para as cartas. Apesar disso, prometem mandar notícias das vitórias de cada uma delas, sempre que lhes sobre um bocadinho para isso. É um trabalho admirável, que respeito como poucos outros.

 

Vá, entusiasmem-se também. Custa-nos tão pouco... e para estas crianças faz toda a diferença. É a distância que vai entre a total impossibilidade e o milagre de uma educação condigna, que lhes seja útil mais tarde e lhes dê uma Vida. Porque o que têm pela frente é pouco mais do que morte...

 

Aqui fica o contacto, para quem quiser candidatar-se ou saber mais informações: caritas.setubal@mail.telepac.pt

 

(Nota: Fico muito feliz por saber que contagiei outras pessoas com este apelo, quando o postei aqui. Ontem também o Pedro Silveira Botelho, meu amigo e "sócio" neste blogue, me disse que recebeu uma carta com a atribuição de um afilhado. No caso dele, a criança tem 2 anos e chama-se Helder. O Pedro já lhe escreveu a primeira carta e pediu-me que a publicasse aqui - retomando com ela os seus Observatórios - com a intenção de divulgar esta iniciativa. É o que farei.)

 

publicado por Ana Vidal às 13:40
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8 comentários:
De mike a 5 de Agosto de 2008 às 23:17
Parabéns, Ana. Sinceros.
De fugidia a 5 de Agosto de 2008 às 23:30
Parabéns a todos
De Ana Vidal a 5 de Agosto de 2008 às 23:57
Fugi e Mike, acho que estamos mesmo de parabéns... ganhámos 2 afilhados!
;)
De sofia k. a 6 de Agosto de 2008 às 11:07
Então o Rik é meu quê, se somos os dois teus afilhados??? Quase primo não?

Muitos beijinhos e parabéns por esse gesto tão bonito
De Ana Vidal a 6 de Agosto de 2008 às 16:43
Quase mano, querida!
Beijinhos :)
De Luísa a 7 de Agosto de 2008 às 03:23
Ana, depois do que vejo que aconteceu consigo e com o Pedro, fico tentadíssima a seguir-lhes o exemplo. Vou informar-me… Apetece-me imenso. :-)
De Ana Vidal a 7 de Agosto de 2008 às 10:17
Que bom, Luísa!
E eles agradecem, tenho a certeza.
Um beijinho especial por isso. :)

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