Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

Liquefeito

 

Dir-te-ia que as águas subiram hoje de novo numa maré tão festiva como inútil porque de novo o navio se fez ao mar sem ti de velas desfraldadas num despudor que ainda te celebra. Dir-te-ia que de tanto fitar o horizonte os meus olhos confundiram já todos os azuis e fundiram todas as formas e refundiram todas as sombras. Dir-te-ia que as fronteiras se diluem sem retorno esbatidas pela maresia e pelo tempo. Dir-te-ia que me adormece o suave balanço das ondas no sussurro manso deste mar eterno que me deixaste de presente talvez para compensar a tua ausência. Dir-te-ia que sou já pedra búzio alga areia estrela-do-mar e que me vou habituando a este corpo mutante e a esta nova pele tão facilmente como me vou desabituando de ti. Dir-te-ia que as brumas já não me assustam e que a ronca do velho farol me canta ao ouvido canções de embalar à noite quando me abraça o nevoeiro imitando os teus braços longos de pirata. Dir-te-ia que a nossa casa me escorre agora da memória, desabitada e nua. Dir-te-ia amor que o nosso mundo se liquefez.

 

(Imagem - René Magritte, O Sedutor) 

 

publicado por Ana Vidal às 23:50
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27 comentários:
De fugidia a 5 de Agosto de 2008 às 00:07

Creio, Ana, que foi o mais belo texto que li nos últimos tempos.
Parabéns.
De fugidia a 5 de Agosto de 2008 às 00:08
P. S.
A imagem é magnífica para este texto
De Ana Vidal a 5 de Agosto de 2008 às 00:41
Foi o contrário, Fugi: apeteceu-me divagar outra vez sobre um Magritte...
Beijinho :)
De Anónimo a 5 de Agosto de 2008 às 00:35
Cá estou de regresso, vizinha, encontrando-a em grande forma.
Um abraço.
De Ana Vidal a 5 de Agosto de 2008 às 00:44
Seja bem-vindo, vizinho. Espero que tenha tido umas óptimas férias!
Beijo, já lá vou espreitá-lo.
De RAA a 5 de Agosto de 2008 às 00:37
Anónimo, eu!, este sapo prega-me partidas.
De Ana Vidal a 5 de Agosto de 2008 às 00:57
:)
De Meg a 5 de Agosto de 2008 às 00:47
Oh minha querida!
Assim são os milagres da transubstanciação.

E nos deixas speechless.

Com o meu mais doce carinho.
M.
De Ana Vidal a 5 de Agosto de 2008 às 01:01
Meggy, que saudades de ver-te por aqui... gosto muito que te transubstancies para este lado do atlântico!

O que nunca te deixarei é homeless... ou blogless... ;))

Grande beijo, amiga.
De Meg (Sub Rosa) a 5 de Agosto de 2008 às 01:17
Querida Ana, sei bem de tua Amizade e de teu bem-querer. E por eles agradeço.
Mas, na verdade, eu referia-me ao poder que só os artistas, os Criadores, como tu, possuem, o de transformar temas tão profundamewnte humanos e tão recônditos em uma obra de arte como é esse teu riquísimo e belo e vivo texto.

=-=-=-=
Off topic : eu no dia 6 volto ao hosptal e possivelmente me submeto a uma intervenção cirúrgica, coisa de não tão grande monta.
Queria escrever-te, mas não quero falhar.
O caso é que quem precisa dessa escrita (do email) sou eu.;-)
Mas... como só é possível uma coisa, então vamos aguardar.
Queria tambem uma foto especial da Katia. Salvei-a mas perdi.
Enfim, olha, já está quase tudo dito.
Mas o principal era dar-te os parabéns pela beleza e riqueza do teu texto, magnífico exemplo do do *poder da criação*

Beijos e mais beijos
M.
De Ana Vidal a 5 de Agosto de 2008 às 01:34
Minha querida, eu que estava a disfarçar porque me deixaste embaraçada com tanto elogio... e tu voltas à carga! Mas agradeço-te, claro, minha amiga. Como não?
E vou ficar a torcer para que tudo corra bem contigo (sei que vai correr bem!) e à espera de mais notícias.

(Quanto ao resto não te preocupes, mando-te por mail uma ou duas boas fotografias. E vou escrever-te ainda hoje, se não cair para o lado com sono... é que aqui já é muito tarde, e eu venho de um jantar bem servido e bem regado...)

Mil beijos!
De Cristina Ribeiro a 5 de Agosto de 2008 às 01:26
ou: quase uma ode aos amores desfeitos.
Gostei de ler, Ana
De Ana Vidal a 5 de Agosto de 2008 às 01:46
Cristina, obrigada. :)
De SC a 5 de Agosto de 2008 às 11:37
Só me ocorre uma palavra: Magnífico.
Ah, e também: Parabéns.
(Para não dizer que voltei a ficar sem palavras...)
De Ana Vidal a 5 de Agosto de 2008 às 15:16
Eu é que fico sem palavras, SC.
Obrigada (esta chega...)
:)
De mike a 5 de Agosto de 2008 às 23:20
A imagem é de René Magritte e eu pergunto-me quem é o autor (ou autora) de tão belo texto... ;)
De Ana Vidal a 6 de Agosto de 2008 às 00:10
Às vezes nem eu sei, Mike...
;)
De mike a 6 de Agosto de 2008 às 00:13
Hum... veja lá se se decide, menina. :)
De Ana Vidal a 6 de Agosto de 2008 às 00:26
Está decidido: imagem e texto de Magritte! :)
De mike a 6 de Agosto de 2008 às 13:52
(gargalhada)
E eu que não sabia que se chamava Ana Magritte Vidal... (ai que não paro de rir)
De Ana Vidal a 6 de Agosto de 2008 às 17:18
Não me chamo Magritte mas tenho pena, Mike: agora estaria rica...
De mike a 6 de Agosto de 2008 às 19:51
Ora, ora, não é o dinheiro que torna as pessoas ricas... :)
(mas carradas de dinheiro... já não sei... risos)
De Ana Vidal a 6 de Agosto de 2008 às 20:19
Não é mesmo, Mike. Pensando bem, preferia ter os quadros dele do que o dinheiro da venda... mas talvez vendesse meia dúzia e os transformasse em viagens!
De mike a 6 de Agosto de 2008 às 23:13
Ah, isso sim! Ainda bem que sou seu amigo... (risos)
De Ana Vidal a 6 de Agosto de 2008 às 23:20
Há muito mundo para descobrir ainda... e muito para revisitar, também. :)
De sofia k. a 6 de Agosto de 2008 às 11:02
Ao ritmo das ondas e da maré escreveste uma coisa lindíssima até o navio desaparecer no horizonte. Gostei!

beijo
De Ana Vidal a 6 de Agosto de 2008 às 22:40
Beijo, miúda.
;)

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