Domingo, 27 de Julho de 2008

Feira de Velharias (10)

Nos últimos dias tenho-me lembrado muito da minha Mãe, mais ainda do que é habitual. Por isso me apeteceu republicar este texto que escrevi no dia em que fiquei sem ela.
 
 
 
Mãe
 
É sabido que, quando morremos, todos nos transformamos em boas pessoas. Há um certo estatuto de superioridade no mistério da morte, que lança um véu dourado de temor e respeito nos que ficam e os faz mais benevolentes para com quem ascendeu a um plano desconhecido. Os defeitos são atenuados, as qualidades tendem a sobressair, quase tudo é perdoado.

Por outro lado, suponho que não será quase nunca difícil, para um filho, tecer comentários lisonjeiros acerca da sua Mãe. A emoção domina-nos o vocabulário e incita-nos à exaltação de alguém que nos faz falta desde o preciso instante em que perdemos a sua presença protectora.

No caso da minha Mãe – posso afirmá-lo sem qualquer dúvida ou hesitação – sei que não preciso de recorrer à parcialidade do amor filial nem à complacência que dá a morte para dizer, dela, que era um ser humano extraordinário. Quem a conheceu, ainda que tenha sido só superficialmente, poderá testemunhar a veracidade desta afirmação.

Foi um exemplo admirável para nós, filhos, e também para todos os que conviveram com ela. A total entrega aos outros foi sempre o seu projecto de vida, e essa escolha aproximou-a muito daquilo a que nós, cristãos, chamamos santidade. Mesmo tendo sido uma Mãe atenta, nunca foi verdadeiramente “nossa”. O seu mundo era incomparavelmente maior do que a família, e filhos eram todos os que precisassem dela, conhecidos ou não.

Era de um despojamento invulgar: não se interessava por coisas, nem elas lhe mereceram nunca grande atenção. Mas gostava de livros, sobretudo dos que descreviam expedições e viagens singulares. Também gostava de discos, principalmente de música clássica. Bach, Beethoven e Mozart foram os grandes companheiros dos seus últimos tempos. Fora isso, contentava-se com muito pouco e era tão naturalmente generosa que dava tudo o que tinha, com um encolher de ombros e uma expressão divertida que acabaram por tornar-se a sua imagem de marca. Interessava-se, isso sim, por pessoas (por todas menos uma – ela própria). Não as diferenciava, a não ser por critérios de carácter e de qualidade humana. Para os frívolos e mesquinhos não tinha a menor paciência, e mostrava-o sem disfarçar. Tinha amigos de todas as idades e de todos os estratos sociais, porque a sua alegria, sentido de humor e simplicidade, eram contagiantes e faziam com que se sentisse bem em qualquer ambiente. Será muito difícil encontrar alguém que não tenha dela uma lembrança carinhosa.

Nunca foi uma típica dona de casa, como a maioria das mulheres da sua geração: independente por natureza, sustentou-se desde muito nova e realizou-se por inteiro numa vocação que parecia feita à sua medida – a medicina. Era uma mulher inteligente e culta, embora nunca caísse na tentação de exibir esses dotes para impressionar ou medir forças com alguém. De raízes urbanas e horizontes abertos, teve afinal que adaptar-se à rígida pequenez da província, numa época em que a sua profissão era vista com desconfiança e preconceito, quando desempenhada por uma mulher. Mas soube, sem guerras nem provocações, dar a volta a tudo e a todos, acabando por transformar em defensores fiéis os seus maiores críticos.
 
Sendo um espírito pragmático, científico, tinha também uma fé inabalável. Conciliava pacificamente evidências e mistérios incorpóreos, matéria e espírito, como se soubesse que cada um desses dois mundos ficaria incompleto sem o outro. Praticava, muito mais do que pregava, os preceitos de um Deus em quem acreditava profundamente.

 

Festejou 60 anos de curso com os amigos de sempre, e 84 de vida com a família próxima. Viveu uma vida plena e feliz mas teve, infelizmente, um fim duro. E até na doença e na morte foi um exemplo: aceitou o sofrimento extremo que lhe coube sem sombra de revolta e com a filosofia dos eleitos, captando o seu significado mais profundo. Talvez essa transcendência nos possa servir de consolo, perante uma tão flagrante injustiça.

Ficaria aqui, ad eternum, a contar episódios da vida da minha Mãe. Há mil histórias, cómicas ou comoventes, que se tornaram célebres entre nós e que ficarão na nossa memória para sempre. Guardo-as com ternura e talvez arrisque contá-las um dia, mesmo sabendo que ficarei sempre aquém da verdade.

 

Hoje, dia em que partiu, fica por aqui esta homenagem. Desapareceu uma Grande Mulher, mas apenas da nossa vista. Continuará tão presente como sempre, no coração de quem teve o privilégio de conhecê-la.
 
Até sempre, minha Mãe.
 
(Publicado em 20 de Maio de 2007)
publicado por Ana Vidal às 22:36
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25 comentários:
De mike a 27 de Julho de 2008 às 23:30
Um abraço à filha de tão especial senhora, e que tão bela homenagem lhe fez.
De Ana Vidal a 28 de Julho de 2008 às 00:48
Obrigada, Mike.
Outro para si.
De O jansenista a 27 de Julho de 2008 às 23:50
Muito bonito!
De Ana Vidal a 28 de Julho de 2008 às 00:48
Muito obrigada, caro Jansenista. Fico muito honrada por tão ilustre visita, acredite.
De sum a 28 de Julho de 2008 às 00:01
Às vezes é bom lembrar com força. Sentimos que não estão esquecidas.

Passados quase 5 anos, não há dia que não me lembre, não há mês que não chore, não há ano que acalme o meu sentimento.

E hoje especialmente lembrei-me tanto, que achei graça ter chegado aqui e ver que não não fui só eu.

Um beijinho grande Ana.
De Ana Vidal a 28 de Julho de 2008 às 00:47
Um grande beijinho para si também, Sum.
Talvez não seja coincidência ter passado hoje por aqui, quem sabe?
De JB a 28 de Julho de 2008 às 09:17
Alguém diria, com uma certa graça: "curioso como as coisas é...". O seu texto, a visita da Sum, o meu escrito de hoje dedicado a alguns aspectos da vida. Detesto o cliché do não há coincidências, prefiro a expressão castelhana que afirma não acreditar em bruxas. Mas que as há, há.
Podia gabar-lhe o texto, que já não me ficava mal a justiça. Mas prefiro lembrar-me do que está por detrás desta vontade de re-publicação e recordar o poeta, quando afirmava sem sombra de dúvidas: "partamos de flor ao peito".
De Ana Vidal a 28 de Julho de 2008 às 09:56
"Se o meu sangue não me engana, como engana a fantasia"... acho que aqui não há enganos, JB. As coincidências chamam-se Amizade. Que la hay, la hay...
Beijinho
De cns a 28 de Julho de 2008 às 12:03
Vim aqui à pouco. E não fui capaz de dizer nada. Há coisas que nos tocam fundo.Nas nossas memórias mais ou menos recentes. Foi o efeito que este texto teve em mim. Há memórias que nos emudecem...

Um abraço grande. Pela tua memória, também.

De Ana Vidal a 28 de Julho de 2008 às 12:17
A nossa memória é a homenagem possível, Cristina. Para não esquecermos as lições que ficaram, que no meu caso foram muitas e preciosas. No teu, acredito que também.
Um beijinho
:)
De fugidia a 28 de Julho de 2008 às 12:05
Beijinho suave, Ana.
De Ana Vidal a 28 de Julho de 2008 às 12:19
Obrigada, Fugi.
Outro para si (ainda está "nas nuvens", com o fim de semana?)
:)
De fugidia a 28 de Julho de 2008 às 12:29

Sim, estou...
e com uma destas preguiça... ui!
(risos)
De Ana Vidal a 28 de Julho de 2008 às 12:34
Então ainda bem que a preguiça a apanha em férias... mesmo que sejam só semi-férias...
:)
De marilia a 28 de Julho de 2008 às 13:02
Tocante.
De Ana Vidal a 28 de Julho de 2008 às 15:32
Um beijo, Marília.
De sofia k. a 28 de Julho de 2008 às 15:30
Há pouco passei quase tão depressa como o vento e não deu para ler. Agora sim. Muito bonito o que escreveste, sabes?

Um grande beijinho
De Ana Vidal a 28 de Julho de 2008 às 15:34
Muito menos bonito do que era a minha Mãe, Sofs.
Beijinho, querida.
De O Réprobo a 28 de Julho de 2008 às 20:50
Querida Ana,
não consigo fazer coro com a consensual crítica de todos passarem a ser bons depois de mortos. Acho que o facto de, nessa ocasião, não se lhes apontar os aspectos menos posittivos apenas honra quem não se aproveita da incapacidade de resposta para mandar abaixo. E um Ser Humano tem Deve e Haver.

Não será o caso da Sua Mãe. Não tive a Honra de A conhecer. Mas vou conhecendo um pouco a Filha e é Produto que não engana quanto à Excelência do(a) Fabricante...
Beijinho deslumbrado
De Ana Vidal a 28 de Julho de 2008 às 20:58
Querido Paulo, a minha Mãe teria com certeza também o seu "Deve", como todos nós. Mas, francamente, não me lembro de nada que possa apontar-lhe nesse capítulo, o que já é significativo.

Quanto ao resto... exagero puro, meu amigo. Nem aos calcanhares do fabricante o produto chegará alguma vez...

Beijinho, e volte depressa!
De JúliaML a 29 de Julho de 2008 às 00:10
euhá pouco também não vi este post...

e o pior é que hoje não tenho coragem de o ler, pois li que o escreveste no dia em que a perdeste.
Fica para outro dia, que prometo , te lerei, serenamente.

um beijo

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