Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

Tempo

 

 

Tempo. Para parar. Parar é um luxo a que raramente nos permitimos, e esse é talvez o maior de todos os erros que cometemos, neste ritmo de vida apressado em que engolimos, sem verdadeiramente os digerirmos, os acontecimentos que nos marcam.

 

Tempo. Esse bem precioso mas não necessariamente escasso, se soubermos disfrutá-lo em vez de gastá-lo. Se soubermos saboreá-lo como um gourmet saboreia um petisco raro, ou como um apreciador se delicia com um bom charuto cubano.

 

Tempo. Para olhar para o longe, para o alto, para o lado. Mas também para dentro, para o fundo de nós. Não como um Narciso que vê no espelho apenas o reflexo da perfeição que julga ter, mas com toda a coragem de que formos capazes. Sem filtros coloridos. Sem batotas. Sem rede. Um mergulho livre e proveitoso, de olhos bem abertos. E depois um redentor regresso à luz, em paz.

 

Tempo. Para sacudir e deitar fora, para bem longe, tudo o que nos fere e nos faz mal. Para nos afastarmos de situações e de pessoas que convocam o que há de pior em nós, o que temos de mais defensivo, e nos fazem reagir com o instinto em vez de o fazermos com a razão. Tempo para descontrair os músculos do corpo e os da alma. Para aliviar a tensão dos mecanismos de sobrevivência que trazemos afivelados, prontos a saltar, como molas, a uma qualquer ameaça.

 

Tempo. Para perdoar. Para resistir à tentação do julgamento fácil, primário. Para avaliar com distância e com calma, tentando vestir a pele de quem dispara à toa e nos acerta com uma bala perdida, talvez sem sequer ter desejado fazê-lo, talvez apenas sob a cegueira causada por uma súbita nuvem negra. Tempo para reconstituir a trajectória dessa bala e ver, mais claramente, de onde partiu ela e porquê. Tempo para relevar, esquecer e seguir em frente.

 

Tempo. Para um olhar cúmplice. Para um beijo. Para um sorriso franco, uma gargalhada. Para voar, navegar, sonhar. Para fazer a trouxa e partir à aventura, com a alma limpa. Para tudo aquilo que a vida tem de bom.

 

Tempo. Para VIVER. 

 

(Life - Des'ree)

publicado por Ana Vidal às 19:10
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10 comentários:
De fugidia a 18 de Julho de 2008 às 19:43
Já sabemos que gostamos da cantora!
Gosto também muito desta música.
Gostei sobretudo do post.

Aprendi num retiro feito em Outubro:

Tempo... para nos reconciliarmos. Connosco próprios.

Beijinho, Ana.
De Ana Vidal a 18 de Julho de 2008 às 19:52
Eu aprendi isso... com a vida. E tento practicar o que vou aprendendo.
E esta música é uma redenção universal! :)
Beijinho, Fugi.
De cns a 18 de Julho de 2008 às 21:44
Tempo. Esse quarto eixo necessário para que saibamos qual o nosso verdadeiro sitio no espaço... Adorei o texto!

De Ana Vidal a 18 de Julho de 2008 às 22:21
Tempo e Espaço... eixos indissociáveis e essenciais.
Sem eles, viver não é mais do que sobreviver.
Obrigada, Cristina.
De Cristina Ribeiro a 18 de Julho de 2008 às 22:10
É. A vida ensina-nos a utilizar o tempo da melhor maneira: a encontrar tempo para o que realmente importa- aprende-se com o decorrer do próprio tempo; não o esbanjar, antes saber vivê-lo.
De Ana Vidal a 18 de Julho de 2008 às 22:23
É essa a dificil aprendizagem, Cristina. Mas também um desafio apaixonante, não é?
De mike a 19 de Julho de 2008 às 00:14
Bem escrito. Gostei de ler. :)
O tempo é amigo. :)
De Ana Vidal a 19 de Julho de 2008 às 00:35
É, mas só se também formos amigos dele.
Se o usarmos mal, ele zanga-se e dá-nos uma lição.
;)
De RAA a 19 de Julho de 2008 às 00:24
Se eu tivesse algo parecido com o Cata-Ventos, aqui em baixo, dava-lhe uma linkada, é certo!
Abraço, vizinha.
De Ana Vidal a 19 de Julho de 2008 às 00:33
E eu registo a intenção, vizinho.
Obrigada e boas férias!
Um beijo

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